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IndieLisboa ’21 | Simon Chama, em análise

A 18ª edição do IndieLisboa traz de volta a Competição Nacional. Nesta integra-se “Simon Chama”, primeira longa metragem realizada pela experiente produtora Marta Sousa Ribeiro. O filme exibe pela primeira vez em Portugal em agosto de 2021, depois de há um ano ter passado pelo conceituado San Sebastian Film Festival. 

Simon Langlois protagoniza “Simon Chama”, na pele de um adolescente que procura escapar das amarras típicas da vertigem existente entre a infância e a idade adulta. Esta primeira obra de Marta Sousa Ribeiro assenta num gesto naturalista, o qual consegue ser aborrecido e fascinante em igual medida – tal qual como a vida.

A longa-metragem faz-se de três momentos distintos, capítulos gravados ao longo dos anos. Mais especificamente, a obra de  Marta Sousa Ribeiro foi filmada no decurso de cinco anos e engloba diversos formatos cinematográficos. Estes são eles próprios marcas da passagem do tempo, com a janela mais pequena a sinalizar a menor liberdade do início da adolescência e a janela mais ampla a indicar a aproximação da maioridade.

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Com gravações realizadas em 2015, 2017 e 2019, “Simon Chama” é um gesto que parece homenagear o de Richard Linklater, “Boyhood”, que havia sido lançado em 2014. Partilha também com o filme a temática dos conflitos banais da transição da infância para uma outra fase mais indeterminada e confusa da vida. O protagonista Simon é moldado pela sua imensa vontade de emancipação, tal como são tantos outros adolescentes, e também pela sua própria dinâmica familiar e separação dos pais.

Oscilamos entre o passado e o presente com uma simplicidade notável e com uma montagem que nunca se torna nem demasiado auto-explicativa nem demasiado embrulhada, provando que os vários formatos fílmicos foram até uma ideia bastante coesa e original.

“Simon Chama” é um típico “coming of age tale,  um conto sobre amadurecimento pessoal e juventude, o qual bebe de uma longa tradicional do cinema indie norte-americano. É uma história sobre tudo e sobre nada, sobre o tempo em que todos nós somos sonhos e possibilidades. Uma história sobre as histórias que contamos a nós mesmos nessa altura, sobre os sonhos que alimentamos e as viagens que projectamos.

Sentimos o tempo passar a vários ritmos, e estas temporalidades distintas e entrelaçadas são quiçá uma das mais notáveis forças desta obra. Isso e o facto da própria narrativa ser evocativa da adolescência da realizadora, que aqui se projeta em Simon.

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Apesar de, por vezes, se tornar algo arrastado devido à sua característica vagarosa, quase como se se tratasse de um documentário ficcionado sobre a vida de qualquer um de nós, esta narrativa acerca do processo de crescimento apresenta um trunfo interessante. A justaposição de várias imagens de jovens adolescentes menores que vivem sozinhos, na rua, como o objeto de desejo para o jovem, sonhador e frequentemente intolerante Simon. Um mundo à parte, um mundo sonhado com o qual devaneia uma e outra vez.

É a América, Nova Iorque, esse falso símbolo de libertação pelo qual tanto anseia. Perversamente, a sua jornada acaba por se revelar bem mais realista. Sim, não há nada mais perverso do que a não pouco usual quebra das nossas expectativas. Simon tem muito por onde crescer, e a sua pessoa parece-nos real, de carne e osso, projetada no grande ecrã. E se nem sempre “Simon Chama” é capaz de agarrar o espectador, sem dúvida é um gesto cinematográfico interessante e distinto de tantos outros do cinema nacional.

TRAILER | SIMON CHAMA INTEGRA A COMPETIÇÃO NACIONAL DA 18ª EDIÇÃO DO INDIELISBOA

 

O Indielisboa ’21 acontece na capital até dia 6 de setembro, com sessões em salas como a Culturgest, Cinema São Jorge ou Cinema Ideal. Já “Simon Chama” volta a exibir uma vez mais, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge – no dia 1 de setembro pelas 22h00. Os bilhetes podem ser comprados aqui. 

Simon Chama , em análise
Indielisboa 21 Simon Chama

Movie title: Simon Chama

Movie description: É a última semana de escola e o Simon não está a estudar para os exames. Os pais divorciaram-se e parecem estar à espera de uma mudança que nunca chega. Simon cansa-se de esperar. E se conseguisse arranjar um bilhete de ida para os EUA? E se fosse possível fazer objectos explodir ao longe? E se o tempo pudesse ser revertido? Ou a liberdade só pode ser encontrada nos filmes?

Date published: 28 de August de 2021

Country: Portugal

Director(s): Marta Sousa Ribeiro

Actor(s): Simon Langlois, Rita Martins

Genre: Ficção, 2021, 84 minutos

  • Maggie Silva - 71
71

CONCLUSÃO:

“Simon Chama” parece querer beber da influência dos realizadores sulistas do indie norte-americano e apresentar um pedaço de vida filmado ao longo dos anos e evocativo da obra de Linklater e seus contemporâneos.

O MELHOR: A capacidade para representar, sem teatralidade, a adolescência em várias das suas facetas.

O claro cuidado com que é tratado o tema e o seu personagem central.

O PIOR: Não existem eventos-chave ou um climax capaz de acrescentar a “Simon Chama” alguma urgência ou catarse  – os eventos sucedem-se, mas nunca nos vemos verdadeiramente envolvidos.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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