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IndieLisboa ’21 | A Cidade dos Abismos, em análise

A programação “Silvestre”, na 18ª edição do IndieLisboa, que decorre até dia 6 de setembro na capital, recebe “A Cidade dos Abismos”, uma obra ficcional oriunda do brasil e que acompanha várias narrativas de mãos dadas numa São Paulo imaginada. 

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“A Cidade dos Abismos”, obra vinda do brasil e criada a duas mentes por Priscyla Bettim e Renato Coelho tem estreia mundial marcada para dia 26 de agosto, no Cinema Ideal, inserida na secção “Silvestre” do IndieLisboa ’21. Esta narrativa evocativa do cinema brasileiro da década de 1970 interliga faces e experiências numa fábula deslocada do tempo e do espaço.

Nesta obra cinematográfica de ficção oscilamos entre o real e o sonho, com uma forte vertente experimental a povoar um trabalho que recusa mover-se dentro dos trâmites habituais de uma narrativa de ficção. Tudo assume um caráter extremamente esotérico, misterioso, o inglês eerie – estranho, inquietante, sinistro – parece ser a palavra que aqui melhor se adequa.

Maya, Bia, Kakule e Glória são os protagonistas desta história fragmentada que retrata uma São Paulo pouco calorosa, cruel, indiferente e promotora da marginalização. São eles duas mulheres trans, a sua nova aliada cisgénero e um refugiado dono de um bar. Do lado errado da escalada social desta grande metrópole, os nossos intervenientes vêem-se unidos, entre sequências de sonho teatrais e outras mais realistas, pela sua pequenez face às instituições que os esmagam.

É o homicídio da jovem Maya, na noite de Natal, que torna Bia, Kakule e Glória num trio unido e vingador. Contudo, será que a cidade e os seus pecados têm escapatória ou expiação possível?

 

Silvestre IndieLisboa '21
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“A Cidade dos Abismos” corresponde à estreia de Priscyla Bettim e Renato Coelho na realização de longas-metragens. Nesta sua criação experimental é de facto notório um certo grau de falta de amadurecimento. Muitas das sequências fazem-se demasiado vagarosas, prolongando-se bem para lá do seu climax emocional e acabando bem depois de cumprirem as suas respetivas intenções.

Há também uma natureza fragmentada muito evidente, com uma total dissociação entre a noite e o dia na cidade de São Paulo. Sem dúvida que a noite assenta melhor à mise-en-scéne, com o negrume a acentuar a sensação de desconfiança e paranóia sentida com legitimidade pelas personagens. O dia traz-nos palavras que não compreendemos e imagens que parecem pouco acrescentar a uma obra que, estranhamente, faz-se sentir demasiado longa com apenas 1h30 de duração.

Não obstante, o final da narrativa é a sua grande salvação. Aqui a forma sobre conteúdo deixa de ser uma realidade tão palpável, à medida que a emotividade aumenta mas também o choque estético e a provocação. Glória sente um arrepio na espinha, tal como os espectadores e espectadoras. Raiva, desilusão, delírio, revolta. São intermináveis as emoções que a sequência final é capaz de evocar, evidenciando, por outro lado, ainda mais a missão social desta pequena obra tão experimental. Um grito de revolta e a recordação de que também se sonha nas trevas. E mais, assim se homenageiam todos os que são esquecidos não só pelas forças de autoridade como pela sociedade num seu todo. Este é o seu tenebroso elogio fúnebre.

 

TRAILER | A CIDADE DOS ABISMOS NO 18º INDIELISBOA 

 

O Indielisboa ’21 continua na capital até ao dia 6 de setembro. Nos dias 7 e 8 encerra em altas com sessões dos vencedores desta que é a sua 18ª edição. Quanto a “A Cidade dos Abismos”, volta a exibir na Sala 3 do Cinema São Jorge, no dia 2 de setembro, pelas 21h30. 

A Cidade dos Abismos , em análise
Poster The City of Abysses indielisboa

Movie title: A Cidade dos Abismos

Movie description: Maya é acompanhada por Glória, a melhor amiga, que lhe promete que estará sempre junto dela, a um consultório clandestino. Ambas mulheres trans, Maya vai colocar silicone, mas uma intervenção atempada leva-a a mudar de ideias. Quando saem, é noite de Natal e chove. Refugiam-se num bar, cujo dono é um refugiado nigeriano chamado Kakule. Lá, refugia-se também Bia, farta dos constantes desentendimentos com o namorado. E assim os seus caminhos irão cruzar-se.

Date published: 28 de August de 2021

Country: Brasil

Director(s): Priscyla Bettim, Renato Coelho

Actor(s): Carolina Castanho, Guylain Mukendi, Sofia Riccardi, Verónica Valenttino

Genre: Ficção, 2021, 90 minutos

  • Maggie Silva - 75
75

CONCLUSÃO:

“A Cidade dos Abismos” é uma vertigem fantasmagórica que problematiza e sonha em igual medida. Um esforço arrojado para uma estreia na realização que denuncia uma cidade e os seus vícios.

 

O MELHOR: Uma das personagens centrais afirma a certo ponto: “as cidades não existem, só os encontros são reais”. As interações valorosas entre os protagonistas parecem validar esta afirmação e consequentemente humanizar a obra.

Uma ode aos marginalizados verdadeiramente original na sua estrutura.

O PIOR: Por vezes a fragmentação torna-se cansativa e pouco útil, quer em termos estilísticos, quer para propósitos de avanço narrativo.

O granulado da imagem é excessivo e pouco apelativo do ponto de vista estético.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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