Inserido na secção “Heart Beat” do DocLisboa em 2026, o filme francês “Kate Bush – The Timeless Genius” ou, no original, “L’Odyssée musicale de Kate Bush”, da autoria de Sonia Gonzalez, é uma obra compacta e sumária que, em menos de 1 hora, nos apresenta de forma quase pecaminosamente sucinta o legado imenso da música desta cantora britânica.
Kate Bush: dos anos 80 para 2022
A longa-metragem, criada para o formato televisivo, tem como ponto de partida para esta “odisseia musical” o revivalismo de Kate Bush que se sucedeu à utilização do tema “Running Up That Hill (A Deal With God)” na quarta temporada da série da Netflix “Stranger Things”, com bastante recorrência e relevância narrativa, o que levou a que toda uma nova geração descobrisse este tema e a discografia da cantora.
De 1985 para 2022, a música foi catapultada para o spotlight como nenhum dos outros temas utilizados ao longo da história da série. Este ponto de partida, auxiliado com vídeos do TikTok e excertos de “Stranger Things” lançou o mote para uma viagem breve pela carreira muito especial de Kate Bush – do arranque ainda na adolescência à nova geração de cantautoras que inspirou, de Bjork a FKA Twigs e mais além.
Kate Bush teve uma jornada verdadeiramente especial, vincando a sua autoria e independência musical uma e outra vez ao longo da sua prolífica carreira. A artista abriu caminho para que o mundo da pop pudesse abranger estilos mais ecléticos, munindo-se de uma visão muito especial, uma voz de soprano fora de série e um estilo visual distinto e único.
A grande pioneira da música pop no DocLisboa 2026
Da sua elevada teatralidade à natureza lírica e narrativa das suas canções, a cantora sempre teve um enorme e impressionante controlo sobre o seu “produto” final – e tal é bastante ilustrado neste “Kate Bush – The Timeless Genius”. Da capacidade e vontade de se auto-produzir no estúdio, passando inclusive pela construção do seu próprio estúdio doméstico, a artista britânica nunca baixou os braços no que diz respeito a reivindicar o seu espaço e a sua criatividade.
Aliás, Kate Bush foi das primeiras compositoras musicais a negociar inteligentemente os seus direitos autorais – preservando-os de uma forma que era quase inédita na altura (ou até agora), com as editoras a reclamarem para si mesmas o copyright dos masters dos seus artistas (impedindo-os assim, de lucrar, no futuro, com as exibições das suas próprias canções). Mas não KateBush, Kate Bush viu cada cêntimo do seu “revival”.
O filme, exibido no presente DocLisboa em 2026, sabe louvar o génio de Kate Bush e ilustrar a sua trajetória impressionante – do sucesso inesperado do single “Wuthering Heights”, ainda como adolescente, passando pelo enorme triunfo de “Hounds of Love“, um disco em que assumiu ao máximo a sua independência musical.

Uma estrutura formal que não faz jus à sua artista
Todavia, é com pena que constatamos que a obra fica muito aquém do ponto de vista formal. Ser curto por demais não é o único problema de “Kate Bush – The Timeless Genius”. Antes fosse. A longa-metragem faz-se sentir realmente como um filme para televisão (que é). Não há ângulos artísticos, apenas movimentos de câmara previsíveis para o género documental e uma sucessão pouco inspirada de materiais de arquivos.
As entrevistas originais, essas são todas realizadas a artistas pouco conhecidos sem ligação pessoal a Bush. Pelo meio, há diversas covers apresentadas por esses mesmos artistas. Mas a questão que se coloca é: porquê? Não seria mais proveitoso apresentar excertos de prestações por parte da própria Kate Bush?
Por outro lado, o filme é inteiramente narrado em voz-off, o que se torna cansativo. Ademais, quando os intervenientes entrevistados falam em inglês, a narradora dobra-os sem grande preceito, ouvindo-se o “som duplo” que em tempos foi tão comum no formato televisivo e que parecia ter já passado de moda.
As temáticas de “L’Odyssée musicale de Kate Bush” são todas mais que legítimas, e até a sua progressão. Não obstante, o filme carece de personalidade própria e faz-se sentir um grande vazio: o vazio de entrevistados mais pertinentes e de um maior desenvolvimento sobre o que levou Bush a afastar-se da luz dos holofotes depois de alguns ciclos de discos de muito sucesso e com pouco espaçamento temporal entre si.
Feitas as contas, é sempre excelente saber mais sobre a sua perícia artística fora de série e sobre o quão pioneira foi a jornada que liderou. Mesmo que o veículo não tenha sido o melhor.
Kate Bush – The Timeless Genius, a Crítica
Conclusão
“Kate Bush – The Timeless Genius” não é cinema com “C” grande – nem perto disso. Como documentário, fica bastante aquém das expectativas. E, ainda assim, é sempre um prazer saber um pouco mais sobre a jornada incrível desta artista singular.



