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Laranjas Sangrentas, em análise

“Laranjas Sangrentas”, o filme vencedor do Prémio do Público no MOTELX em 2021 chegou a 9 de junho de 2022 à distribuição comercial em Portugal. Encontra-se em exibição, em exclusivo no Cinema Ideal, até ao dia 15 pelas 23h45. Trata-se de uma exuberante e surpreendente sátira política.

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“Oranges Sanguines”, comédia negra francesa, teve estreia mundial no Festival de Cinema de Cannes no verão de 2021. Foi passado pouco tempo, em setembro de 2021, que teve a sua 2ª exibição num Festival de Cinema, precisamente no MOTELX, onde este filme foi recebido de braços abertos. A sua chegada, em exclusivo, ao Cinema Ideal, faz-se com o carimbo MOTELX, como não podia deixar de ser.

Esta que é a segunda longa-metragem do cineasta francês Jean-Christophe Meurisse apresenta-se como uma história dividida em dois atos bem delimitados, um mais domado e centrado na hipocrisia do meio político e na sátira às suas estruturas e um segundo momento que coloca “prego a fundo” e se entrega a uma meticulosa análise dos “monstros” que assombram a sociedade contemporânea. É também nesta segunda parte que verdadeiramente mergulhamos no reino do terror – quer através da referenciação, quer mediante o encontro surpreendente e capaz de desarmar entre narrativas-puzzle.

Bloody Oranges Motelx
Um grupo de confidentes à beira da desgraça| ©MOTELX

As histórias de “Laranjas Sangrentas”, as várias que em puzzle se vão desenrolando e relacionando entre si, passam da mundanidade ao terror com aparente naturalidade – mas nada é fácil na forma naturalista como Meurisse merge diversos géneros cinematográficos para criar uma longa-metragem que consegue beber do real e apresentar-se, em simultâneo, como uma paródia “perversa” e surreal.

E se o real parece casar tão bem com o absurdo, é porque as narrativas cruzadas improváveis com que nos deparamos em “Laranjas Sangrentas” provêm da própria vida real. O realizador inspirou-se em três eventos trágico-cómicos reais. Todos eles escondem, para lá da superfície, uma camada de monstruosidade. Monstruosidade essa criada pela própria pressão societária e pela herança que cada um de nós carrega, ao longo da sua vida.

No filme é-nos contada a história de um empático casal de reformados incapaz de soldar as suas dívidas e que, numa última tentativa, tenta vencer um concurso de dança. É-nos também dada a conhecer a vida plástica de um Ministro das Finanças que se encontra a tentar evitar, a todo o custo, acusações de fraude fiscal. Acrescentam-se os encontros sexuais mal fadados de uma adolescente que recusa ser uma mera vítima e ainda a ambição desmedida de um advogado jovem que a todo o custo pretende escalar na hierarquia social.

Laranjas Sangrentas still
A sexualidade feminina sem tabus |©MOTELX

Na primeira metade, este parece um entre muitos outros filmes franceses que escrutinam temáticas como sexismo e misoginia, os limites do politicamente correto, a divisão entre forças partidárias que se opõem ferozmente ou a estrutura de contribuições e reformas em vigor no país. Todavia, o desenrolar do enredo transporta-nos para terrenos férteis, que unem todas estas temáticas e as apresentam como um retrato que pretende ser mais lato e nunca restrito a um único povo. Desta forma, “Oranges Sanguines” é profundamente francês e ainda assim universal e transversal.

Ao fim de contas, de acordo com Meurisse, esta é uma “uma visão crítica da sociedade francesa”, sem nunca deixar de reforçar que “a melhor homenagem que um artista pode prestar ao seu país é criticá-lo”.

A sua sátira política evolui rumo a um climax satisfatório e sangrento (mas não gratuito), através de uma fusão de géneros e uma sucessão de reviravoltas que tornam a experiência de quem vê genuinamente divertida – sem nunca deixar de ser provocadora. “Laranjas Sangrentas”, em todo o seu simbolismo notório, é capaz de questionar sem nunca precisar de oferecer respostas categóricas em relação às várias problemáticas de que se ocupa.

Com uma justaposição muito interessante de cenas aparentemente dissonantes, esta obra demora a arrancar mas compensa toda e qualquer impaciência inicial.

TRAILER | LARANJAS SANGRENTAS EM EXIBIÇÃO EXCLUSIVA NO CINEMA IDEAL

 

Onde ver o filme?

“Laranjas Sangrentas” estreou no Cinema Ideal a 9 de junho, contando com sessões diárias pelas 21h30. As duas últimas sessões da sua exibição em sala serão hoje, 14 de junho, pelas 21h30 e amanhã, 15 de junho, em sessão especial às 23h45 (sessão de meia-noite).

Quanto custa?

Os bilhetes para o Cinema Ideal, que podem ser adquiridos neste espaço sempre a partir das 13h30, custam habitualmente 7 €, com desconto Dia Ideal à quinta-feira – quando todos os bilhetes custam 6€. Nos restantes dias, os detentores de Cartão Jovem, Cartão de Estudante, Desempregados (com declaração do IEFP) e maiores de 65 anos pagam também 6€.

Laranjas Sangrentas, em análise
Laranjas Sangrentas Poster em Análise

Movie title: Laranjas Sangrentas

Movie description: Esta comédia negra - a terceira película da carreira do francês enquanto realizador - satiriza, num formato mosaico, vários setores da sociedade francesa contemporânea

Date published: 14 de June de 2022

Country: França

Director(s): Jean-Christophe Meurisse

Genre: Terror, Comédia, Drama,

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  • Maggie Silva - 80
80

CONCLUSÃO

“Laranjas Sangrentas” é surreal, decadente, estranhamente tocante, arrepiante e até repulsivo – tudo isso ao mesmo tempo.

Pros

  • As narrativas cruzadas e perfeitamente encadeadas;
  • A tensão crescente e a temível descida “aos infernos” rumo ao justo terror;
  • A visão não idealizada e liberta da sexualidade feminina;

Cons

  • A falta de especificidade de um dos “monstros” mais notórios do filme;
  • A ausência de uma identidade visual tão forte quanto o argumento;
  • Alguns momentos mais mornos de conversa entre as personagens – nem todos fariam falta;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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