via Festival de Cannes

LEEFEST’22 | Leila’s Brothers, em análise

Depois do fabuloso ‘A Lei de Teerão’, o realizador iraniano Saeed Roustayi apresenta agora na Competição do LEEFEST’22, este ‘Leila’s Brothers’, uma fascinante tragicomédia familiar e um retrato sociológico da classe média iraniana. Incrível!

Com a presença na Competição Oficial em Cannes 2022 e como um justo vencedor do Prémio da Crítica (Fipresci), ’Leila’s Brothers’marcou finalmente o reconhecimento e a projecção internacional do ainda jovem realizador iraniano Saeed Roustayi, (n.1989) para não falar do cinema iraniano em geral que está presente também no LEFFES’22 com ‘III Guerra Mundial’, de Houman Seyedi (Fora de Competição). Quanto ‘A Lei de Teerão’ (2019), [Festival de Veneza – Selecção Oficial, Orizzonti] um thriller sobre uma brigada de narcóticos, a droga e toxicodependência, na sociedade iraniana, já de si era um filme soberbo. Saeed Roustayi assina agora este ’Leila’s Brothers’um ambicioso fresco familiar, num cenário de crise económica no país dos mulás. E vale a pena mesmo aguentar as quase 3h de diálogos constantes, assentes numa forte e dinâmica realização, incluindo um extraordinário trabalho de todo o elenco, com personagens bem construídas e credíveis e sobretudo, em mais um retrato sociológico de questões, poucas vezes abordadas no cinema iraniano: a crise económica e o desemprego. Leila (Taraneh Alidoosti) — vimo-la em O Vendedor (2016) — dedicou toda a sua vida aos pais e ao quatro irmãos rapazes. Muito afetada por uma crise económica sem precedentes, a família de classe média, está endividada e vai desbaratando as suas economias, à medida que as decepções pessoais, entre o núcleo familiar se desenvolvem e geram conflitos.

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Um fascinante retrato da sociedade iraniana. via Festival de Cannes

Para tirá-los dessa situação, Leila traça um plano de emergência: comprar uma pequena loja, num centro comercial, para começar um negócio com os irmãos, já todos quarentões e que por uma razão ou por outra regressaram a casa dos pais. Assim, toda a gente coloca as as suas economias neste investimento, mas falta um último esforço financeiro. Ao mesmo tempo, e para surpresa de todos, o seu velho pai Esmail (Saeed Poursamimi), promete uma grande soma de dinheiro à sua comunidade, ao enorme clã familiar, para se tornar o seu novo padrinho-chefe, algo que é a maior honra da tradição persa. Pouco a pouco, as ações de cada um de membros levam a família à beira da implosão, enquanto a saúde do patriarca se vai deteriorando, num cenário de desemprego e inflação galopantes.

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VÊ TRAILER DE ‘LEILA’S BROTHERS’

Na verdade, Esmail é um velho modesto e simples, que sonha com esse título honorário apenas porque julga ter esse, direito pela pela sua idade. Mas esse título tem obrigações pecuniárias, os seus meios são limitados e os filhos estão desempregados. É numa surpreendente reviravolta, que vamos descobrir, que afinal Esmail tem muito mais dinheiro guardado do que pensam, os seus filhos e a sua esposa. Então vem uma escolha moral: os filhos deveriam roubar o dinheiro do seu pai ou deixar usá-lo para a sua consagração, e assim ver sua única possibilidade de um futuro melhor, escapar por entre os dedos?

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Uma família em colapso e carregada de dívidas. via Festival de Cannes

’Leila’s Brothers’, não é um filme político, mas tem uma clara agenda política pois procura mostra-nos, a delicada situação social do Irão, após o embargo económico, imposto pelos EUA e pela Administração Trump, que pretendeu retirar-se do acordo nuclear iraniano, mergulhando assim milhares de iranianos na pobreza. O filme lança também uma luz sobre a situação da classe média no Irão e sobretudo da marginalização, angústia e do beco sem saída, em que se encontram os mais pobres e desfavorecidos. ’Leila’s Brothers’ volta também, e quase como sempre em todos os filmes iranianos, a questionar os códigos de uma sociedade patriarcal e condicionada pelos preceitos do islamismo, onde, como dirá Leila: ‘nos ensinam a ter convicções e não a pensar’. É na verdade, um filme muito parecido e tem mesmo um certo estilo do cinema de Asghar Farhadi, mas dentro do cinema iraniano, que melhor referência poderia ter?

JVM

Leila's Brothers, em análise
leila

Movie title: Baradaran-e Leila

Movie description: Leila dedicou toda a sua vida aos pais e aos quatro irmãos. A família, muito tocada por uma crise económica sem precedentes, está afogada em dívidas e decepções pessoais. Para sair dessa situação, Leila traça um plano: comprar uma loja para abrir um negócio com os irmãos. Cada um coloca todas as suas economias, mas falta-lhes um último apoio financeiro. Para surpresa de todos, o seu pai Esmail promete uma grande quantia em dinheiro à sua comunidade para se tornar seu novo padrinho, a mais alta distinção da tradição persa. Aos poucos, as ações de cada um dos membros levarão a família à beira do colapso, enquanto a saúde do patriarca se deteriora.

Date published: 16 de November de 2022

Country: Irão

Duration: 165 minutos

Director(s): Saeed Roostaee

Actor(s): Taraneh Alidoosti, Saeed Poursamimi, Navid Mohammadzadeh, Peyman Moaadi, Farhad Aslani, Mohammad Ali Mohammadi, Nayereh Farahani, Mehdi Hoseininia.

Genre: Drama, 2022,

  • José Vieira Mendes - 75
75

CONCLUSÃO:

’Leila’s Brothers’, de Saeed Roustayi é um ambicioso fresco familiar, realizado num cenário de uma profunda crise económica no país dos mulás. Pontuado por cenas e discussões familiares bastante violentas — Leila, a protagonista, ousa mesmo esbofetear o seu próprio pai — o filme pinta um extraordinário retrato de uma família em desagregação, onde apesar de tudo o grande pilar é uma mulher: Leila. É ela que faz tudo para arrancar a família dessa sua condição que caminha para a pobreza e tenta evitar a todo o custo o colapso. ’Leila’s Brothers’ é um grande e absorvente drama familiar no estilo ítalo-americano, com poderosíssimas interpretações e toques do  clássico ‘Rocco e os Seus Irmãos’, de Luchino Visconti.

JVM

Pros

As excelentes interpretações dos actores, que alimentam este fascinante drama familiar convincente, subtil e emocional, que afinal depois não parece tão longo quanto faria prever.

Cons

As quase três horas de duração podem esgotar alguns espectadores e por outro lado escondem talvez a essência de um argumento um tanto exacerbado, mas com uma agenda política clara, em relação à sociedade iraniana.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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