Os Miseráveis (2019) |©Cannes Film Festival

LEFFEST ’19 | Os Miseráveis, em Análise

A 13º Edição do LEFFEST já chegou ao fim, ontem, dia 24 de novembro. Agora, tempo ainda para recordar os filmes que passaram pelo Festival no seu último dia. A primeira longa-metragem de Ladj Ly, “Os Miseráveis” venceu o Prémio do Júri no Festival de Cannes, e chegará aos cinemas comerciais em Portugal pela mão da Alambique

Ladj Ly nasceu no Mali em 1978, e é em França que tem vindo a desenvolver o seu trabalho. Esta sua primeira longa-metragem subiu desde logo a altos voos, fazendo com que se destacasse no circuito de festival. Em Cannes levou o Prémio do Júri, a meias com “Bacarau”, no Festival de Atenas foi o Melhor Filme para o Público, e entre outras distinções se marca uma particularmente importante. O filme encontra-se nomeado na categoria de Melhor Filme International pela França nos Film Independent Spirit Awards, ou Spirit Awards, prémios entregues na noite anterior aos Óscares, que captam o que de melhor se faz no âmbito do cinema indie. É também o candidato de França aos Óscares, e é quase certo que lá chegue. Ou assim o defendem as apostas.

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Os Miseráveis” é um esforço notável por parte de Ladj Ly, que procura levar o “realismo social”, um termo que se parece ter já esgotado em si mesmo, a novos planos. O filme não é seco, mas também não é melodramático. Atinge um equilíbrio interessante.  Esta é uma obra com um ritmo notável, quase classificável como um thriller social, não no sentido forjado por Jordan Peele , referindo-se a terror para manifestar opressão societária, mas referindo-nos antes a situações sociais complexas sem o habitual tom arrastado e complacente. Com uma nova abordagem, mais frenética, talvez um pouco mais dramatizada, mas não menos verdadeira.

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Sem pretensões demais, a obra de Ladj Ly recupera pouco mais de um dia na vida de uma unidade policial nos subúrbios de Paris. Este é um dia alucinante, de emoções fortes, com consequências pesadas. “Os Miseráveis” funciona num crescendo, mas é empolgante desde o primeiro minuto até ao último. Esta longa-metragem parte da curta que realizou em 2016, com o mesmo nome, tema, e diversos dos mesmos protagonistas, um deles igualmente argumentista da curta e da longa.

“Lembrai-vos sempre de que não há ervas daninhas nem homens maus: — há, sim, maus cultivadores‘”
Victor Hugo, “Os Miseráveis”

Miseráveis 2019
Os polícias de “Os Miseráveis” (2019) não são demonizados os beatificados |© Alambique Filmes

Seguimos o polícia Stéphane (Damien Bonnard), que recentemente foi transferido para Paris para estar perto do filho, e que se junta agora à Brigada Anti-Crime em Montfermeil, uma área suburbana. Os bairros que patrulham contemplam o local onde Victor Hugo escreveu no século XIX “Os Miseráveis”, e esta comparação é desde logo evidente, mas é acima de tudo evidenciada. As personagens mudaram, a “música” é a mesma. Os paralelismos são abundantes, e embora alguns sejam mais óbvios e desnecessários até, outros moldam a narrativa e adicionam-lhe alguma profundidade temática e até poética.

Stéphane é recebido pelos seus colegas Chris (Alexis Manenti, também co-argumentista) e Gwada (Djebril Zonga, que regressa ao papel interpretado na curta). Estes deixam desde logo explícito que mundo é este, um mundo que não parece justificar uma França ainda reconhecida pelos ideais da sua Revolução. Chris e Gwada são dois polícias experientes, que compreendem e conhecem o mundo suburbano dos gangs onde se movem. Conhecem os manda-chuvas, estabelecem parcerias e controlam as tensões constantes, que não param de escalar. A fé muçulmana espalha-se, e com ela também o radicalismo islâmico, motivado pela revolta social, e temos contacto com a mesma “velha” história, a juventude parece presa num ciclo vicioso, onde os pequenos crimes se tornarão cada vez maiores.

Os Miseráveis de Ladj Ly
©Alambique

Stéphane tem uma mentalidade distinta dos seus novos colegas, é mais respeitador, mais recto nos seus valores inabaláveis, mas acabará a sacrificar esta posição?  O seu primeiro dia, extremamente intenso, acaba por resultar num incidente filmado por um drone. As repercussões são exploradas através de um crescendo, um crescendo até ao momento em que a tela fecha, deixando o espectador atordoado. É cinema social, mas é também entretenimento de alto nível.

“Os Miseráveis” é um reflexo do seu realizador, Ladj Ly, um verdadeiro ativista, que considera que o cinema não deve ser uma arte de elites. Esta é uma acusação válida, mas que esperemos ser um dia refutável, e trabalhos como este são um passo nessa direcção. A narrativa que aqui se apresenta teria tanta facilidade em cair em lugares comuns, mas sem nunca esconder a brutalidade policial, ou o mundo clandestino dos subúrbios de Paris, pinta um quadro completo de ambos os “lados da barricada”. Talvez possa não deixar sempre espaço para interpretar a mensagem, talvez a grite orgulhosamente ao invés de a deixar surgir de forma orgânica, mas talvez o cinema mereça também esta clara vertente educacional, sem falsos moralismos povoados pelo politicamente correto.

Ladj Ly cria uma obra contemporânea, que cria paralelos com uma época que deveria parecer mais distante do que é. Uma comparação simples, mas poderosa. O início de uma carreira fascinante no registo da longa-metragem. Agora, quanto à nomeação ao Óscar, é esperar para ver. 

Os Miseráveis
Os Miseráveis (2019)

Movie title: Os Miseráveis

Date published: 2019-11-25

Director(s): Ladj Ly

Actor(s): Damien Bonnard, Alexis Manenti, Djibril Zonga

Genre: Drama, Thriller , Crime

  • Maggie Silva - 90
  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 75
82

CONCLUSÃO

"Os Miseráveis" é um esforço corajoso, que aborda um tema recorrente e lhe é capaz de dar novo alento e energia. Especialmente impressionante se considerarmos que esta é a primeira entrada do seu autor no registo da longa-metragem.

O MELHOR: Um novo tom e ritmo num género de narrativa habitualmente condenada à repetição, e à mesma abordagem vista uma e outra vez. O frenesim crescente e a pertinência temática.

O PIOR: Por vezes, falta-lhe subtileza na transmissão das ideias, deixando pouco espaço à imaginação.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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