"Mainstream" é a segunda longa-metragem da neta de Francis Ford Coppola |©LEFFEST

LEFFEST ’20 | Mainstream, em análise

“Mainstream”, de Gia Coppola, integra a Secção Oficial – Fora de Competição do LEFFEST’20. A sátira dramática é o trabalho mais recente da realizadora de “Palo Alto”, que apresentou esta obra pela primeira vez a 5 de setembro no Festival de Cinema de Veneza. 

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Gia Coppola, de 32 anos, neta de Francis Ford Coppola, está a seguir em grande as pegadas da sua talentosa e poderosa família. Depois de se estrear com a narrativa coming of age (história sobre crescimento, entrada na idade adulta e maturidade sexual) de “Palo Alto“, protagonizada por Emma Roberts (“Scream Queens”) e James Franco (“Um Desastre de Artista”), eis que nos apresenta agora uma deliciosa sátira alucinada sobre os perigos da presente cultura víciada em redes sociais.

Maya Hawke 2020
Maya Hawke em “Mainstream” |©LEFFEST

“Mainstream” tem como protagonista Maya Hawke (“Stranger Things”), que aqui interpreta Frankie, uma bartender no início da casa dos 20 que se encontra desencantada com a sua existência, perdida sem rumo e a lamentar ainda a trágica morte do seu pai. Frankie é solitária e move-se numa rotina aborrecida. A única coisa que melhora os seus dias são os videos que tanto gosta de gravar com recurso ao seu smartphone. Maya, que tal como Gia tem de sair da sombra da sua família de showbusiness (é filha de Ethan Hawke e Uma Thurman), faz aqui um esforço notável nesse sentido, com uma prestação contida mas competente e apelativa.

Tudo é regular na existência de Frankie, que lá vai namoriscando com o seu colega de trabalho Jake (Nat Wolff de “Cidades de Papel“), até ao momento em que conhece uma força da natureza que dá pelo nome de Link (interpretado por Andrew Garfield de “O Herói de Hacksaw Ridge”). Quem conhece Garfield sabe que é um ator bem dotado para papéis excêntricos, invulgares ou poderosos. Já o provou em diversas oportunidades – explodindo em “Nunca me Deixes”, vagueando por uma Los Angeles sufocante em “O Mistério de Silver Lake” ou encarnando uma pessoa trans no artístico vídeo de “We Exist” da banda Arcade Fire. Aqui, Garfield é o dono inegável do ecrã.

Link entra na vida de Frankie como um terramoto, destabilizando as fundações do seu quotidiano. É misterioso, carismático, excessivo, capaz de comandar qualquer sala e desprovido de regras. Com ajuda do seu colega e amigo Jake, e perante a capacidade de Link de atraír multidões com o seu discurso, Frankie começa a postar videos deste seu novo excêntrico conhecido no Youtube. Não demora muito até que se tornem “mainstream”, e a partir daí surgem as verdadeiras implicações da narrativa.

Garfield Coppola
Andrew Garfield em “Mainstream” |©LEFFEST

O lado mais negro e destrutivo destas plataformas, e a natureza da própria fama, são colocados em evidência numa viagem cada vez mais negra aos meandros da obsessiva natureza do ser humano. A recém fama e glória acaba por afetar a dinâmica dos três amigos à medida que Link, o protagonista dos videos, começa a transformar-se cada vez mais num egotístico idiota. Dizer mais será talvez condicionar a experiência do espectador, e por isso em termos de argumento por aqui ficamos.

“Mainstream” ganha pelos seus neons grilhantes, pelos seus smiles e emojis explosivos, pela sua luz, cor, vontade de chocar e exagerar. É um filme corajoso, que age fora de qualquer expectativa com conformidade. É furioso, é exagerado. Quiçá talvez seja possível dizer que pinta um mundo demasiado linear, preto no branco, bom ou mau.

Em 2020, as redes sociais foram uma das melhores amigas contra a solidão. Contudo, em “Mainstream”, são antes uma fonte de isolamento. Ao invés de dizer que o filme reduz a função destas plataformas, podemos antes escolher focarmo-nos no facto de certos aspetos destas redes serem isolados e vistos cuidadosamente à lupa.

ENTREVISTA EM VENEZA| MAINSTREAM DE GIA COPPOLA

 

Realça-se que a obra, a rondar os 90 minutos, tem sempre uma narrativa evolutiva, clássica sem ser excessivamente conservadora, expectável sem ser demasiado académica. É um bom segundo esforço por parte de uma jovem realizadora que provou uma vez mais que está aqui para ficar (não fosse ela uma Coppola).Não é um filme consensual, nem uniforme e nem tão puco sempre coerente ou realista (nem o quer ser, como sátira que é).

Tal qual como o Link de Garfield, que tanto pode ser percecionado como carismático ou enervante, também “Mainstream” é um filme para odiar ou amar mas nunca digno de ignorar. Não é essa a função da arte? Provocar uma reação?

A obra mais recente de Gia Coppola não fechou ainda a sua rota de festivais e aguarda distribuição comercial. Esperemos, então, uma estreia  em Portugal para breve. Já o LEFFEST decorre em Lisboa e Sintra até dia 25 de novembro. 

Mainstream, em análise
Mainstream LEFFEST

Movie title: Mainstream

Date published: 21 de November de 2020

Country: EUA

Duration: 94'

Director(s): Gia Coppola

Actor(s): Maya Hawke, Andrew Garfield , Nat Wolff , Jason Schwartzman

Genre: Comédia, Drama

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  • Maggie Silva - 85
  • José Vieira Mendes - 70
78

CONCLUSÃO

“Mainstream” não é para todos, não com a sua excessiva exacerbação de eventos nesta história com uma forte moral e aviso a transmitir.

Contudo, não se deixem enganar pela classificação de 5.6 no IMDB ou 40% no Rotten Tomatoes. Ao fim de contas, as narrativas mais arrojadas dificilmente reúnem consenso. Algo é certo, “Mainstream” não irá agradar a gregos e troianos mas não deixará ninguém indiferente.

Pros

A prestação magnífica (embora não surpreendente) de Andrew Garfield é inegável e descobrir Maya Hawke como um pequeno diamante em bruto é sempre um prazer;

Continuando no tema das prestações, Nat Wolff e a sua musicalidade são uma surpresa agradável e é ótimo vê-lo finalmente fora dos filmes adolescentes menores;

A fotografia e música marcam pela disrupção e enriquecem a experiência cinematoráfica;

Cons

Existe uma nítida falta de background acerda das personagens centrais, especialmente se falarmos do Link de Andrew Garfield;

A previsibilidade reina e a própria evolução do arco narrativo (e até o final) é bastante expectável,embora o caminho até lá possa reservar surpresas;

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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