Classic Fever | Milagre por Um Dia (1961), de Frank Capra

Na MHD recuperamos uma das nossas rubricas preferidas. Em Classic Fever analisamos “Milagre por Um Dia”, um remake de Frank Capra com Glenn Ford e Bette Davis.  

Milagre por Um Dia” (1961), de Frank Capra é um dos filmes mais ignorados do cineasta conhecido por partilhar a sua visão mais moralista do sonho americano e do “american way of life”. Não só foi a sua última longa-metragem cinematográfico, como tratava de um repensar dos valores humanistas para uma nova sociedade, que aparentemente os havia esquecido. O resultado foi uma avalanche de críticas negativas, sobretudo pela aposta numa história que pouco ou nada poderia oferecer à sociedade da América dos anos 60, sua contemporânea mas distante da tradição romântica e poética dos filmes feitos nos anos do New Deal.

Milagre por Um Dia
Cartaz promocional de “Milagre por Um Dia” (1961) © Paramount Studios

A falta de sucesso e aplausos talvez tenha acontecido, em primeiro lugar, por “Milagre por Um Dia” ser um remake em Technicolor de outro filme de Capra, “Lady for a Day” de 1933, uma obra bem sucedida nos prémios pelos quais que o cineasta sempre se mostrou obcecado. Falamos obviamente dos prémios da Academia, no qual o filme original esteve na corrida para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento e Melhor Atriz. Enquanto essa versão remetia para um contexto da Grande Depressão (e pré-Segunda Guerra Mundial), de uma espécie de propaganda dos valores mais liberais do Partido Republicano, do qual Capra era sólido afiliado, o seu remake foi feito num contexto completamente diferente. A América consolidara-se como uma enorme potência mundial, porém o cinema clássico – e por intermédio o cinema do Production Code – começava a dar sinais de falência criativa. Não poderemos esquecer que o início dos anos 60 marca o (re)despertar das cinematografias europeias, como por exemplo, a tantas vezes citada Nouvelle Vague Francesa que faria renascer um cinema de autor no final dessa década em Hollywood. Infelizmente, já ninguém precisava de um “director studio” como Frank Capra nascido como Francesco Rosario Capra na Sicília a 18 de maio de 1897 e que consolidaria para um dos nomes mais impactantes da indústria.

Glenn Ford em “Milagre por Um Dia” (1961) © Paramount Pictures

De qualquer forma, não poderemos menosprezar o trabalho de Capra nesta obra, que temos a certeza merece ser destacada. Hoje, e apesar de continuarmos a achar que a sua duração é demasiado longa e algumas personagens são pouco desenvolvidas, “Milagre por Um Dia” é uma sessão terapêutica de risos e boa energia numa época em que somos confrontados com uma terrível pandemia. Numa época em que ser vendedor ambulante é mais difícil do que se possa pensar, este filme de Capra oferece um antídoto certo que nos faz repensar sobre qual o nosso papel enquanto seres humanos neste planeta.

Que papel temos enquanto cidadãos para com os outros? Quem somos verdadeiramente se esquecermos conflitos ou diferenças sociais? “Milagre por Um Dia” ou “Pocketful of Miracles” (no título original) oferece realmente um bolso cheio de esperança. Porque na MHD gostamos de recuperar alguns clássicos do cinema de Hollywood, quisemos reerguer a nossa rubrica Classic Fever, focando-nos neste filme de Capra que celebra este ano o seu 60º aniversário (a estreia nos EUA aconteceu a 19 de dezembro). No cinema de Capra há um otimismo honesto, há sempre espaço para um emocionante final feliz hollywoodesco e “Milagre por Um Dia” segue essa linha. Vejamos com mais detalhe esta história.

De referir ainda que a análise foi feita após o visionamento de “Milagre por Um Dia” através da plataforma de streaming Filmin España.

Qual o enredo de Milagre por Um Dia?

Milagre por Um Dia“, cujo trailer original pode ser visto abaixo, segue Annie (a extraordinária Bette Davis) uma vendedora ambulante de maçãs com problemas de álcool. ‘Apple Annie‘ como é conhecida em Nova Iorque faz de tudo para enviar dinheiro para a sua filha Louise (Ann-Margret, na sua estreia cinematográfica), que vive numa das mais requintadas escolas da Europa. Pouco se sabe sobre o passado de Annie, mas o certo é que a sua vida nunca foi fácil e com o nascimento imprevisto de uma filha teve que tomar a decisão de enviá-la para longe, para não crescer no mesmo ambiente nefasto da mãe.

Annie está prestes a reencontrar-se finalmente com a sua filha, quando esta decide viajar até Nova Iorque para lhe apresentar o seu futuro marido e o pai deste, um poderoso conde espanhol. Porém este sonho pode não passar de uma miragem, já que Louise não sabe a vida que a mãe leva e pensa que esta tem um papel de relevo na sociedade burguesa da grande metrópole americana.

Para resolver o problema surge “gangster” chamado Dave “Dandi” (Glenn Ford) que junto à sua namorada Queenie (Hope Lange) e ao seu braço direito Joy Boy (Peter Falk) irão tentar transformar Annie na mais sofisticada dama da alta sociedade.

Como devemos relembrar Milagre por Um Dia?

“Milagre por Um Dia” (1961), de Frank Capra é uma comédia dramática protagonizado por Bette Davis, Glenn Ford, Hope Lange, Peter Falk, Thomas Mitchell e Ann-Margret na sua primeira aparição no cinema com 20 anos. Não só deve ser relembrado pelo seu elenco, como por ter valido a um extraordinário Peter Falk a sua única nomeação aos Óscares da Academia, na categoria de Melhor Ator Secundário na edição dos Óscares de 1962. “Milagre por Um Dia” acabou mesmo nomeado a outras duas categorias: Melhor Canção Original e Melhor Guarda Roupa (Cor) para Edith Head e Walter Plunkett.  

Milagre por Um Dia” é um curioso remake de outro filme do seu próprio cineasta. Tal como Cecil B. DeMille, Alfred Hitchcock ou Howard Hawks, também Frank Capra recuperou uma história sua para contar a uma nova audiência. Com 64 anos decidiu comprar os direitos que pertenciam à Columbia Pictures por 200.000 dólares para fazer este filme, no entanto ao contrário do resultado final Capra descreveu a rodagem desta obra como um tremendo pesadelo, repleto de intrigas e discussões, e que envolveram inclusive a diva Bette Davis, Glenn Ford e a pouco conhecida Hope Lange, que era então a namorada de Ford. Shirley Jones chegou a assinar contrato para interpretar Queenie, mas graças à pressão de Ford, Lange acabou por levar a melhor. Ford como produtor do filme acabou por limitar o tempo de ecrã de todas as outras personagens, sobretudo de Apple Annie e quis centrar-se mais nos sarilhos que envolviam o seu Dude.

Com uma energia demasiado pesada, Frank Capra acabou por considerar “Milagre por Um Dia” como um filme miserável, mesmo que se tenha deliciado com a interpretação de Falk. Apesar de ser o último filme de Frank Capra, pouco se sabe sobre o porquê de ter deixado fazer cinema, embora tenha vivido até aos 94 anos. Aparentemente o seu cinema não resistiu a mundo cada vez mais egocêntrico, competitivo e capitalista. Colocando de lado todos estes problemas, “Milagre por Um Dia” é relembrado por muitos como um filme de Natal, sendo exibido regularmente nas televisões norte-americanas durante essa época.

Porque não devo perder o filme de Frank Capra?

“Milagre por Um Dia” não é o melhor filme de Capra, mas enche-nos o coração pela forma espantosa como retrata a sua história de encontro entre uma mãe e uma filha. Nesta obra, Capra mostra mesmo que existem milagres durante o nosso dia à dia e que cada gesto tem uma vitalidade singela. Obviamente quem não conhecia as afiliações do cineasta com o partido Republicano tanto melhor, porque pode contemplar este filme como uma experiência verdadeiramente poética, onde as emoções estão à flor da pele, sobretudo na sequência final que nos leva às lágrimas. Se olharmos com atenção, perceberemos que o cinema de Capra é um cinema do sensível e do humilde.

Milagre por Um Dia
Ann-Margret em “Milagre por Um Dia” (1961) © Paramount Studios

A câmara de Frank Capra quer fazer-nos esquecer das nossas preocupações, quer mostrar que há bondade no espírito humano, sejamos políticos, sejamos gangsters ou bailarinas de um cabaret. Um indivíduo é capaz de juntar-se em comunidade para criar um mundo melhor. “Milagre por Um Dia” é um daqueles encontros cinematográficos que nos faz despregar dos bens materiais, das ganâncias deste mundo que perdeu a sua inocência e o seu lado mais poética. No fundo, esta é screwball comedy com toques de melodrama do final, que essencialmente nos mostra como os esquemas sujos da personagem de Glenn Ford acabam por conduzi-lo sempre à bondade, por muito que essa não seja a sua intenção primeira. Dude, o seu gangster, compra as maçãs a Annie porque acredita piamente que é isso que o ajuda a manter a sua força no bairro, que lhe dá a sorte necessária para manter a sua posição. A história vai mesmo ao fundo do seu coração, para evidenciar como ainda consegue ser chamado a razão e consegue ajudar sem esperar nada em troca. Não é uma história tão complexa como outros filmes de Capra, mas hoje e com um certo distanciamento, percebemos que há muita coisa que pode ser dita.

Além disso, não podemos esquecer que aqui Frank Capra dá um retrato puro sobre uma mulher comum. A mulher neste caso é a vítima, perante os homens mais poderosos. É a mulher que precisa de ascender socialmente, algo extremamente complexo para a sociedade norte-americana, onde esse estatuto hierárquico é meramente conseguido pelo matrimónio. Bette Davis encarna uma mulher a quem todos são capazes de dar a mão pela sua história de vida. A atriz está perfeita no papel, porque ao mesmo tempo que é rude e sarcástica, e tem conhecido dos interesses dos demais, representa todas as mães que só querem amar os seus filhos, que simplesmente querem oferecer o melhor futuro para eles. A sua maravilhosa transformação é uma das mais poderosas na sua carreira e ainda mais importante de realçar já que falamos de uma atriz com 53 anos, idade que até então era pouco considerada para protagonistas de filmes de estúdio. Já revelamos no passado outras interpretações de Bette Davis, nomeadamente em “Dark Victory (1939)”.

Milagre por Um Dia
Bette Davis em “Milagre por Um Dia” (1961) © Paramount Studios

Paradoxalmente não esqueçamos que a sequência final, mostra-nos como a alta sociedade defende um jogo, defende a encenação. Capra ao mesmo tempo que presta homenagem ao american dream, também consegue criticá-lo porque para este ser concretizado precisa de existir uma espécie de mentira. O realizador quer mostrar-nos que existe uma pureza em cada um, mas porque a verdade nunca vem ao de cima, pensamos que a defesa dos privilégios continuam a ser superior a qualquer outra emoção. Não esqueçamos que Louise vem acompanhada de cidadãos estrangeiros e todos nós sabemos o quanto os Estados Unidos da América trabalham arduamente na proteção da mitologia inerente ao sonho americano.

De resto, “Pocketful of Miracles” não deve ser esquecido pelo colorido guarda-roupa da 8 vezes vencedora do Óscar Edith Head. É ela quem coloca em evidencia esse moralismo de Capra.

Uma frase para a posterioridade?

Claramente as melhores frases de “Milagre por Um Dia” pertencem a Peter Falk, porque são aquelas que mostram que ainda podemos dar uma boa gargalhada em tempos de COVID. Abaixo, e como habitual noutros textos desta rubrica, deixamos uma dessas citações na versão original em inglês.

“Joy Boy: What’s with her?
Dave the Dude : Aah, she just wants a bunch of kids.
Joy Boy : Kids? Aw, they’re mean when they get on that kick.”

Para ficar no olho e/ou no ouvido

Terminamos este regresso da nossa rubrica “Classic Fever” com a canção interpretada por Frank Sinatra, e que valeu exatamente a nomeação ao Óscar de Melhor Canção Original.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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