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MONSTRA ’22 | Competição Curtas 1, em análise

A Competição Curtas 1 abriu oficialmente a semana da Competição Internacional de Curtas na MONSTRA ’22, com sessões de segunda a sexta-feira, num total de 43 curtas-metragens animadas exibidas durante o festival. Estas são as nossas impressões acerca de algumas delas no rescaldo de mais um Festival de Animação de Lisboa. 

A primeira sessão da Competição Internacional de Curtas decorreu no dia 21 de março, segunda-feira, pelas 22h00, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema S. Jorge. Conforme avançado pela organização, foram mais de 1000 as curtas submetidas nesta secção para que, no final, apenas pouco mais de 40 competissem pelo Grande Prémio MONSTRA na categoria de Curta-Metragem. Quanto à lista de vencedores, foi já anunciada.

Esta primeira sessão de curtas eclética contou com um total de 8 filmes exibidos, os quais passamos agora a analisar de forma breve.

A BONECA DE KAFKA DE BRUNO SIMÕES (PORTUGAL, 2021, 11′) 

MONSTRA Competição de curtas 1 2022
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Após encontrar uma menina a chorar no parque por ter perdido a sua boneca, Kafka decide escrever-lhe uma carta todos os dias para lhe contar as aventuras fictícias da boneca. Apesar de estar doente e enfraquecido, Kafka vai ao parque todos os dias para ler as cartas à menina, e é com esta obsessão em ajudá-la a lidar com a sua perda que ele acaba por se encontrar novamente.

O primeiro filme exibido no âmbito da sessão “Competição Curtas 1” é precisamente uma obra animada sofisticada, que conta com técnicas de animação tanto 2D como 3D, numa combinação subtil entre estilos divergentes e que nos chega através de uma produção predominantemente portuguesa. Aliás, este filme competiu também na Competição Nacional – Prémio SPA | Vasco Granja (apesar de não ter levado para casa o derradeiro prémio).

Apesar do 2D e 3D se unirem com cuidado e requinte nesta curta-metragem, as imagens animadas do casal desenhadas recorrendo a um estilo mais tradicional são, de longe, as mais encantadoras. Por outro lado, a representação da figura da Morte a 3D deixa algo a desejar.

Quanto à narrativa desta curta do Lusco Fusco Animation, um estúdio recente no panorama nacional, esta baseia-se livremente no livro  “Kafka E A Boneca Viajante” de Jordi Sierra. Com uma história empática e sonhadora, a nossa única dúvida é se 11 minutos são mesmo suficientes para todas as ideias que o filme nos quer transmitir…

Classificação: 75/100




32513A11B300C DE HOLDER LANG (ÁUSTRIA, 2021, 8′) 

MONSTRA curtas 1
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Filme de animação experimental sem uma história, apenas textos e imagens.

 

“32513a11b300c” defende a ideia de que é um filme desprovido de qualquer sentido de história, como animação experimental que é. Todavia, será que tal coisa existe mesmo? Esta pequena curta metragem não-narrativa criada recorrendo à sobreposição de fotografia e múltiplos efeitos especiais parece ter algo a dizer acerca da nossa cultura popular, acerca das personagens que guiam o universo do zeitgeist do entretenimento, acerca das frenéticas movimentações pendulares que controlam o destino de uma parcela tão grande da população.

Com destreza notória, parece ter algo a dizer acerca da constante energia frenética que rege a nossa existência enquanto sociedade. Parece ter algo a dizer acerca de comboios, carros, estradas, acerca da dicotomia campo/cidade, ruralidade/ industrialização. Parece ter algo a dizer sobre a incapacidade de relaxar que nos atormenta e que nos perturbará um pouco mais depois de vermos como todos estes elementos se encontram no filme.

Classificação: 75/100




O MISTÉRIO DA MAÇA DE BRAD HOCK (EUA, 2020, 7′) 

O mistério da maça curta
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Além da cerca, sob o poço, espíritos ancestrais entoam a sua canção para despertar o mistério da maçã escondida.

“O Mistério da Maçã”, no original “Oldboy’s Apple” é uma curta sem diálogos criada recorrendo à tecnologia de stopmotion e produzida pela Bardo Bread Pictures Productions (detida precisamente pelo realizador Brad Hock).

Humorística e invulgar, a pequena curta-metragem exibida na Competição Curtas 1 é bizarra, evoca vários elementos sobrenaturais, mas, no fim de contas, encontra no companheirismo a solução devida para o final da sua narrativa. O seu espiritualismo clama por compreensão, por ser precisamente o tipo de filme que prefere sugestões a respostas óbvias. Quanto ao seu trunfo, é sem dúvida o seu stopmotion.

Classificação: 70/100




O QUE SE OUVE NO SILÊNCIO DE MARINE BLIN (FRANÇA, 2020, 8′) NA COMPETIÇÃO CURTAS 1 

What Resonates in SIlence french short film
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Esconder a morte não a faz desaparecer. Uma jovem menina, que sofreu com o silêncio dos adultos, sentiu-se despojada do seu direito de viver o luto. Já adulta, esta volta a recontar os afetuosos gestos que a conectam com os mortos.

Esta é uma pequena obra acerca de perda, luto, conciliação de sentimentos e trauma. Eis que, uma vez mais, como tantas vezes aconteceu antes, um sujeito central, neste caso uma jovem que perdeu cedo de mais, utiliza a arte cinematográfica para voltar a tomar posse dos seus próprios sentimentos. A curta francesa consegue chegar a este ponto de clareza através de uma bela representação que casa a pintura com a animação digital a duas dimensões. A Banda-sonora de Beo Brockhausen é outro grande destaque, capaz de carregar o difícil ethos emocional da obra.

Classificação: 80/100




O BOTÃO DA MÃE DE ANNA KRITSKAYA (RÚSSIA, 2021, 6′) 

O botao da mae na monstra
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Durante toda a tua vida, estás sempre a tentar estar um passo à frente, conquistar montanhas, ganhar reconhecimento. Mas, se vacilares, tudo o que queres, na verdade, é que uma voz da tua infância te peça para voltares a casa.

“O Botão da Mãe” é uma curta-metragem inofensiva e que realmente não retrata eventos particularmente memoráveis. Todavia, não é mesmo esse o objetivo desta animação simples a 2 dimensões. Antes, pretende retratar o processo de crescimento e todas as suas incertezas e barreiras. Quando em dúvida, tudo se resume ao amor e proteção maternal. Por isso, esta é uma curta para as mães e que apenas a elas pertence.

Classificação: 67/100




A QUARTA PAREDE DE MAHBOOBEH KALAEE (IRÃO, 2021, 9′)

A Quarta Parede competição de curtas 1
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Lar, família, relacionamentos, desejos, vontades: tudo está resumido em uma cozinha. O rapaz que gagueja está lá sozinho, a brincar com a sua imaginação.

Em “The Fourth Wall”, a realizadora Mahboobeh Kalaee, suportada pela Documentary and Experimental Film Center (DEFC), posiciona-se nos espaços entre a narrativa e a abstração, criando uma curta-metragem que tanto reune elementos de história sequencial como se aproxima do experimental. É esta junção de influências que torna este filme hiper-imaginativo num pequeno tesouro.

Para lá da criatividade evidente e inegável, “A Quarta Parede” vence ainda pela combinação de várias técnicas de animação, passando pela animação a duas dimensões ou pela combinação de outras técnicas menos usuais como o engraving. Esta obra notável foi premiada, na MONSTRA 2022, com o prémio de Melhor Curta-Metragem Experimental.

Classificação: 87/100




A VIDA É COMPLICADA DE VARYA YAKOVLEVA (RÚSSIA, 2021, 6′) 

monstra a vida é complicada
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Um dia na vida de um homem cuja casa era um banco de uma plataforma ferroviária.

Nesta competição curtas 1, passamos de uma curta que brinca com as fronteiras entre o experimental e o ficcional para uma que oscila entre o documental e a ficção. “A Vida é Complicada” baseia-se na vida real de um homem com uma história de vida complexa, emocional e repleta de altos e baixos, uma vida plena, que muitos são incapazes de sequer contemplar ao ver um pedinte deitado num banco de uma estação.

É sobre humanidade, esta breve curta russa capaz de fazer cair uma lágrima em pouco mais de 5 minutos. Sim, de facto “Life’s a Bitch” e há tanto, mas tanto, que não compreendemos nem procuramos compreender acerca da vida daqueles que nos rodeiam. Parabéns a Varya Yakovleva, ilustrador sediado em Moscovo, por esta pequena lição em compaixão animada por via da animação tradicional e desenho em papel, técnicas nobres e que nunca envelhecem.

Classificação: 85/100




A RONDA DA NOITE DE JULIEN REGNARD (FRANÇA, 2020, 12′)

Night Watch 2022
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Esta competição curtas 1 encerra com “A Ronda da Noite”, uma curta-metragem deliciosamente pesada, onde reina uma atmosfera noir, paranóica e que nos remete para rituais impensáveis e noites secretas e ultrajantes para o comum dos mortais. Com um ritmo perturbador e imagens bastante gráficas, esta curta para lá de bem executada poderia bem pertencer à secção de curtas TerrorAnim, a qual também integrou a nossa experiência na MONSTRA 2022.

Parte noir, parte terror, parte ritual sexual que nos remete para os universos temáticos de “Eyes Wide Shut” de Kubrick, “A Ronda da Noite” é uma experiência sensorial horrorífica e memorável.

Classificação: 80/100

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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