Four Hands

MOTELx ’18 | Four Hands, em análise

Four Hands” de Oliver Kienle é um pesadelo alemão sobre duas irmãs para sempre unidas pelo trauma sanguinário da sua infância. Esta é uma das longas-metragens europeias em competição na presente edição do MOTELx.

“Die Vierhändige”, também conhecido como “Four Hands”, tem início num desses lugares que parece existir somente nos confins do cinema de terror. Trata-se de uma imagem de maravilhoso grotesco gótico, com um edifício de lúgubres linhas oitocentistas destacado numa paisagem esquálida, onde domina a massa brutalista de construções industriais. O céu é cinzento e a terra é castanha. Se a imagem tivesse cheiro, esse seria o de lama e fumo. O seu sabor o de terra e o travo metálico do sangue.

Não se trata de um visual particularmente original nos anais do terror, mas é indubitavelmente eficaz. Aliás, assim é todo o filme, cujo texto se deixa cair na indulgência de alguns dos mais persistentes clichés do terror atual, incluindo uma crise identitária que pode tanto ser uma assombração como um epíteto de psicose. Felizmente, o texto consegue ainda encontrar algumas nuances nas suas reviravoltas e o realizador Oliver Kienle tem uma mão segura e uma voz criativa clara e elegante, executando as premissas menos felizes de “Four Hands” com um primor que eleva o filme acima de outros esforços semelhantes.

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As cicatrizes do trauma infantil assombram todo o filme.

Grande exemplo disso é a sequência que abre a obra e se passa no interior dessa casa saída dos pesadelos do terror clássico. Aí, duas irmãs pequenas, Sophie e Jessica, praticam piano quando assaltantes entram em casa e atacam seus pais. As jovens escondem-se, com Jessica, a mais velha, decidida a proteger a irmã, até lhe cobrindo a vista quando um dos atacantes espanca a mãe em frente ao esconderijo delas. De pacata domesticidade, o filme explode num grito de violência que reverbera pelo resto da sua narrativa sob a forma do trauma que acompanha as duas sobreviventes juvenis. Este é um jogo rítmico de paz quase aborrecida a ser violada pelo choque que se repete pelo projeto e acaba por ser o seu elemento mais excecional.

Passados vários anos, elas vivem na mesma casa dos horrores e Sophie pratica a mesma peça de piano que soava pela casa no dia em que tudo mudou. Ela, que não testemunhou diretamente os últimos momentos da vida da mãe, anseia por se livrar das cicatrizes psicológicas que assombram a sua existência, mas Jessica, pelo contrário, é consumida por essas mesmas marcas. A dinâmica entre as duas irmãs, uma mescla de dependência febril, agressividade e afeto obsessivo é um dos elementos mais curiosos do filme e, por momentos, a audiência pode ser enganada e pensar que “Four Hands” vai explorar a relação e o modo como o trauma infetou e moldou a vida conjunta das duas mulheres.

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No entanto, tal como a calma doméstica do prólogo é rompida pela violência inesperada dos assaltantes, um acidente de carro viola a atmosfera de claustrofobia fraternal e propulsiona a verdadeira narrativa do filme. Aí, Sophie tem de enfrentar a perda da irmã e o facto de que os assassinos dos seus pais estão em liberdade. Um miasma de culpa, medo e confusão exacerba quaisquer rachas na sua precária sanidade, catapultando a nossa protagonista instável para um caminho de violência vingativa ao mesmo tempo que o espectro da irmã parece estar a manifestar-se, como se a morte que separa as duas mulheres não fosse capaz de quebrar o elo de sangue e trauma que as une.

“Four Hands” não é um filme que se apoie grandemente nas prestações de seus atores, mas isso não significa que o elenco seja de modo algum medíocre. Considerando que um dos grandes problemas da obra é o modo como as personagens são pouco ou nada definidas para além das suas reações aos horrores em cena, os atores merecem louvor por criarem a ilusão de complexidade humana na narrativa. Frida-Lovisa Hamann é particularmente admirável, trazendo uma presença frágil ao papel que as suas ações estão sempre a contradizer. Ela é uma boneca de porcelana estilhaçada que ganha vida e nos ataca, uma imagem de inocência violada e tornada em demoníaca agressora.

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Um infeliz tesouro de personagens subdesenvolvidas e clichés do terror psicológico.

Pelo seu ato final, “Four Hands” revela-se como algo mais próximo do thriller psicológico que do filme de terror, não obstante o facto que deve toda a sua gramática audiovisual a esse género. Como sempre, a sede de vingança é esse eterno veneno dos anti-heróis, que lhes entra nas veias e consome de dentro para fora, tornando as vítimas de monstros em monstros eles mesmos. Aqui, o horror, quando se revela, provém do processo pelo qual uma mulher perde autonomia do seu ser, às mãos dos fantasmas do passado e dos horrores despoletados no presente, às mãos da loucura e da perda.

Mais revelações entraria no campo dos spoilers imperdoáveis, mas é difícil imaginar um espectador que, chegado ao fim da primeira metade da história, já não tenha uma boa ideia de como tudo vai terminar. Como antes foi apontado, “Four Hands” não prima pela originalidade, mas sim pela boa execução de clichés meio cansados do género do terror e do thriller psicológico. Talvez com melhores textos o realizador conseguisse construir obras merecedoras de louvor transversal e não somente de alguma admiração formalista. Para fãs deste tipo de histórias, contudo, o filme deverá revelar-se como um prazer seguro e bem feito, mesmo que os seus choques e surpresas sejam sempre puramente mecânicos.

Four Hands, em análise
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Movie title: Die Vierhändige

Date published: 5 de September de 2018

Director(s): Oliver Kienle

Actor(s): Frida-Lovisa Hamann, Friederike Becht, Christoph Letkowski, Agnieszka Guzikowska, Detlef Bothe

Genre: Drama, Thriller, Terror, 2017, 94 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO

“Four Hands” peca pela falta de originalidade e pelo desleixe insano que caracteriza as suas conclusões psicóticas, mas também constitui um louvável exercício em cinema do género do thriller psicológico, mesmo que somente a nível formal. Os atores fazem o que podem para redimir as piores partes do texto, mas é a montagem e trabalho audiovisual que realmente fazem o filme.

O MELHOR: Os jogos rítmicos de momentos como o prólogo.

O PIOR: Os twists finais e quão subdesenvolvidas as personagens são, especialmente um interesse amoroso da protagonista cujo afeto e lealdade representam um dos aspetos mais fascinantemente idiossincráticos da obra.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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