Não Te Preocupes Querida © 2022 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved

Não te Preocupes Querida, em análise

“Não te Preocupes, Querida”, a segunda longa-metragem realizada pela também atriz Olivia Wilde, e por ela igualmente co-produzida, é um esforço infrutífero que se preocupa muito mais com a forma do que com o conteúdo. Florence Pugh escapa sem um arranhão de um desastre fílmico que começou na campanha e termina na exibição. 

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Vamos por partes. Na realidade, “Don’t Worry Darling”, ou em português “Não te Preocupes, Querida“, consolidou-se como uma das narrativas mais antecipadas e faladas do ano de 2022. E, depois de uma campanha publicitária perfeitamente atípica, com novas acusações graves a serem tecidas contra a realizadora de forma constante (ora alegadamente mentira sobre o despedimento de Shia LaBeouf, ora abandonara o set com a co-estrela Harry Styles e deixara Pugh a “realizar”), a enorme telenovela em que o filme se viu mergulhado – não pertinente para os nossos esforços de análise – acabou na realidade por beneficiar a visibilidade da obra.

“Don’t Worry Darling” já rendeu mais de 69 milhões de dólares (à data de publicação deste texto), superando amplamente o seu orçamento estimado de 35 milhões. Há que ter em conta que a sua exibição em sala ainda renderá durante algumas semanas, o que confirma o velho ditado “no press is bad press” (não há má publicidade). Todavia, a expectativa e o circo que se gerou em torno desta longa-metragem apenas nos deixou ainda mais curiosos. Seria a utopia/ distopia de Olivia Wilde presságio de uma continuação de carreira de sucesso para a realizadora norte-americana?

Ao fim de contas, “Não te Preocupes, Querida” é apenas a segunda longa realizada por Wilde, mais conhecida do grande público pelos seus esforços como atriz. Depois da bem sucedida comédia adolescente “Booksmart”, lançada em 2019, esta segunda entrada na sua filmografia enquanto autora afirma-se como bastante importante para testemunhar o seu potencial de consolidação. “Booksmart”, que Wilde também não escreveu, com Kaitlyn Dever e Beanie Feldstein nos papéis centrais, é uma narrativa jovem que subverte as expetativas e, sem reinventar a roda, sabe promover a inclusividade e reforçar uma perspetiva mais feminina nos filmes adolescentes.

“Não te Preocupes, Querida”, longa-metragem munida de um elenco de luxo encabeçado por Florence Pugh e completo com a própria Olivia Wilde, Chris Pine, Gemma Chan, Harry Styles e Nick Kroll. Este thriller dramático com um toque de ficção científica catapulta-nos para um setting de década de 1950, na qual Olivia Wilde procura reproduzir uma época reluzente da indústria cinematográfica de Hollywood, criando uma luxuriosa comunidade utópica experimental que se pauta, em primeiro lugar pelo pastiche, e, em segundo lugar, pela elevada plasticidade.

Não te Preocupes Querida
Harry Styles e Florence Pugh em “Não Te Preocupes, Querida” | © 2022 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved

Wilde e a sua equipa técnica extremamente bem capacidade sucedem num único ponto neste filme, criar esta atmosfera de perfeita “Americana” ao cubo, onde a realidade do subúrbio idílico é tudo o que existe no mundo (e tudo o que precisa de existir). Os nossos protagonistas são Alice (Pugh) e Jack (Styles), um jovem casal para lá de apaixonado que vive na comunidade de Vitória. Esta trata-te de uma cidade experimental, altamente secreta, construída no meio do deserto e onde todos os casais contribuem para um mesmo “bem comum”.

Num argumento que deve pouco quer à profundidade, quer à especificidade, todas as famílias se unem em função do “Projeto Vitória”, liderado pelo carismático Frank (Chris Pine), que edificou em seu torno um culto do líder. Este “visionário”, altamente motivacional na sua capacidade discursiva, deveria representar, na perspetiva da realizadora, e de acordo com várias entrevistas, os líderes do movimento incel, uma sub-cultura digital atual  que desvaloriza grandemente o papel da figura feminina. Contudo, por muito cativante que Pine esteja no papel, uma vez mais o argumento falha-lhe e o seu Frank acaba por não se elevar acima de fogo de vista.

Na comunidade de Vitória, os maridos trabalham a desenvolver “materiais progressivos”. As mulheres passam o tempo a desfrutar da sua idílica vida comunitária e a assegurar tarefas domésticas rotineiras, desempenhadas com total nível de perfeccionismo. Estas esposas raramente se questionam em relação ao que serão estes “materiais progressivos” e em relação ao que fazem os seus maridos.

Alice será a única (ou das poucas) que começará a ver, por todo o lado, fendas na sua vida aparentemente perfeita, arriscando tudo para compreender o que poderá estar a passar-se. O grande problema com “Don’t Worry Darling” é que o mundo que nos é apresentado é tão não credível que o grande plot twist final fica quase implícito através da visualização do próprio trailer da longa-metragem. E por tudo ser tão claramente falso, é-nos incómodo pensar porque é que apenas duas personagens femininas em todo o filme questionam a realidade em que se movem? Porque é que a máscara não caiu mais cedo?

Ao fim de contas, quando chegamos ao desenlace, o qual deveria deixar quem vê desarmado, a poderosa reviravolta de eventos, a verdade é que apenas nos conseguimos focar nas imensas pontas soltas que atormentam o argumento. Tanto nunca é explicado ou desenvolvido e a realidade é que a base para a criação de uma boa distopia social ou tecnológica passa pela planificação de um conjunto de regras capazes de reger este mesmo mundo.

As grandes distopias literárias do nosso tempo, sejam elas mais ligadas à vigilância do ponto de vista social (como “1984“) ou do ponto de vista tecnológico (como “Admirável Mundo Novo“), elevaram-se acima do ruído devido à sua imensa especificidade. “Não te Preocupes, Querida” é despojado de qualquer especificidade, sendo antes um mosaico de citações – de “Stepford Wives” a “Matrix”, de “Truman Show” a “Cisne Negro”, passando pelos ecos de “Pleasantville”.

Do ponto de vista estético, “Não te Preocupes, Querida” encontra-se povoado por muitas imagens poderosas e símbolos – mas as quais nem sempre têm realmente tradução dentro do universo de Alice e companhia. Dançarinas de burlesco personificam um número que é recorrente ao longo da obra e dos créditos. Este número é esbelto, evocativo e visualmente provocador (e até conta com uma participação por parte de Dita Von Teese). Mas de que forma se relaciona tudo isto com a narrativa profundamente moralista de “Don’t Worry Darling”? Não assim tanto, deixando no ar uma mera metáfora simples acerca do poder da ordem e da não-aleatoriedade.

Se os símbolos carecem de força, o mesmo podemos dizer acerca da doutrina que o argumento prega. Alegadamente, esta história que é mais “The Stepford Wives” que qualquer outra coisa, não tem grande lugar no feminismo do século XXI e de 2022. Quando, por fim, nos é relevado o twist final, não deixamos de pensar que estas personagens femininas que ocupam o ecrã, as quais Olivia Wilde procura emancipar, são na realidade bastante submissas e crédulas.

Outro ponto negativo, portanto, remete-nos para o facto de que apenas Alice parece ter suficiente  auto-consciência e, ainda assim, muito demora a “acordar”. Por outro lado, as suas ações definem-se sempre em função de Jack (Harry Styles), o que faz com que a sua auto-afirmação como heroína feminista se veja enfraquecida de forma significativa. Quiçá, talvez este filme não faça sequer quaisquer favores às mulheres, reforçando conceitos de submissão.

E por muito lamuriosa que seja a Alice de Florence Pugh, por muito que o enredo e o argumento não a deixem brilhar como a heroína feminista que as argumentistas e realizadora quiseram pintar, a verdade é que a enorme estrela de Pugh consegue ainda assim transparecer. Ela está excelente num papel menor, num filme menor e no qual contracena com atores que não se encontram no ‘topo do seu jogo’.

79º Festival de Veneza
via 79º Festival de Veneza/’Não Te Preocupes Querida’

Gemma Chan parece deslocada, interpretando a mulher do líder Frank, a Madame Shelley, uma personagem inverosímil e colada a cuspo; Nick Kroll é um marido patético sem grandes características distintivas; Olivia Wilde é a estridente e enervante Bunny; Harry Styles é um co-protagonista relativamente eficaz mas que fica bem aquém de Pugh (como seria de esperar, a sua inexperiência é evidente) e apenas Chris Pine consegue fazer do seu Frank uma personagem com alguma dimensão.

Quanto às virtudes de “Don’t Worry Darling”, são muito nitidamente as características técnicas do filme, como já afirmado. Destaca-se a excelente banda-sonora que tenta dar corpo a este “thriller psicológico”, bem como a direção de fotografia de Matthew Libatique, também responsável pela criação da imagética de “Cisne Negro” ou “Requiem For a Dream/A Vida Não É Um Sonho“, filmes repletos de imagens memoráveis.

O que falta a “Não te Preocupes, Querida”, para a criação de imagens que perdurem, é a proposta de um clima tenso capaz de fazer regelar os ossos. Por vezes, a jornada de Alice parece querer plasmar, por exemplo, a da protagonista de um “Suspiria”. Olivia Wilde tenta pedir emprestados muitos códigos do terror, drama e thriller psicológico mas sem os levar a bom porto. Ficamo-nos por meias ideias e meias execuções, num filme que  nunca poderia ter vindo a ser muito original mas que, ainda assim, poderia ter desenvolvido o seu argumento bem mais. Uma oportunidade perdida.

“Don’t Worry Darling” estreou nas salas de cinema portuguesas a 22 de setembro pela mão da Cinemundo e, à data de publicação deste artigo, a 11 de outubro, passadas mais de duas semanas, continuava em exibição em perto de 50 salas de norte a sul do país. 

TRAILER | NÃO TE PREOCUPES, QUERIDA NOS CINEMAS

Não te Preocupes, Querida, em análise
Não te Preocupes Querida Poster

Movie title: Não te Preocupes, Querida

Movie description: Alice (Pugh) e Jack (Styles) têm a sorte de viver na comunidade idealizada de Vitória, a cidade experimental que foi construída para abrigar os homens que trabalham para o ultrassecreto Projeto Vitória e as suas famílias. . A vida é perfeita, mas quando pequenas falhas na sua vida perfeita começam a aparecer, debaixo da atrativa fachada, Alice não consegue resistir a perguntar-se o que é que estarão realmente a fazer em Vitória.

Date published: 6 de October de 2022

Country: EUA

Duration: 122'

Author: Katie Silberman

Director(s): Olivia Wilde

Actor(s): Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Gemma Chan

Genre: Thriller, Drama, Mistério, Romance

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  • Maggie Silva - 58
  • Marta Kong Nunes - 55
57

CONCLUSÃO

“Não te Preocupes, Querida”, a segunda longa-metragem realizada pela também atriz Olivia Wilde é um esforço infrutífero que se preocupa muito mais com a forma do que com o conteúdo. Florence Pugh escapa sem um arranhão de um desastre fílmico que prova que a arte não de faz de boas intenções.

Pros

A grande prestação de Florence Pugh, capaz de pegar num argumento bastante insuficiente e ainda assim defendê-lo com unhas e dentes e tornar as suas palavras credíveis. Alice, a sua protagonista, limita-se à lamúria durante grande parte do filme, mas Pugh lá arranja forma de lhe conferir força e gravitas.

A direção de fotografia de Matthew Libatique, também responsável por “Cisne Negro”, certamente um crédito que pesou muito para a sua escolha para este projeto em específico. Para lá deste nome, é em geral no campo técnico que encontramos as maiores virtudes de “Don’t Worry Darling”.

Cons

A organização dos 122 minutos da fita é abismal – enquanto por vezes parecem demasiado longos, com as investigações de Alice a tornarem-se algo circulares e a não caminhar para bom porto, o terceiro ato e todo o desenlace é precipitado e peca por uma gigante falta de especificidade e profundidade. O argumento é o grande calcanhar de Aquiles de um filme que parece ser bastante megalómano na sua tentativa de “fazer parecer” e “tentar ser”. Muitas pretensões depois, caímos num feminismo simplório e simplista e num enredo paupérrimo.

Outro aspeto inquietante é a incapacidade de construção de suspense, o qual parece sempre “fabricado”. Sim, é um filme sobre uma sociedade hiper-plástica mas, ainda assim, o encadeamento das ações nunca parece verosímil.

Harry Styles não está péssimo para primeiro papel com muitas falas, mas a verdade é que fica bem aquém dos talentos da grande estrela de Florence Pugh e, para uma parelha mais equilibrada, um ator profissional, de carreira, teria sido um casting mais adequado.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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