O Caso Spotlight e o subtil génio dos seus figurinos

 

Apesar de estar longe de ser uma vistosa produção de época, O Caso Spotlight oferece um guarda-roupa de uma surpreendente precisão e repleto de cuidadas caracterizações.

O Caso Spotlight tem-se vindo a cimentar como um dos inquestionáveis frontrunners na presente temporada de prémios de cinema, sendo que o seu elenco, seu argumento e sua importância temática têm sido bastante celebrados por várias organizações distintas. No entanto, apesar de toda a adoração crítica, os elementos mais formais deste filme têm sido curiosamente ignorados. Visualmente o filme é imensamente discreto e modesto, mas não é por isso que é menos preciso ou louvável que outras produções mais vistosas A concretização visual desta narrativa de investigação jornalística é de particular interesse, nomeadamente o seu vestuário.

O Caso Spotlight

Apesar de isso ocorrer de modo incrivelmente discreto, parte do sucesso de O Caso Spotlight devém da sua reprodução do específico ambiente do Boston Globe aquando do início da década passada. Quando estamos ainda próximos de uma certa época passada, é difícil identificarmos elementos do seu estilo característico, pelo que o trabalho de Wendy Chuck, a figurinista deste grande favorito da Awards Season, foi duplamente complicado. Por um lado, era necessário um retrato preciso da realidade da comunidade jornalística dentro dos escritórios do Boston Globe, por outro era necessária a discreta mas precisa criação de um visual ligeiramente removido da nossa presente época, visto que o filme decorre em 2001, há mais de uma década portanto.

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O Caso Spotlight

O Caso Spotlight

O modo como os figurinos sugerem um uniforme no Globe, apesar da sua faceta justiceira e de combatentes contra o esmagador poder de grandes instituições é um dos melhores elementos do discurso visual de O Caso Spotlight. O vestuário das personagens presentes no Globe indicam uma desconfortável conformidade visual que sugere, tal como alguns subtis momentos do texto, que o poder institucional do Globe tem um lado mais pernicioso que o seu lado heroico que é tão celebrado pelo filme, como que sugerindo a partir dos visuais que essa condição do jornal como uma grande entidade cheia de poder e respeitabilidade local foi um fator no modo como a história foi ignorada durante anos antes de ser explorada pela equipa Spotlight.

O Caso Spotlight

Esse uniforme de caquis largos e camisas, usadas sem gravata ou casaco, com as mangas enroladas até ao cotovelo, constitui então uma espécie de uniforme informal, que é usado tanto por homens como mulheres. Para criar este look a figurinista chegou mesmo a usar peças da segunda metade da década de 90, especialmente da GAP, e delas retirou moldes para a criação do look adotado pelo elenco. No entanto, algumas das peças foram adaptadas, de modo a não chamarem demasiada atenção para si mesmas, como o figurino de Rachel McAdams que, apesar de baseado em imagens da contraparte real da sua personagem, foram levemente estilizadas de modo discreto, como a redução do volume das calças pregueadas populares no final da década de 90.

O Caso Spotlight

O visual de todas as personagens do Globe foi, na verdade, conseguido através de fotos e de entrevistas que a figurinista fez aos jornalistas cuja história é relatada em O Caso Spotlight. Wendy Chuck chegou mesmo a criar os guarda-roupas de cada personagem especificamente a partir de peças das marcas e lojas referenciadas por cada um dos jornalistas, exacerbando a fidelidade histórica de toda produção. Mesmo o modo como nenhum dos prestigiosos atores do elenco, com algumas notórias exceções, se apresentam em roupas que lhes sirvam de modo minimamente atraente ou refletivo do seu estrelato. Há uma verossimilhança admirável na completa falta de elegância do guarda-roupa deste prestigioso drama.

O Caso Spotlight

Outro dos elementos de inteligente verismo veio do modo como a figurinista propositadamente tentou envelhecer as roupas, retirando a goma às camisas, envelhecendo os tecidos a partir de numerosas lavagens e outros processos, nunca permitindo que as roupas parecessem novas, mas sim vestuário do dia-a-dia que é sistematicamente usado pelas personagens. Em resumo, estes figurinos nunca se deveriam apresentar como peças de artifício cinematográfico, por muito tentador que seja cair nesse registo de polida e elegante execução visual.

O Caso Spotlight

Há algo de brilhante nas subtis diferenças que se registam no modo como cada personagem veste as camisas e calças que são praticamente iguais de pessoa para pessoa. Por exemplo, Jim Sheridan, quando posto em comparação com Michael Keaton, está sempre menos descontraído, com mais botões abotoados, com mais camadas, realçando uma certa tensão visual na personagem e, desde o início, sugerindo que a sua personagem poderá ter algo a esconder do seu amigo. A personagem de Mark Ruffalo, por outro lado, veste-se de modo ligeiramente mais ousado que os seus colegas, com o seu omnipresente casaco de cabedal, e o jornalista interpretado por Bryan d’Arcy James tem um característico gosto por gravatas em padrões.

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O Caso Spotlight

Também há que referir como, ao longo do filme, os figurinos vão subtilmente escurecendo, como que cromaticamente refletindo a podridão moral que se vai progressivamente revelando, como se os próprios jornalistas fossem perdendo força visual ou ligeireza e luminosidade à medida que a horrenda informação se vai acumulando sobre os seus ombros.

O Caso Spotlight

Certamente não é das produções mais belas ou glamourosas a recentemente sair dos estúdios americanos, mas O Caso Spotlight é um exemplo de como desenhar figurinos não se limita a vistosas exposições de extravagância mas também abrange obras mais subtis e discretas onde caracterizações discretas que passam despercebidas são a prova do triunfo da figurinista.

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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