Rami Malek em "Bohemian Rhapsody" e Mahershala Ali em "Green Book", o primeiro ator de origem egípcio e o segundo de origem afro-americano ambos vencedores de Óscares em 2019

Óscares 2019 | Post-mortem da cerimónia

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A 91ª cerimónia dos Óscares da Academia aconteceu na noite de domingo, 24 de fevereiro, no Dolby Theatre em Hollywood.

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Foram finalmente entregues os Óscares 2019, os maiores prémios da indústria de cinema de Hollywood relativos aos melhores filmes de 2018. Com a entrega das estatuetas douradas terminamos esta viagem tão turbulenta da Awards Season 2018/2019.

Desta forma, e a partir de agora vamos embarcar no capítulo final de uma temporada de prémios marcada pela diversidade e sobretudo pela tentativa de dar uma voz à Netflix não só como plataforma de streaming, mas também como grande produtora de cinema a nível mundial. Com alguns erros e ganhos históricos, vamos tentar analisar e perceber a fundo os efeitos desta 91ª edição dos Óscares, os prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Óscares 2019
Rami Malek, Olivia Colman, Regina King e Mahershala Ali foram os melhores atores

Vamos relembrar os melhores momentos, as maiores surpresas e os grandes derrotados da noite, numa espécie de autópsia à cerimónia mais importante da indústria de cinema. Queremos sobretudo perceber que tipo de rumo histórico foi tomado a 24 de fevereiro e que efeitos no futuro da Academia.

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Relembramos que os grandes vencedores dos Óscares 2019 foram “Green Book: Um Guia Para a Vida”, de Peter Farrelly e “Roma”, de Alfonso Cuarón, ambos com três galardões, embora tenha sido “Bohemian Rhapsody”, o mais galardoado com quatro dos cinco Óscares para que estava nomeado. Foram justas ou injustas estas vitórias? Precisamos de um post-mortem desta montanha-russa da Awards Season e dos Óscares.

Todos os comentários já a seguir! Basta seguires as setas.


Uma cerimónia interessante sem anfitrião

Apesar de não ter nenhum anfitrião, a 91ª cerimónia dos Óscares da Academia conseguiu surpreender pela forma como decorreu com alguma velocidade e boa orientação da equipa técnica (o tempo passou sem darmos por ele!). Contudo, a cerimónia não foi mais curta como tanto desejavam os produtores do Canal ABC e o próprio presidente da Academia John Bailey.

Esta foi a primeira cerimónia dos prémios da Academia a não ter um anfitrião, desde os Óscares de 1989, e isso notou-se desde logo com um começo diferente: um concerto dos Queen+Adam Lambert. Este começo agitado foi uma forma mais leve de começar a cerimónia, sem muitas críticas às políticas de Donald Trump – o seu nome nunca foi mencionado, somente sugerido pelos discursos mais políticos de Spike Lee e Alfonso Cuarón. Assim se incorporaram os valores do entretenimento de um bom programa televisivo em direto, como tanto os seus produtores desesperavam em conseguir. “We Will Rock You/We Are The Champions” conquistou a plateia hollywoodesca que se encontra no Dolby Theatre e fez muitos bater os pés, tendo como finalidade conquistar as audiências televisivas que tinham sido mais baixas no ano anterior.

Óscares 2019
Adam Lambert e Brian May

Sem demora foi logo entregue um dos principais prémios da Academia: o Óscar de Melhor Atriz Secundária. Mas antes uma espécie de monólogo de abertura foi dado pelas comediantes Amy Poehler, Tina Fey e Maya Rudolph que refletiram aquilo que poderíamos ter tido caso fossem as anfitriãs da noite. Colocassem essas três mulheres a apresentar verdadeiramente e teríamos talvez uma das melhores cerimónias dos últimos anos. Aliás quem não se lembra que Poehler e Fey tão bem entretiveram aquando da sua condução nos Golden Globes Awards em 2014 e 2015?

Relembremos assim a introdução do trio maravilha da noite que começou bem os Óscares 2019.

O resultado? Mais pessoas assistiram à 91ª edição dos Óscares da Academia, uma subida de 3 a 4 pontos nas audiências nos Estados Unidos em relação ao ano passado que foi a pior cerimónia. Pelo menos segundo os primeiros índices de audiências.


Quando existe diversidade nos Óscares

Pode parecer mentira, mas a 91ª cerimónia dos Óscares da Academia conseguiu aquilo que edições passadas não conseguiram: a maior diversidade na entrega dos prémios. Esta é mesmo a primeira imagem que refletem os Óscares 2019 para o mundo. Nunca antes tantas pessoas não caucasianas ganharam Óscares da Academia, nem tantas mulheres de cor.

Óscares 2019
Alguns dos vencedores afro-americanos dos Óscares 2019

Os Óscares 2019 mostram assim um lado positivo no caminho para o progresso. Destaque-se a histórica vitória de Spike Lee, um dos maiores cineastas afro-americanos que, aos 61 anos, levou finalmente para casa o seu primeiro Óscar em competição. Além do mais, quatro mulheres afro-americanas venceram nos cinco primeiro prémios que foram entregues, a começar com a vitória de Regina King e como Melhor Atriz Secundária por “Se Esta Rua Falasse”. A sua vitória demonstra que os afro-americanos podem ganhar espaço em Hollywood. O seu discurso belíssimo e impulsionador da diversidade pode ser visto em baixo.

Houve um recorde de maior número de Óscares entregues a profissionais pretos (7 estatuetas) e para mulheres (15) em toda história dos Óscares da Academia. Aliás, muitas realizadoras foram celebradas, mesmo que nenhuma mulher tenha sido nomeada na categoria de Melhor Realização.

Bastante incrível e que nos deixou completamente agarrados ao ecrã foi uma dessas vitórias: a de Ruth E. Carter, que se tornou a primeira mulher negra a ganhar o Óscar de Melhores Figurinos. E ela deve toda a carreira ao Spike Lee. Vê-los ganhar na mesma noite foi lindo.  Até a competição da Ruth E. Carter parecia feliz. As figurinistas Alexandra Byrne (“Maria, Rainha dos Escoceses”) e a Sandy Powell (“A Favorita” e “O Regresso de Mary Poppins”)levantaram-se de pé para a aplaudir e Mary Zophres (“A Balada de Buster Scruggs”) até segurou na cauda do vestido de Carter enquanto ela subia ao palco. Também o discurso de Ruth E. Carter nos Óscares 2019 pode ser visto abaixo.

Estes recordes podem ser conhecidos abaixo.

Confere os responsáveis pelo recorde da comunidade negra nos Óscares

  • Regina King – Melhor Atriz Secundária, “Se Esta Rua Falasse”
  • Mahershala Ali – Melhor Ator Secundário, “Green Book”
  • Spike Lee – Melhor Argumento Adaptado, “BlacKkKlansman – O Infiltrado”
  • Kevin Willmott – Melhor Argumento Adaptado, “BlacKkKlansman – O Infiltrado”
  • Hannah Beachler – Melhor Direção Artística, “Black Panther”, a primeira pessoa de ascendência africana a vencer na categoria
  • Ruth E. Carter – Melhores Figurinos, “Black Panther”, a primeira mulher afro-americana a vencer na categoria
  • Peter Ramsey – Melhor Filme de Animação, “Homem-Aranha: No Universo Aranha”, primeiro negro a vencer na categoria

Confere os responsáveis pelo recorde das mulheres:

  • Ruth E. Carter – Melhores Figurinos, “Black Panther”
  • Elizabeth Chai Vasarhelyi e Shannon Dill, – Melhor Documentário por “Free Solo”
  • Rayka Zehtabchi e Melissa Berton – Melhor Documentário de Curta-metragem por “Absorvendo Tabu”
  • Kate Biscoe e Patricia DeHaney – Melhor Maquilhagem por “Vice”
  • Hannah Beachler – Melhor Direção Artística por “Black Panther”
  • Domee Shi eBecky Neiman-Cobb – Melhor Curta de animação por “Bao”
  • Jaime Ray Newman – Melhor Curta Metragem por “Skin”
  • Nina Hartstone – Melhor Edição de som por “Bohemian Rhapsody”
  • Lady Gaga – Melhor Canção Original por “Shallow” de “Assim Nasce Uma Estrela”

Aliás, com vencedores latinos e asiáticos também, foram, como já dissemos, os vencedores mais diversos na história da Academia. Tal diversidade importa, pois mostra a todos que o cinema não é um clube exclusivo em que só os privilegiados têm direito a triunfar. Essa diversidade não veio muito do “Green Book” nem muito do “Bohemian Rhapsody” há que se dizer – mesmo que o afro-americano Mahershala Ali e o descendente de egípcios Rami Malek tenham sido celebrados. Aliás, por falar destes filmes…


Mas os Óscares podem manter-se hipócritas!

É bem verdade que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas gostou de fazer história nos Óscares 2019, mas não deixa de ser curioso que o filme mais aclamado da noite seja reflexo da hipocrisia de Hollywood. Ou seja, os Óscares podem celebrar o novo, mas ter espaço para a hipocrisia que não passa nada! Reflexo disso foram as 4 vitórias de “Bohemian Rhapsody”, desse senhor realizador chamado Bryan Singer.

Óscares 2019
Rami Malek em “Bohemian Rhapsody”

Convém mesmo salientar que, à medida que subiam ao palco, nenhum dos vencedores por “Bohemian Rhapsody” ousou agradecer ao seu realizador. E isso aconteceu não só nos Óscares 2019, tendo-se passado em todos os prémios arrebatados pela sua equipa ao longo da temporada de prémios. Nem mesmo o vencedor de Melhor Montagem que nunca fez um filme não realizado por Bryan Singer e lhe deve a ele toda a sua carreira ousou mencionar o seu nome.

E, apesar da imitação de Rami Malek como Freddie Mercury, deve-se dizer que ele não foi tão bom quanto outros três nomeados como Christian Bale por “Vice”, Bradley Cooper por “Assim Nasce Uma Estrela”, Willem Dafoe por “À Porta da Eternidade”. O discurso de Rami Malek nos Óscares 2019 segue abaixo.

Isto é muito hipócrita sobretudo porque vemos um filme realizado por alguém acusado de assédio sexual (assim como pedofilia e violação) chegar aos Óscares, numa época em que os produtores da Amazon não deixam o novo filme de Woody Allen ser distribuído. Ou seja, mesmo com as mesmas acusações – num caso bem à parte verdade seja dita – Woody Allen já não pode chegar aos cinema nos dias de hoje e “Bohemian Rhapsody” pode.

Nós não somos os únicos descontentes com a vitória de “Bohemian Rhapsody”. Ao longo da noite as conquistas do filme iam sendo criticadas por muitos no Twitter. No total, o filme inspirado na vida de Freddie Mercury levou os galardões de Melhor Montagem de Som, Melhor Mistura do Som, Melhor Montagem e Melhor Ator. Um utilizador do Twitter partilhou:

Estava-me tentando convencer de que o “Bohemian Rhapsody” não ganharia tantos Óscares, mas é hora de encarar o horrível facto.

Foi exatamente o que sentimos! Mas por sorte (ou azar) “Bohemian Rhapsody” não venceu o Óscar de Melhor Filme entregue ao pior vencedor do Óscar de Melhor Filme desde “Colisão”. É ele: “Green Book – Um Guia para Vida” e que agora tem o privilégio de estar na lista dos filmes mais  estupidamente galardoados com o Óscar que todos vão esquecer no futuro. Vamos analisar esta vitória?


Green Book ou o Pior o Óscar de Melhor Filme

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é mestre em deixar cinéfilos maravilhados pelas vitórias de alguns filmes – “A Forma da Água”, “Moonlight”, “O Caso Spotlight” são casos recentes – como também em deixar os cinéfilos completamente revoltados pela vitória de outros – “Colisão”, “Uma Mente Brilhante”, “O Discurso do Rei”. São vários os exemplos em que a Academia consegue premiar tanto o melhor, como o mais medíocre de Hollywood.

Óscares 2019
Equipa de Green Book sobe ao palco. Octavia Spencer, produtora executiva, não foi convidada com o resto da equipa e teve mesmo de participar na lotaria da Academia para ter direito a lugar na cerimónia. Repare-se na falta de diversidade étnica na equipa responsável por este filme que tanto quer celebrar o fim do racismo.

Só para exemplo, aquando da vitória de “O Discurso de Rei” nos Óscares 2011, especialistas em Óscares e cinéfilos renhidos afirmavam deliberadamente que esse filme de Tom Hooper rapidamente seria esquecido daí por 10 anos. Passaram apenas 8 anos e já ninguém fala nesse filme ao contrário de outros nomeados na mesma cerimónia como “A Origem”, “Cisne Negro”, “Toy Story 3” ou “A Rede Social”.

Ao que parece os Óscares voltaram a fazer o mesmo na edição deste ano. Em vez de premiar o inovador “Roma”, de Alfonso Cuarón ou o atrevido “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos ou ainda o necessário “BlacKkKlansman”, de Spike Lee, os Óscares 2019 preferiram o conservadorismo e o racismo inadvertido de “Green Book – Um Guia para a Vida”, um filme que propõe uma história sobre tensões raciais como redenção de um protagonista branco e deturpa inúmeros factos históricos sobre a personagem afro-americana no seu centro. Não serão precisos 10 anos para o filme ser esquecido. Daqui por um ano já ninguém se lembrará de “Green Book”, uma espécie de “Miss Daisy” versão 2.0, também ele vencedor do Óscar de Melhor Filme. Dá para acordar deste pesadelo por favor?

Vimos já muitas coisas na história recente da entrega dos Óscares – Isabelle Huppert a perder o Óscar de Melhor Atriz para a jovem Emma Stone; “Boyhood: Momentos de uma Vida” a ser derrotado por “Birdman” nas categorias de Melhor Filme e Melhor Realizador depois de vencer todos os prémios da temporada de prémios em 2014/2015, mas nunca antes a Academia havia apunhalado os nossos corações e sentimentos cinéfilos desta forma. O que aconteceu a 24 de fevereiro de 2019 será para sempre marcado como um momento traumático, em que a Academia deu vários passos em frente, mas um grande passo atrás na história cinematográfica. Isto só prova que, aparentemente, na Academia não há apenas espaço para o moderno, ou que esse moderno tarda em chegar, dando início a uma revolução.

A Academia continua a ser uma instituição que precisa de ser renovada, e que continua a ter medo. Medo sobretudo de entregar o Óscar a um filme de uma plataforma de streaming protagonizado por uma mulher indígena ou a uma história sobre três mulheres poderosas da Inglaterra do século XVIII que nunca se deixaram levar pela política e domínio machistas da sua época. A Academia continua a ter medo de cortar o laço com o passado principalmente quando o assunto é o Óscar de Melhor Filme. Bastam as histórias medíocres em que os brancos salvam os negros ou em que um deles assume o papel de motorista e o outro o de passageiro.Como é que um filme absolutamente racista conseguiu enganar tanta gente? E como é possível a consagração deste filme depois dos escândalos que envolvem os produtores e a família de Don Shirley? Aliás essa mesma família está a processar os produtores pelas calúnias e mentiras contadas.

Em “Green Book” não há qualquer respeito pela personagem de Don Shirley e, inclusive, nenhum dos vencedores por “Green Book”, tirando Mahershala Ali, agradeceu a Shirley. No discurso de aceitação do Melhor Filme falaram do Tony Lip e do Viggo, mas não do Don Shirley ou do criador do “Green Book” em si, que dá título ao filme. Mostra bem, juntamente com a diversidade étnica ou falta dela em palco, como isto foi mesmo um filme alegadamente progressista que foi feito por e sobre pessoas brancas para se fazerem sentir melhor sobre questões de racismo. E é completamente vergonhoso que em pleno 2019 ainda se discutam estas questões desta forma antiquada, reaccionária e retrograda.

Bem, pelo menos agora podemos começar a ver o “Miss Daisy”, “Colisão” e “Green Book” como a trilogia da mediocridade Óscar. Três filmes que retratam racismo como uma questão de indivíduos e não de sistemas de poder, feitos por autores brancos e que negligenciam e não dão qualquer valor às perspetivas étnicas inerentes às suas historias. Nenhum deles ganhou Melhor Realizador, interessantemente. Lamentavelmente não estamos sozinhos nestes nossos comentários.

Se quisermos ver com mais pormenor, as semelhanças entre o “Miss Daisy” e o “Green Book” são notavelmente assustadoras. Nenhum foi nomeado a Melhor Realizador, mas arrecadou o prémio de atuação para a pessoa que contrata um condutor. Ambos lidam com questões de racismo da mesma maneira, como um problema individual do passado ultrapassado pela amizade e até ambas as narrativas se passam sensivelmente na mesma altura. Só que o “Miss Daisy” ainda ganhou o Óscar para Melhor Maquilhagem, enquanto o “Green Book” não teve qualquer sucesso nas categorias técnicas.

Se quisermos analisar em termos de votos, a vitória de “Green Book” nos Óscares 2019 decorre do facto da Academia ser tão grande como nunca e do seu sistema de voto tão peculiar. Com 7.902 membros votantes, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – uma organização maior do que nunca, graças a um impulso nos últimos anos para convidar mais mulheres, pessoas de cor e não americanos – estava disposta a entregar o seu principal prémio para o “Green Book” foi chocante e decepcionante para o círculo online de cinéfilos.

Tudo porque a Academia tem um sistema de voto diferente para o Óscar de Melhor Filme, em que os seus votantes fazem um listado atribuindo pontos aos filmes. Filmes como “Roma”, “A Favorita” ou “BlacKkKlansman” poderão ter recebido tantas notas altas, mas como são filmes mais ou menos polémicos e inovadores, acabam também por receber notas mais baixas. Isto permite a que filmes com notas médias, como “Green Book”, colocado certamente lá no meio das listas dos votantes, consiga subir para o primeiro lugar e vencer o Óscar. Curiosamente ninguém sabia da existência do argumentista/produtor do filme, Nick Vallelonga que ganhou destaque à medida que a votação dos Óscares foi iniciada. Aliás esse senhor agora tem mais Óscares que o Martin Scorsese, o Stanley Kubrick, o Spike Lee, e uma infinita lista de outros génios da sétima arte.

Mas a verdade é que não fomos os únicos descontentes com a vitória do “Green Book”. Para Spike Lee a vitória foi quase vergonhosa, sendo que o próprio cineasta virou costas e saiu do Dolby Theatre quando ouviu o nome do vencedor ser anunciado. Depois durante a conferência de imprensa o realizador e argumentista norte-americano preferiu beber mais champanhe. Spike Lee disse que estava já no sexto copo de champanhe e que os jornalistas sabiam bem o porquê. Depois, ainda disse que se recusava a comentar sobre o “Green Book”, mas que o árbitro cometeu uma má decisão.


Olivia Colman foi a nossa surpresa favorita

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OSCARES MHD Olivia Colman

Apesar da vitória de “Green Book” ter sido verdadeiramente revoltante, nada foi mais chocante que Olivia Colman ter ganho o Óscar de Melhor Atriz, fazendo com que Glenn Close perde-se o Óscar por “A Mulher”.

Olivia Colman já tinha ganho os Óscares caso estes fossem entregues pela MHD, mas não estávamos nada à espera do sucedido. Nem ela, nem Lady Gaga que diz “what?” ou a própria Glenn Close, que parece desapontada por não ouvir o seu nome. Mesmo assim, Close manteve a atitude e a elegância como é possível ver abaixo na entrega do Óscar de Melhor Atriz.

O charme de Olivia Colman como Rainha Ana da Inglaterra em “A Favorita” mostra que a Academia gosta sempre de homenagear atrizes que interpretam rainhas, ou até mesmo figuras políticas do panorama britânico. Vejamos Helen Mirren como a Rainha Isabel II em “A Rainha”; Judi Dench como Rainha Isabel I em “A Paixão de Shakespeare”, ou para não esquecer Meryl Streep como Margaret Thatcher em “A Dama de Ferro”. Aliás, no mesmo ano em que Streep ganhou o seu terceiro Óscar Glenn Close perdeu pela sexta vez na categoria. Close com 71 anos é agora a atriz viva com mais nomeações aos Óscares sem nunca ter ganho e isso deixa-nos com lágrimas nos olhos. Estamos deliciados pela vitória de Olivia Colman, mas a derrota de Glenn Close é qualquer coisa de raro e de desolador.

Glenn Close havia ganho o Golden Globe, o Critics’ Choice, o SAG, sendo a primeira atriz a ganhar esses prémios na temporada de prémios mas sem levar o Óscar. Apenas dois Russell Crowe por “Uma Mente Brilhante” e Eddie Murphy por “Dreamgirls” — ganharam esses três galardões e não levaram o Óscar.

Mas como é que a vitória de Olivia Colman aconteceu nos Óscares 2019? Não sabemos ao certo, mas poderemos supor que tem que ver com o número de membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que realmente viu o seu filme. “A Favorita” estava nomeada para 10 Óscares, enquanto que “A Mulher” apenas concorria a Melhor Atriz. Isso significa que os votantes preferiram dar prioridade para ver “A Favorita” em vez de “A Mulher”, um filme de muito baixo orçamento com o qual os sempre muito atarefados votantes não iriam perder o seu tempo. Mesmo assim, desde que estreou todos diziam que Glenn Close finalmente iria levar o Óscar. Não foi isso que vimos e certamente não será isso que iremos ver. Só se o musical da Broadway “Sunset Boulevard” for adaptado ao cinema pode ser que Close tenha a sua última chance.

Todavia, recentemente outra atriz conseguiu ser nomeada e vencer nos Óscares mesmo que o seu filme tivesse tido apenas uma nomeação. É o caso de Julianne Moore em “O Meu Nome é Alice”, filme também distribuído pela Sony Classics. Se tivermos em conta a vitória de Moore e qual a razão para Glenn Close não ter ganho? Isso tornava-se difícil, uma vez que a Academia decidiu desde 2015 convidar muitos jovens para participar. As pessoas que estão ativas e ocupadas, no auge de suas carreiras, simplesmente não têm tanto tempo para se dedicarem a considerar filmes quanto os reformados, mas, com ou sem razão, tendem a votar mesmo se não viram todos os nomeados numa categoria. Vamos rever o discurso de Olivia Colman e pensar que Glenn Close ainda terá chances para brilhar….


O mexicano Alfonso Cuarón foi o homem da noite

“Roma” pode não ter ganho o Óscar de Melhor Filme, mas foi sem dúvida alguma responsável por colocar no palco um dos maiores realizadores do nosso tempo: Alfonso Cuarón. Cuarón é um cineasta que trespassa uma mensagem humana quer nos seus filmes quer nos seus discursos que é difícil não se deixar levar pelas suas palavras. Somos fãs de Cuarón e gostavamos imenso que “Roma” tivesse tido mais protagonismo. Alfonso Cuarón subiu ao palco três vezes para receber os Óscares de Melhor Realizador, Melhor Fotografia e Melhor Filme Estrangeiro. O cineasta estabeleceu novos recordes.

Primeiro “Roma” tornou-se o primeiro filme do México a levar o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, algo que nunca antes tinha acontecido. Além disso, o cineasta foi o primeiro a levar o Óscar de Melhor Realizador por um filme estrangeiro – Michel Hazanavicius não conta porque “O Artista” é todo ele uma produção sobre Hollywood e até a única fala do filme é em inglês. Alfonso Cuarón torna-se ainda o primeiro realizador a vencer essa categoria e o Óscar de Melhor Fotografia em simultâneo, sendo inclusive o primeiro cineasta a levar para casa a estatueta dourada por um filme em que também esteve responsável pela fotografia. Não há como não dar uma merecida salva de palmas a tamanho talento.

Alfonso Cuarón torna-se ainda o segundo cineasta mexicano com dois Óscares de Melhor Realizador, depois de Alejandro G. Iñarritu. E junta-se ao seu compatriota e um dos melhores amigos na lista dos 21 realizadores que ganharam o Óscar de Melhor Realizador mais do que uma vez.

John Ford mantém o recorde com quatro vitórias “The Informer” (1935), “The Grapes of Wrath” (1940) “How Green Was My Valley” (1941), e “The Quiet Man” (1952). Frank Capra e William Wyler seguem com 3 cada um. Frank Capra venceu por “It Happened One Night” (1934), “Mr. Deeds Goes to Town” (1936), e“You Can’t Take It With You” (1938), enquanto que Wyler ganhou por “Mrs. Miniver” (1942), “The Best Years of Our Lives” (1946), e“Ben-Hur” (1959). 18 outros cineastas levaram por duas vezes: Frank Borzage, Alfonso Cuaron, Clint Eastwood, Milos Forman, Alejandro G. Inarritu, Elia Kazan, David Lean, Ang Lee, Frank Lloyd, Joseph L. Mankiewicz, Leo McCarey, Lewis Milestone, Steven Spielberg, George Stevens, Oliver Stone, Billy Wilder, Robert Wise e Fred Zinnemann.

Com o final de uma temporada de prémios em que os principais prémios da indústria iam sendo entregues sempre um filme diferente – algo que nunca havia acontecido antes -, a 91ª cerimónia dos Óscares seguiu o exemplo, dando pelo menos um prémio a cada um dos oito nomeados ao Óscar de Melhor Filme, algo poucas vezes visto. “Black Panther”, “BlacKkKlansman”, “Bohemian Rhapsody”, “A Favorita”, “Green Book”, “Roma”, “Assim Nasce uma Estrela” e “Vice” levaram Óscares para casa. Além disso, três realizadores desses filmes levam estatuetas douradas: Peter Farrelly, do Green Book, colecionou o Óscar de Melhor Filme e Melhor Argumento Original; Alfonso Cuarón, da Roma, de melhor Realizador e melhor fotografia e Spike Lee de BlacKkKlansman para melhor argumento adaptado.

Óscares 2019

Com tudo isto comprova-se a heterogeneidade dos Óscares que se ao longo dos últimos anos tinha sido notória, este ano foi ainda mais. Numa noite em que “Green Book”, “Black Panther” e “Bohemian Rhapsody” vencem há espaço para filmes como “Roma”, “A Favorita” e “BlacKkKlansman”. Do cinema de estúdios/studio system – afinal “Green Book” é o primeiro filme da Universal a vencer desde que “Uma Mente Brilhante” levou o Óscar há 19 anos e “Bohemian Rhapsody” é produzido pela 20th Century Fox e levou 4 Óscares, à plataforma de streaming Netflix, está visível como nos Óscares podem existir o eterno debate entre novo e velho. Não há uma consagração do streaming totalmente outra o clássico.

Prémios entregues, a temporada de prémios termina. Espero que a discussão em torno da contínua problemática e traumatizante vitória de “Green Book” passe depressa.

O que pensas das escolhas da Academia?

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