Outlander | Figura de Estilo, T2E01

Na primeira hora da sua segunda temporada, os figurinos de Outlander são mais discretos que o usual, mas pequenos detalhes e cores simbólicas marcam a diferença.

 

<< O guarda-roupa da primeira temporada | Figura de Estilo, T2E02 >>

 

Outlander

Quando primeiro vislumbramos Claire, ela está de volta em Craigh na Dun e, depressa descobrimos, em 1948. Tal como no primeiro episódio da primeira temporada, as roupas de Claire marcam-na como uma mulher de outro tempo, o figurino de lã verde à moda da década de 1740 é um contraste imenso com esta realidade. Para além do mais, com os detalhes de fios cruzados a fecharem a frente do corpo, e pormenores de lã tricotada, este figurino, concebido por Terry Dresbach, é como que um fantasma da maioria dos figurinos que a nossa protagonista envergou na primeira temporada, antes de partir em direção às intrigas parisienses da sociedade setecentista.

Outlander

Outlander

Outlander

Se há um grande tema neste episódio, será o de deixar o passado para trás, tanto em termos espirituais como práticos. Na primeira metade do episódio, tal é traduzido visualmente na paleta cromática do episódio, onde as cores naturais da paisagem escocesa são colocadas em ênfase, com o verde a ter posição de destaque. Apesar disso, verdes e azuis parecem cores mais exclusivas de Claire, enquanto as pessoas à sua volta se apresentam como um sufocante cortejo de pretos, cinzentos e castanhos, como se os figurinos estivessem a telegrafar o modo como Claire encara este regresso ao seu tempo de origem, como algo trágico, necessário e que marca o cúmulo do seu fracasso em outros tempos.

Outlander

Outlander

A grande exceção nesta análise cromática é a última cena desta primeira metade do episódio, quando Claire e Frank desembarcam do avião que os trouxe a Boston. Aí, as cores são mais vivas, com os próprios figurantes a vestirem cores bem distintas da massa amorfa de cinzas do elenco escocês. Frank, por seu lado, aparece pela primeira vez numa cor com algum destaque, um fato azul e gravata mostarda. Essas cores são também presentes, em diferentes níveis de saturação, nas roupas de Claire, aqui unida ao seu primeiro marido e decidida a seguir em frente. Contudo, um pequeno toque de verde ainda marca a sua ligação ao passado, a Jamie, e é nesta cena que a narrativa regressa ao passado, ao século XVIII e à nossa protagonista acabada de chegar a França.

Lê Também:
Matt Damon e Christian Bale lutam pela soberania no trailer de Ford V Ferrari

Outlander

Repentinamente, da relativa austeridade das modas do pós-guerra, com o seu limitado uso de tecido e cor, temos Claire envergando uma montanha de tecido. A sua capa verde volta a marcar a simbologia dessa cor para a sua personagem, enfatizando a sua união com Jamie, e o seu vestido é o mesmo que vimos no último plano da primeira temporada, um figurino de lã castanha, com um pièce d’estomac a fechar a frente e decorado com motivos florais, uma verdadeira visão de vitalidade quando comparado com a severidade que vimos no século XX.

Outlander

Uma pequena nota de infelicidade no que diz respeito a este figurino é a sua falta de fidelidade histórica. Para muitos membros da audiência isto não será particularmente interessante, mas o facto é que Outlander é uma série que põe grande ênfase em factos históricos e neste mesmo episódio houve diálogo precisamente sobre a autenticidade das roupas que Claire enverga. Muitos detalhes deste figurino estão imensamente errados para este período histórico, e sem aparente justificação estilística. Por exemplo, este tipo de peça nunca seria fechada nas costas com cordões ao estilo de um corpete, especialmente considerando o facto que era fechado à frente pelo uso da já referida pièce d’estomac, um triângulo de tecido que era aplicado e preso à frente destes vestidos abertos. Para além disso, a saia de duas camadas que Claire usa é completa fantasia. No século XVIII este tipo de imagem ocorria, mas era quando se usava um vestido, aberto à frente, por cima de um saiote e não o que são peças separadas. Isto poderão parecer críticas picuinhas, mas se a série quer falar de história como a Batalha de Culloden com sobriedade e autenticidade, é pena que tal atenção não se estenda aos visuais.

Lê Também:
Matt Damon e Christian Bale lutam pela soberania no trailer de Ford V Ferrari

Lê Também: Outlander | O guarda-roupa da primeira temporada

Em contraste com a protagonista, os figurinos masculinos da parte setecentista da série são muito mais fidedignos a bases históricas, não descurando no que diz respeito também à caracterização e criação de uma importante atmosfera. O contraste entre o casal Fraser e os aristocratas que conseguimos vislumbrar é de particular interesse.

Outlander

Jamie poderá usar um conjunto de elegante simplicidade, pontuado por um casaco azul que lembra o fato que Frank envergou aquando da sua viagem com Claire, mas os seus materiais são imensamente grosseiros quando colocados em direta comparação com seu primo. Jared Fraser, sendo um abastado comerciante a viver no hedonismo da alta sociedade francesa do século XVIII, veste um figurino apropriado ao seu estatuto, em cetins visivelmente mais luxuosos que qualquer uma das peças envergadas por seu primo e esposa. De salientar é também a sua cor, verde, uma marca da sua ligação à Escócia.

Outlander

Apesar disso, é o figurino do Conde de S. Germain que realmente marca a diferença entre os Fraser e a sociedade francesa. Com o seu cetim, botões detalhados, punhos de renda, e bordados rosa, o Conde está até bastante discreto se considerarmos os excessos a que a aristocracia francês poderia chegar nesta época. Para um novo antagonista de Claire, a primeira aparição deste nobre deixa uma inegável marca visual e estilística.

Outlander

 

<< O guarda-roupa da primeira temporada | Figura de Estilo, T2E02 >>

 

Para a semana, os Fraser realmente inserem-se na sociedade de França, e seus figurinos vão ganhar um luxo e opulência ainda inéditos nos seus figurinos. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *