"Uma Rapariga Imaterial" foi o filme vencedor da Competição de Curtas da edição de 2022 do Queer |©Terratreme

Queer Lisboa ’22 | Competição de Curtas 3, em análise

A terceira sessão da Competição de Curtas do Queer Lisboa 26 decorreu na sala 3 do Cinema São Jorge, no dia 20 de setembro, perante uma sala cheia. A popularidade da projeção deveu-se, em grande parte, à inclusão de “Uma Rapariga Imaterial”, nova narrativa de André Godinho. Passamos revista às curtas apresentadas nesta projeção. 

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UMA RAPARIGA IMATERIAL DE ANDRÉ GODINHO (PORTUGAL, 2022, 42′)

Uma Rapariga Imaterial
©Terratreme

Perdido numa floresta, Tiago encontra uma rapariga chamada João. Ela vive isolada da sociedade, protegida do mundo exterior. João é uma rapariga imaterial, ela é o que quer ser, independentemente da sua idade, género ou cor de pele. Cada vez que Tiago olha para ela é como se visse uma pessoa diferente, literalmente. Mas quando a relação deles se torna demasiado séria, ele vai ter que confrontar os preconceitos que não sabe que tem, para compreender o mundo que ela criou para si.

“Uma Rapariga Imaterial”, obra de André Godinho que poderia na realidade ser considerada uma média metragem, devido à sua longa duração [dentro do universo da curta], com tempo suficiente para o desenvolvimento de um arco narrativo coeso, é uma história ambiciosa sobre a crescente afirmação da fluidez de género e um manifesto utópico contra a conformidade societária.

Esta pequena experiência cinematográfica vence pelo argumento inteligente e repleto de suspense, onde a nossa rapariga imaterial se vai revelando progressivamente, sempre misteriosa e capaz de nela encapsular mil ambivalências e complementaridades  – homem, mulher, outres.

Tudo em “Uma Rapariga Imaterial” é vitorioso: do elenco expressivo, à representação de um protagonista masculino incapaz de compreender uma visão de mundo maior que a sua, passando pela edificação de um universo muito próprio e fantasioso (mas simultaneamente aspiracional).

Na apresentação da obra, nesta sessão de Competição de Curtas 3, no Cinema São Jorge, André Godinho defendeu que este é o seu conto de fadas. Quanto à sua princesa, ela é especial, mística e inequivocamente mágica. A narrativa do filme é reforçada por um output excelente em todas as áreas técnicas, do trabalho de Fotografia alcançado por Paulo Menezes, ao de Som a cargo de Nuno Carvalho. Louva-se, por fim, a banda sonora original de Odete, com três canções criadas para o filme e que encaixam na perfeição.

João Reis Moreira (que este ano integrou também o elenco de “Fogo-fátuo”, filme de abertura do Queer Lisboa) protagoniza uma das melhores cenas de “Uma Rapariga Imaterial”, através de uma dança bem ritmada e que termina com uma notória libertação de energia. Mais importante que tudo o resto, ao chegarmos ao final do filme, pouca vontade temos de regressar ao dia-à-dia quotidiano. Somos movidos pelo enredo, impelidos a escapar à categorização.

“Uma Rapariga Imaterial” é uma produção da Terratreme, previamente exibida no Festival Curtas Vila do Conde. No Queer Lisboa 26 foi o grande vencedor da Competição de Curtas Metragens, ao vencedor não só na categoria de Melhor Filme como levando também o Prémio do Público.

YON DE BÁRBARA LAGO (ARGENTINA, 2021, 8′)

queer barbara lago argentina yon

Ao encontrar o material em vídeo da sua infância, a realizadora reprograma a mitologia à volta desse mesmo período, e reflete sobre o seu corpo atravessado por afetos, ficções, e pelos anos.

“Yon”, uma primeira obra que se faz sentir como tal, é um filme-arquivo, um documentário experimental que opera uma viagem pela memória. É uma obra curta e que deixa pouca recordação em que a vê. Em grande parte, é um registo fílmico que interessa muito mais à realizadora e à sua intimidade do que propriamente ao grande público. Esta reflexão acerca de corpos dissentes e descoberta da sexualidade nunca ultrapassa a sua superficialidade como registo doméstico. Além disso, a sua enorme subjetividade levada ao limite não nos permite estabelecer padrões claros e partilhar da experiência do sujeito fílmico – elevando-a uma que possamos reivindicar como coletiva.

UMA PACIÊNCIA SELVAGEM ME TROUXE ATÉ AQUI DE ÉRICA SARMET (BRASIL, 2021, 26′) 

Competição Curtas 3 Queer 26
©Queer Lisboa

A segunda obra mais longa desta Competição de Curtas 3, “Uma Paciência Selvagem Me Trouxe até Aqui”, vinda diretamente do Brasil, que já passou por Sundance, pelo Outfest ou pelo BFI Flare, transmite-nos a história de ficcional de Vange, uma lésbica de meia-idade que, assolada pela solidão, decide ir a uma festa lésbica numa discoteca depois de ver um casal poliamoroso a passar por si.

Embora a trama se inicie com alguma plasticidade e de forma algo forçada, o filme de Érica Sarmet rapidamente se torna numa reflexão muito interessante acerca de envelhecimento, companheirismo e libertação sexual. Como outro trunfo, identifica-se a sua capacidade de misturar ficção com características de filmagem mais próximas do registo documental, criando uma curta interessante e provocadora.

História esperançosa, “Uma Paciência Selvagem Me Trouxe até Aqui” mostra como nunca é tarde de mais para aproveitar a vida e para reforçar o espírito de comunidade. Apesar da falta de uma estruturação clara, a curta-metragem tem muito valor adquirido através do estabelecimento da relação entre Vange e as raparigas jovens. Por outro lado, outra benesse é a forma como filma o sexo entre mulheres de forma cuidada, luxuriosa, mas nunca gratuita.

MARS EXALTÉ DE JEAN-SÉBASTIEN CHAUVIN (FRANÇA, 2022, 18′)

Queer Mars Exalte

Um homem adormecido sonha com uma cidade ao entardecer. Ou será a cidade que sonha com ele?

Do ponto de vista artístico, esta curta experimental sem diálogos é um projeto bastante bem sucedido. Um homem está a dormir e, enquanto o faz, a urbe vai prosseguindo com o seu movimento, as luzes dos candeeiros de pé iluminam as ruas à medida que o dia dá lugar à noite e o nosso protagonista parece suspenso entre realidades – está acordado mas quase a dormir, acompanha o dia à medida que chega a noite, faz parte da vida na cidade mas surge quase como que exilado no seu quarto.

A intimidade, o corpo, o desejo e o prazer masculino são filmados de forma exímia, à medida que o luar embeleza a pele suada do sujeito filmado. O nosso protagonista ou “sonhador” é belo, febril, nu no sentido literal e metafórico. Vemo-nos embalados pela sua expressão corporal. Apenas desejávamos que esta experiência fosse um pouco mais curta, tendo em conta a ausência de diálogos e a natureza algo cíclica da sobreposição das imagens do seu corpo contra imagens da cidade.

DIHYA DE LUCIA MARTÍNEZ GARCIA (SUÍÇA, 2021, 10′)

Dihya revela o seu universo, os seus segredos, as suas histórias. Ela impera neste mundo desumanizado, como uma rainha, uma guerreira.

Este documentário muito curto, de apenas 10 minutos de duração, tem a capacidade de nos transmitir uma visão alargada do mundo e da vida interior da protagonista escolhida – uma jovem trans chamada Dihya. A conversa que encena é aparentemente corriqueira, à primeira vista, mas na realidade repleta de várias questões pesadas (como por exemplo relacionadas com as dificuldades enfrentadas no mundo dos encontros românticos e das aplicações e bullying).

A obra foi premiada no Festival Internacional de Cinema de Locarno e chegou, em setembro de 2022, à Competição de Curtas do Queer Lisboa 26.

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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