Richard Savvy, o "barbeiro nu", no seu estúdio em Sydney © Broderick Fox 2022

Queer Lisboa ’22 | Manscaping, em análise

“Manscaping”, da autoria do norte-americano Broderick Fox, exibiu a 21 de setembro na 26ª edição do Queer Lisboa na secção panorama. A obra reinventa o conceito tradicional de masculinidade a partir da reconversão de um lugar por norma habitado por fronteiras demarcadamente heteronormativas – a barbearia. Fá-lo com um enorme cunho de sensibilidade e desenhando novos espaços seguros. 

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Em “Manscaping”, Broderick Fox monta um documentário bastante convencional do ponto de vista formal, caracterizado por uma estrutura tripartida, à medida que acompanhamos três sujeitos fílmicos em locais distintos – Estados Unidos, Austrália e Canadá. Todavia, a não inventividade do seu olhar é sobejamente compensada pela apresentação de um ponto de vista bastante singular e pela presença de cores deslumbrantes que nos permitem sonhar com outras formas de visibilidade.

Broderick Fox
The Barbershop Project: instalação de arte e barbearia funcional © Broderick Fox 2022

As linhas narrativas centrais da longa-metragem documental “Manscaping” enquadram-se, de forma perfeita, no tipo de espírito que um festival como o Queer Lisboa apregoa. A criação de novos espaços de visibilidade, de novas formas de ver e, acima de tudo, de espaços que sejam seguros para todas as pessoas LGBTIQA+. Se há algo que este filme consegue alcançar, com grande sucesso e em apenas 62 minutos, é a representação de várias formas distintas de projetar a relação com os corpos e com a masculinidade, tanto por meio da arte, como da pedagogia e até da pornografia.

Os três focos centrais do filme, três homens queer que refletiram e recriaram o conceito tradicional de barbearia, são as figuras basilares e os heróis deste filme. As suas abordagens, distintas em intenções e motivações, tornam a profundidade deste estudo mais notória. Quiçá o maior e mais significativo trunfo do filme seja mesmo os sujeitos que conseguiu encontrar.

No início, é-nos desde logo apresentado o artista visual negro norte-americano Devan Shimoyama. Os seus quadros são belíssimos e, a partir do trauma que sempre sentiu no barbeiro – quer por ser negro e ser habitual ser-lhe recusado serviço por barbeiros desconhecedores de “cabelos com texturas” , ou por ser queer e recear ser mal tratado por estes espaços onde a masculinidade tóxica ainda perdura – criou arte que reproduz a textura do cabelo de formas criativas. A sua jornada leva-nos através do processo criativo, até à apresentação em galeria, passando até por um projeto inventivo de barbearia junto de uma comunidade afro-americana.

 

A arte queer, negra e extremamente pessoal de Devan percorre todo o filme e confere-lhe um apontamento de cor e vibrante deslumbramento que de outra forma não seria proporcionado pelo aparato cinematográfico. A sua série de quadros repletos de texturas distintas para representar cabelo, atravessados também pela estética drag, não se limitam a sonhar com a criação de um espaço mais inclusivo. São também a porta para que possa reapropriar o discurso de exclusão com o qual tanto se debateu.

Viajamos também até ao Canadá e por lá conhecemos Jessie Anderson, um barbeiro transgénero que luta pela afirmação de um espaço seguro para pares. Proprietário do Big Bro’s Barbershop, Jessie representa um porto seguro para clientes trans, queer e com identidades não normativas. No espaço de Jessie ouvimos os relatos emotivos de inúmeras pessoas que, visitando este espaço, conseguem o corte que desejam sem ser misgendered (confundidas com um género que não corresponde à sua identidade) e/ou empurradas brutalmente de volta para o armário.

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Jessie Anderson na sua loja de Vancouver © Broderick Fox 2022

Dos produtos que vende à sua estrutura de negócio, Jessie é uma pessoa paciente e calma que nos mostra muito daquele que é o processo de transição e as várias exigências que este comporta. Como lufada de ar fresco, a sua é uma história de sucesso sem qualquer tragédia à mistura. É, pura e simplesmente, a narrativa pessoal de alguém que lutou contra o preconceito e as barreiras, conseguindo criar um projeto próprio com imenso valor comunitário. Este sentimento integro e são atravessa todo o filme.

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E assim chegamos à terceira história pessoal de “Manscaping”, muito possivelmente aquela que maior prazer e diversão transmitiu a quem viu o filme. O australiano Richard Savy, fetichista e ator porno, o “barbeiro nu” da Austrália, é especialista em técnicas de grooming  – tratamento – masculino (cabelo, barba, bigode e especialmente zona púbica). Richard apresenta-se, desde o primeiro instante, como uma pessoa verdadeiramente fascinante e  capaz de servir como objeto para uma longa-metragem dedicada apenas à sua figura.

Livre, sem quaisquer inibições, de forma aparente “feliz” (seja isso o que for), Richard despede-se quando recebe os seus clientes e com a roupa vão-se também todas as vergonhas e o sentimento de auto-censura. Ouvi-lo falar deixa qualquer pessoa mais confiante ‘por osmose’, e são muito valiosas as lições que tem a transmitir acerca de expressão sexual, libertação e amor próprio.

O discurso de Richard, tal como o discurso de Jessie ou de Devon, contribuem para um tapeçaria rica, composta por formas de pensar que apresentam alternativas a uma toxicidade masculina trágica, perigosa e repleta de fragilidades herdadas. Em “Manscaping” constrói-se uma discussão muito rica, onde se tocam em temáticas que vão de raça a identidade de género, passando por estratos sócio-económicos ou expressão da sexualidade.

De formas distintas, estes são três ativistas que contribuem, diariamente, para que o mundo seja menos intolerante e limitativo. A liberdade pessoal e inclusão transpiram ao final de apenas uma hora desta fita livre de pretensão (mas muito eficaz).

TRAILER | MANSCAPING, QUE JÁ PASSOU PELO BFI FLARE E PELO OUTFEST, CHEGOU AO QUEER LISBOA

Manscaping, em análise
Poster Manscaping

Movie title: Manscaping

Movie description: O artista visual negro norte-americano Devan Shimoyama, o barbeiro/produtor de pornografia fetichista australiano Richard Savvy, e o barbeiro canadiano transgénero Jessie Anderson, são três homens queer que reinventam a barbearia tradicional e dessa forma reestilizam a masculinidade.

Date published: 26 de September de 2022

Country: EUA, Austrália, Canadá

Duration: 62'

Director(s): Broderick Fox

Actor(s): Jessie Anderson, Richard Savvy, Devan Shimoyama

Genre: Documentário

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  • Maggie Silva - 75
75

CONCLUSÃO

“Manscaping” reinventa o conceito tradicional de masculinidade a partir da reconversão de um local por norma habitado por fronteiras demarcadamente heteronormativas – a barbearia. Fá-lo com um enorme cunho de sensibilidade e desenhando novos espaços seguros.

Pros

  • As tonalidades luminosas do filme, presentes devido à incorporação do universo artístico de Devan Shimoyama (e com o bónus da inclusão de um cartão de abertura com um tipo de letra fora da norma);
  • As três figuras centrais que protagonizam a obra, com particular destaque para o disruptivo e inacreditavelmente único Richard Savy;
  • A originalidade do ponto de vista.

Cons

  • A linearidade pouco empolgante que se traduz num filme documental que oscila, sem arriscar muito, entre o ponto de vista de três sujeitos;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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