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Ciclo Satyajit Ray | O Herói (Nayak)

A Leopardo Filme continua a celebração do talento e carreira de Satyajit Ray com a exibição de “O Herói”, uma obra protagonizada por Uttam Kumar e Sharmila Tagore.

HERÓI DE SOMBRAS E LUZ

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Mais uma reposição em sala de uma obra maior do cinema mundial e mais um filme com realização, argumento e música de um mestre da sétima arte, o cineasta e autor Satyajit Ray. Desta vez estamos a falar de NAYAK (O HERÓI), 1966, integrado no Ciclo que a MEDEIA FILMES e a LEOPARDO FILMES programaram e que nos permite recordar ou descobrir, com o concurso de cópias digitais restauradas de impecável qualidade, um conjunto de longas-metragens que não pode deixar de fazer parte do percurso dos que realmente gostam de cinema. Estes são os filmes que nos alimentam a alma cinéfila, e não só.

Mas vamos ao que nos ocupa o espírito de momento. No início dos anos cinquenta, Jean Renoir viajou para a Índia e para Calcutá, onde realizou uma das suas obras-primas, THE RIVER (O RIO SAGRADO), 1951. Integrado na equipa, mesmo que nunca creditado no genérico, Satyajit Ray aproveitou bem a sua espécie de estágio cinematográfico para aprender, e sobretudo absorver, os predicados e os ensinamentos das lições dadas pelo realizador francês. Deste modo aproveitou para olhar de perto a perfeita relação do guião e da planificação no resultado final, particularmente  no domínio da imagem, da autoria do grande Director de Fotografia Claude Renoir.  Mas soube ouvir igualmente as palavras do autor de LA RÉGLE DU JEU (A REGRA DO JOGO), 1939, quando ele se referiu ao futuro do cinema indiano e da vertente bengali, a que Satyajit Ray pertencia. Disse então Jean Renoir: “Por aqui só conseguirão fazer grandes filmes quando libertarem o vosso sistema do sistema de produção de Hollywood”. De facto, os primeiros filmes do realizador indiano caminharam mais no sentido do que se estava a passar na Europa, mas sublinhando os aspectos latentes na especificidade geográfica e linguística que davam ao cinema de autor em Bengala um estatuto especial, opção justamente reconhecida e premiada nos grandes festivais de cinema do Velho Continente. Nessa época, o neo-realismo italiano surgia como um modelo mais apetecível para as cinematografias do chamado Terceiro Mundo, por reflectirem com mais acuidade e frequência algumas preocupações sociais comuns que, não sendo alheias ao referido sistema de Hollywood, não eram efectivamente o prato forte da maioria da produção industrial americana. Só que, do outro lado do Atlântico, a concorrência destas novas propostas polarizadoras da atenção de muitos segmentos do público, sobretudo após os dias de chumbo da Segunda Guerra Mundial, obrigou os estúdios de Hollywood, majors ou independentes, a procurar uma nova matriz de produção no campo da ficção e do documentário, facto que acabou por influenciar o resto da produção internacional que se desenvolvia num contexto de crescente domínio da distribuição definida pelas estratégias económicas da produção concentrada na Califórnia, mas com mais força ainda a partir dos financeiros instalados em Wall Street. Estou aqui a referir factos passados para avançar para a crítica presente a um filme onde é visível, como noutros de Satyajit Ray, a óbvia influência dos referentes americanos. Em especial no domínio da Fotografia e, no caso de O HERÓI, na abordagem consciente de matérias como a viagem, as longas distâncias percorridas entre um ponto A e um ponto B, não o habitual road-movie mas sim um railroad-movie. Em O HERÓI, muito do filme desenrola-se no interior de um comboio, relatando o percurso de um actor da primeira linha do cinema bengali, Arindam Mukherjee (magnífica interpretação de Uttam Kumar), que nele embarca para ir receber a Nova Deli um prémio de interpretação. Desde os primeiros minutos sabemos que este homem não parece estar bem com a sua consciência. Ele, que sempre foi convidado, ainda no Teatro e depois no Cinema, para o papel de herói, apresenta-se neste filme e perante os espectadores como um ser frágil e inseguro, mas aparentando confiança nas suas rotinas e amigo de pequenos prazeres, ditos “ocidentais”, como o whisky que bebe em quantidades generosas. Na verdade, encontra-se numa encruzilhada, hesitante, com dúvidas quanto ao seu destino profissional, receoso de um fiasco comercial, ou seja, um insucesso de bilheteira que o faça recuar aos dias em que era um simples mortal e não um deus concebido como uma personagem maior do que a vida. No fundo, ele sabe, como muitos artistas de sucesso sabem, que os heróis no grande ecrã não são nada mais do que sombras e luz projectadas na tela. Não passam de personagens virtuais, inventadas pelo marketing, numa superfície branca onde os nossos e os sonhos dos outros se “materializam” por alguns minutos, algumas horas.

O Herói
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No comboio e durante a viagem o actor irá encontrar diversas personagens, algumas das quais não se intimidam pela fama do galã e protagonista de grandes êxitos, nomeadamente melodramas muito populares na globalidade da União Indiana e que não diferem muito das produções rivais de Bombaim e Madras, acabando, aqui e além, por lhe dar a réplica que ele porventura não esperava. Mesmo sabendo que Arindam costuma ser adulado por inúmeras pessoas que constantemente lhe pedem autógrafos, julgando-o assim mais ou menos inacessível no seu estatuto de estrela do grande ecrã, diversas figuras irão abordá-lo e, no caminho entre as cabines onde se instalam os passageiros e o muito visitado vagão restaurante, o actor irá cruzar-se com um homem de negócios, um senhor com mau feitio e provecta idade que detesta cinema e defende os valores mais reaccionários que se possam imaginar, um publicitário desesperado que procura assinar um contrato, seja a que preço for, mesmo que para isso convoque a forçada “simpatia” da mulher, que por sua vez quer ser actriz e não isco de “patos-bravos”. Há ainda um bom número de secundários, cada qual preenchendo de forma exemplar a sua função no desenvolvimento da narrativa. Entre outros, uma menina que, deitada na cama do compartimento, com febre, admira em silêncio o actor (e diz mais com os olhos e rosto sereno do que muitas personagens de diálogo fácil e escorreito), e um provável aldrabão de uma seita religiosa que nos faz recordar o Baba do filme imediatamente anterior de Satyajit Ray,  MAHAPURUSH (O SANTO), 1965.

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Mas uma personagem paira por cima de qualquer das outras, Aditi (perfeita composição da mulher moderna e misteriosa na sua beleza, com ou sem os óculos que lhe servem de máscara, defendida pela actriz Sharmila Tagore). Ela, que escreve num jornal dirigido ao público feminino, será ao longo da viagem a interlocutora privilegiada de Arindam, desde um primeiro encontro relativamente distante. Será ela que posteriormente irá receber as confissões mais sérias e mais angustiadas do actor, em sequências povoadas por episódios fulcrais do seu passado, onde Arindam denuncia o peso amargo de alguma má consciência que acaba por expiar no acto de revelação das suas falhas, nomeadamente as que envolvem as contradições junto de um activista político que acompanhou na juventude, mas não soube ou não quis apoiar anos depois receando perder o bem-estar material que lhe dava o estatuto de “star”, e ainda os episódios com um actor com quem iniciara a carreira e que, caído em desgraça, lhe pede ajuda em vão. Memórias que se misturam com o relato de sonhos (belíssima a visão surrealista em que o actor se vê perdido numa paisagem rarefeita, constituída apenas por montes de rupias que escondem o buraco onde acaba por cair, perante o olhar do seu antigo mentor artístico que o deixa resvalar pelo dinheiro abaixo). Nos frequentes e cada vez mais próximos encontros com a mulher que o interroga para um artigo da revista, o actor inicia um exercício de incómoda lucidez face ao que ele profetiza ser o seu futuro imediato. Mudar de rumo? Será que ele pode seguir em frente sem voltar ao mundo que já conheceu e onde, como Aditi diz, as pessoas andam a pé ou de autocarro, forma airosa de dizer, regressar ao sítio das coisas comuns, o quotidiano onde os simples mortais são em geral ignorados pelos heróis? Diga-se que, para reforçar esta ideia, na derradeira sequência e no plano final somos brindados com um exemplo maior, simples, directo e por isso mesmo eficaz, da complexa ambiguidade das relações humanas que nos permite separar o que resta de verdade num quadro de pura ilusão. Ela, a jornalista Aditi, desce da carruagem e caminha no cais da estação de Nova Deli até sair de campo, na altura em que a câmara aponta para uma multidão que cerca com entusiasmo Arindam, o actor de quem se fala. Ele, rodeado pela multidão no último plano do filme, já entrou de novo no firmamento das estrelas de cinema, mas olha para ela, a mulher de carne e osso que agora e fora de campo passou a ser mais uma sombra e uma luz na memória de um herói que, ao que tudo indica, seguirá em frente com a sua formidável carreira.

Notável a capacidade de Satyajit Ray nos dar a ver o invisível. Mais palavras para quê? Um filme obrigatório!

O Herói, em análise

Movie title: Nayak

Date published: 15 de September de 2022

Director(s): Satyajit Ray

Actor(s): Uttam Kumar, Sharmila Tagore, Bireswar Sen

Genre: Drama, 1966, 120min

  • João Garção Borges - 95
  • Cláudio Alves - 90
93

Conclusão:

PRÓS: Para além do que foi dito no artigo, destaque para o Prémio Reconhecimento Especial, recebido no Festival de Berlim de 1966. Nesse ano, o Urso de Ouro foi para CUL DE SAC (O BECO), de Roman Polansky, e o Prémio da Melhor Longa-Metragem para MASCULIN-FÉMININ (MASCULINO FEMININO), de Jean-Luc Godard, mais um génio desta arte, falecido esta semana e a quem dedico o presente artigo.

Excelente fotografia e excelentes enquadramentos que, apesar de serem concebidos no “conforto” e segurança de um estúdio de cinema, simulam na perfeição os espaços apertados e rarefeitos das carruagens. Facto que não passa somente por uma proeza estética, mas contamina de forma muito viva e positiva a nossa visão. Estamos mais próximos dos actores, habitualmente fotografados em planos médios e próximos, e assim a nossa cumplicidade vai sendo estabelecida por detrás de um objecto, de um corpo, de uma perspectiva, ao som ritmado de um comboio em movimento.

CONTRA: Nada.

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