Stop Making Sense, em análise

Stop Making Sense, a obra-prima documental de Jonathan Demme, voltou aos cinemas para deliciar audiências com os orgiásticos epítetos musicais dos Talking Heads.

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Jonathan Demme, que morreu em abril, é principalmente conhecido pela obra-prima de terror e crime que lhe valeu o Óscar de Melhor Realizador de 1991, O Silêncio dos Inocentes. Não obstante a qualidade desse filme, o projeto é uma relativa anomalia na filmografia do seu realizador. Durante mais de uma década antes do sucesso de O Silêncio dos Inocentes, Demme tinha feito a sua carreira principalmente na base da comédia, desenvolvendo um estilo suportado por caracterizações complexas e um grande humanismo. Para além disso, a outra grande faceta de Demme enquanto cineasta sempre foi a sua paixão por música.

Para qualquer pessoa que tenha visto O Casamento de Rachel ou Ricki e os Flash, essa paixão será bem óbvia, mas ainda mais marcantes que tais narrativas apimentadas por longas passagens musicais, são os documentários que Demme fez sobre bandas, concertos e artistas. O mais icónico, influente e espetacular de todos esses projetos é Stop Making Sense que está de volta aos cinemas portugueses. Esse filme, originalmente filmado em 1983 e estreado em 1984, retrata um concerto dos Talking Heads em Hollywood e tem vindo a ganhar, ao longo das últimas décadas, a justa reputação de ser possivelmente o melhor filme de concerto alguma vez feito.

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Tal grandiosidade pode não parecer muito óbvia quando a obra começa. Num palco despido, cruamente iluminado e com alguns andaimes grosseiramente dispostos no fundo, temos a figura solitária de David Byrne, que primeiro nos é introduzido pelos seus pés em ténis brancos e pelo humilde rádio que traz consigo. Não há nada de muito elaborado em termos imagéticos aqui, aliás até há uma relativa procura pelo minimalismo formal, e essa é uma abordagem mais ou menos transversal aos 88 minutos de Stop Making Sense. Esse, na verdade, é o enorme paradoxo do filme que, sem dúvida alguma, é uma experiência espetacular, mas que nunca parece estar a tentar ativamente sê-lo.

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Veja-se o modo como David Byrne canta o primeiro número do concerto, o sucesso dos Talking Heads “Psycho Killer”, sem nenhum tipo de preâmbulo introdutório ou uma contextualização espacial da audiência a anteceder ou acompanhar a performance. Para além de Byrne, no seu fato cinzento claro, apenas vislumbramos os movimentos de técnicos, vestidos de preto, a montarem os estrados onde futuramente os outros membros do grupo vão atuar. Os espetadores são quase sempre excluídos das composições e a fotografia de Jordan Cronenweth faz tudo em seu poder para os mergulhar na indefinição das sombras, deixando Byrne como o nosso único elemento de foco visual. Há aqui uma depuração intencional da parte de Demme, que foge a muitos dos clichés do concerto filmado e se foca, não tanto em capturar a experiência visceral ou pragmática do evento musical, mas sim em documentar a performance em cena. Não o concerto, a performance.

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E que performance! Para pessoas que não nutram muito afeto pela música dos Talking Heads ou pelo estilo performativo de David Byrne, Stop Making Sense pode ser uma curiosidade estética, mas, para fãs dos artistas em destaque, o filme é algo do outro mundo. Mesmo na encenação simples de “Psycho Killer”, Byrne parece quase possuído pela música que ele mesmo está a produzir no momento, usando movimentos diretamente inspirados numa coregrafia de Fred Astaire para nos dar variações inesperadas ao seu jogo corporal e começar a sugerir o tipo de fisicalidade idiossincrática que vai marcar o resto da sua presença em palco.

Em certas partes do filme, Byrne é como uma marioneta a desconjuntar-se à frente dos nossos olhos, noutras o seu corpo convulsa com cada batida da música, a sua cabeça baloiça como um animal orientado pelo instinto e, ocasionalmente, todo ele parece sair do nosso plano de existência e lógica, como quando dança com um candeeiro ao som de “This Must Be the Place” (outra possível referência a Astaire). O mais famoso momento de Byrne em Stop Making Sense é a sua aparição com um fato cinzento enorme que foi inspirado pelo teatro Noh e o que o ajuda a dar a ideia que o seu corpo e o movimento que este produz são algo alienígena e desconexo. No entanto, é a simplicidade titânica de “Once in a Lifetime”, quase filmado num só plano ininterrupto, que realmente merece ser considerado como um dos maiores momentos do cinema americano dos anos 80. É extremamente simples, mas sublime.

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Byrne, que concebeu toda a performance do concerto incluindo o design de luz, e Demme são as grandes personalidades em ação em Stop Making Sense, mas estão longe de ser os únicos responsáveis pelo seu sucesso e magnificência. Cada um dos artistas em palco é um elemento fulcral da experiência total do filme, mesmo Lynn Mabry e Ednah Holt a contribuírem backup vocals. Tina Weymouth, por exemplo, traz ao filme um necessário contraste à grotesca fisicalidade de Byrne. Ela é calorosa jovialidade, prazer simples, carne e suavidade em contraste com a histeria sublimada, aparência ossuda, músculos em tensão e insanidade do vocalista principal.

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Atenção que o filme nunca sublinha ou destaca essas dinâmicas, interações ou contrastes entre os membros, pois, tal como tudo neste edifício cinematográfico, isso é submisso aos ritmos fluidos da performance. Ritmos esses que são expostos como uma contínua intensidade energética, possibilitada tanto pela montagem magistral de Lisa Day, como pelo entendimento quase inato que Demme parece ter sobre os ritmos musicais dos Talking Heads e o modo como melhor os transpor para linguagem cinematográfica. Filmado em três noites (primeiro do lado esquerdo do palco, depois do lado direito, depois de frente), num palco cujos principais adereços são três ecrãs de projeção, com seis câmaras fixas, uma câmara ao ombro e uma Steadicam, e gravado com tecnologia digital então inédita na história do cinema, Stop Making Sense é um feito técnico do mais alto gabarito.

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A famosa crítica de cinema Pauline Kael, ao falar da estranheza de um filme tão superficialmente simples ser tão eletrizante, caracterizou a experiência como uma orgia austera e talvez essa expressão peculiar seja a melhor maneira de categorizar a magnum opus de Jonathan Demme. Se esta conflagração de ideias e explicações da sua grandeza não fizerem muito sentido lógico, é porque o filme transcende tais lógicas, seguindo as suas próprias regras e levando a peito a ideia patente no seu título maravilhosamente antirracional.

 

Stop Making Sense, em análise
stop making sense

Movie title: Stop Making Sense

Date published: 31 de August de 2017

Director(s): Jonathan Demme

Actor(s): David Byrne, Tina Weymouth , Chris Frantz , Jerry Harrison, Steve Scales, Lynn Mabry, Ednah Holt, Alex Weir , Bernie Worrell

Genre: Documentário, Música, 1984, 88 min

  • Claudio Alves - 95
  • Rui Ribeiro - 95
95

CONCLUSÃO

Ao filmar o espetáculo com clara paixão e ao conter a performance dos Talking Heads na escuridão hermética de um palco descontextualizado do mundo à sua volta, Jonathan Demme construiu em Stop Making Sense, aquele que é talvez o melhor filme concerto de sempre.

O MELHOR: A presença impossível de categorizar de David Byrne e o modo como Demme conseguiu documentar a sua presença em palco.

O PIOR: O facto de o filme, tal como qualquer experiência cinematográfica, ter um tempo limitado e eventualmente terminar, privando os espetadores dos seus prazeres.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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