©Taylor Swift/ AMC Theatres

Taylor Swift: The Eras Tour, a Crítica | Uma catarse colectiva na forma de filme-concerto

A The Eras Tour afirma-se já como uma das mais bem-sucedidas digressões deste ano e, uma vez concluída, lá para o final de 2024, poderá obter valores de faturação que a elevem à lista das mais lucrativas de sempre. Num gesto ousado e comercialmente ambicioso, Taylor Swift e a sua equipa decidiram lançar, logo depois da primeira parte da digressão americana, o filme-concerto “Taylor Swift: The Eras Tour”, uma celebração de pop colossal. Deixamos as nossas impressões!

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Depois de anunciar a sua existência com um gesto de desafio perante a estrutura habitual de distribuição à escala norte-americana e internacional, fazendo um acordo direto com as salas AMC e a sua rede, e saltando a intermediação dos estúdios, Taylor Swift e a sua máquina lançaram a 13 de outubro de 2023, e à escala global (em 100 países e 8.500 salas, de acordo com a NPR) o filme “Taylor Swift: The Eras Tour”.

No passado, Taylor havia lançado outras gravações das suas digressões, como é aliás habitual para artistas de renome do mundo da Pop ao Rock . “Taylor Swift: Reputation Stadium Tour” é um especial aclamado e energético, disponível na Netflix; “Taylor Swift: The 1989 World Tour Live”, que podemos encontrar no Youtube em 4K é uma celebração megalómana do álbum que a cimentou como uma grande mega-estrela pop e até as suas sessões intimistas de estúdio podem ser encontradas na Disney+ com “Folklore: The Long Pond Studio Sessions”.

Taylor Swift
© Disney+

Todavia, há algo de muito especial em “Taylor Swift: The Eras Tour”. Este filme concerto foi gravado em Los Angeles, em agosto de 2023,  filmado pela mão de Sam Wrench, que já havia feito um excelente trabalho com “Billie Eilish Live at the O2” (que também estreou nas salas). Tal gravação musical, para além de ter estreado em sala extraordinariamente rápido (pouco mais de dois meses depois de acontecer), soube capitalizar ao máximo o furor que a tour tem provocado na economia norte-americana em 2023 (hoje mesmo, 14 de outubro, o The Washington Post reportava que se estima que Taylor fature 4.1 mil milhões de dólares com esta tour e que, finalizada a digressão, esta terá gerado 5.7 mil milhões para a economia dos Estados Unidos da América, tudo isto em custos indiretos como voos, alojamentos, comida e merchandise comprado pelos “Swifties”).




Com mais de 100 milhões de ouvintes por mês, Taylor Swift tornou-se a mulher mais ouvida de sempre no Spotify. Tal coincidiu com o laborioso encargo de reedição dos seus álbuns antigos e também com o lançamento do seu novo álbum “Midnights”, neste momento um dos favoritos aos Prémios Grammy (de acordo com a casa de apostas Gold Derby). Basta considerarmos o impacto cultural que o disco teve (com “Midnights”, Swift empatou com Barbra Streisand como a artista feminina com mais números 1 na Billboard 200 e contabilizou 70 outros recordes).

Taylor Swift: The Eras Tour Poster
Fonte: NOS Audiovisuais/ ©Taylor Swift/AMC

Portanto, o filme “Taylor Swift: The Eras Tour” chegou num momento particularmente oportuno, onde a sobre-exposição desta estrela pop se encontra associada a valores maioritariamente positivos por parte do grande público. Longe estão os dias do #taylorswiftpartyisover. Com a “The Eras Tour”, como anunciado no trailer do filme, Taylor e companhia planearam um concerto transversal, uma celebração espectacular dos seus 17 anos de carreira (muito para uma estrela pop, pouco para tantos recordes sucessivos).

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Certos peritos musicais continuam a desacreditar Swift como uma cantora que apenas tem alguns truques na manga, e com uma estrutura de acordes algo simples e pouco ambiciosa. Esquecem-se estes que a música pop nunca foi feita para ser difícil de consumir, mas antes para proporcionar experiências coletivas valorosas. É isso que aqui temos.

EVermore
Acrescentar cartões identificadores entre eras foi uma das principais marcas de estilo da realização |©Taylor Swift/AMC Theatres

Ao longo da sua carreira, Taylor Swift já criou música country, pop, pop alternativa, pop com influências mais rock, pop com influências mais indie, e até os seus aclamados discos pop/folk (“Folklore” e “Evermore”, que ora encantam quem não é fã do género pop com a sua complexidade acrescida, ora arriscam alienar um pouco fãs de pop “pura e dura” devido às suas composições mais invulgares e letras poéticas e mais extensas (muito devido à colaboração com Aaron Dessner, dos “The National“, que despoletou algo novo na artista pop consagrada).

A “The Eras Tour”, que passará por Portugal para duas datas, a 24 e 25 de maio de 2024, é um testemunho desta constante evolução de Taylor Swift, numa retrospectiva de carreira composta por uma lista de canções muito mais extensa do que poderíamos esperar num espectáculo pop. Este filme concerto conta com 168 minutos de duração (perto de 3 horas) e corta, ainda assim, do alinhamento, 5 canções e tudo o que compreende as transições entre músicas e grande parte da conversa da cantora.




Como versão resumida do concerto, “Taylor Swift: The Eras Tour” resulta estrondosamente bem, ao condensar um espectáculo longo, nunca o tornando excessivamente arrastado (claro, poderá sê-lo para quem não esteja familiar com a discografia muito extensa de Swift, composta por mais de duas centenas de canções, mas a pirotecnia e trabalho de luzes poderão ser suficientes para manter a atenção).

E se Taylor Swift já dançou com vários géneros, a The Eras Tour é inequivocamente uma megalómana apresentação pop. As “eras” da música de Taylor são divididas de forma clara, com estéticas individualizadas e bem cuidadas impossíveis de ignorar. De acordo com o Priberam, uma era pode ser definida como um “período de tempo com características específicas”.

Neste concerto e na sua gravação, a noção de eras está bem presente e a especificidade é notável. Cada álbum tem direito ao seu conceito, com visuais que evocam letras, videoclipes e a iconografia de Swift, também ela muito extensa e auto-referencial. Como um mito que se auto-alimenta.

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Espectáculo cronometrado ao momento,  a The Eras Tour tem um palco longuíssimo, caracterizado por uma passadeira de dimensões gigantescas, com a forma de um “diamante” no centro e uma plataforma que se ergue e ilumina no centro desse losango, capaz de suportar na sua estrutura não só a cantora, que sobe e desce escadas enquanto canta, mas onde encontramos também ocasionalmente a sua banda e as suas cantoras de apoio.

Taylor Swift: The Eras Tour Film (2023)
Swift no centro do seu “diamante” |©Taylor Swift/ AMC Theaters

Este concerto e o seu filme musical são uma festa de estímulos em catadupa. O jogo de luzes do concerto é fenomenal, e por isso naturalmente o realizador e a equipa optaram por gravar esta obra num dos fusos horários em que o alinhamento começou já de noite. Para além disso há pirotecnia, coreografia, endereços sem fim, mudanças de guarda-roupa constantes e imprevisíveis e tudo o mais que se pode esperar num mega espectáculo pop.




Aqui, é fácil simpatizar com a energia do animal de palco que é filmado. Taylor Swift nunca se leva demasiado a sério, e mesmo enquanto respeita este nível de detalhe e coreografia ao segundo, nunca deixa de se divertir, de rir por entre a sua cantoria, de brincar com as suas outras vocalistas em palco (as quais complementam a sua voz sem a abafar, com impecável equalização) ou com os seus dançarinos e dançarinas. A energia que emana do palco é contagiante, vibrante e ecoa pelas bancadas de um estádio que parece prolongar-se até aos céus.

Não sendo uma vocalista excecionalmente dotada, algo fácil de reconhecer (a sua capacidade vocal ronda, de acordo com especialistas, três oitavas, e é tida por alguns como uma Mezzo-Soprano e por outros como uma Soprano leve), Taylor Swift prima por um constante trabalho de aperfeiçoamento da sua técnica, que tem vindo a melhorar ao longo das várias digressões da sua carreira.

Eras 2023
©Taylor Swift/AMC

Para além de a encontrarmos no pico da sua popularidade em “Taylor Swift: The Eras Tour” (uma inequívoca retrospectiva) , também a encontramos mais focada e treinada do que nunca. Aqui assistimos a um concerto que, na vida real, a vê em palco durante mais de 3 horas, com poucas interrupções (muito mais do que o comum no mundo da pop), e onde mantém a afinação durante grande parte do tempo. Pelo meio, há algum belting (técnica utilizada para dar ênfase aos agudos, vinda da tradição do teatro musical) e até uma ou outra alteração de tom em relação à gravação original.

Por exemplo, durante a parte do concerto dedicada ao álbum “Evermore”, Taylor entoa apenas a bridge (ponte, clímax da música) de “Illicit Affairs”, de forma emotiva e teatral, cantando num registo acima do presente no disco, tornando esta apresentação tão mais catártica dessa forma. E embora a Eras seja uma celebração de pura energia pop tão ruidosa e diversa visualmente que se torna capaz de deixar as nossas mentes atordoadas, também tem os seus momentos mais íntimos, que tornam uma grande arena num concerto privado (e que nos dizem que, um dia que tudo isto desapareça, adoraríamos vê-la numa pequena sala).

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Taylor dedica “Marjorie” (“Evermore”) à sua avô já falecida, uma cantora de ópera; encena uma mini-peça de teatro durante o set de “Evermore” com “Tolerate It”, deixa toda a arena californiana em lágrimas com a sua famosa versão de 10 minutos da música “All Too Well” e ainda encantada no curto set acústico, o qual apresenta duas músicas diferentes por concerto ao longo da digressão, e que neste filme nos mostrou as apresentações de “Our Song” (a única música presente do primeiro álbum country de Taylor) e ainda “You’re on Your Own, Kid (” Midnights”), uma canção que Taylor entoa com grande fragilidade intencional na voz e com uma entrega sentida (enriquecida também pela performance ao piano).

 Speak Now
©Taylor Swift/ AMC Theaters

Ambição pop desmedida à parte, o concerto de Taylor Swift, tal como a sua discografia, tem uma força que a guia: a sua estrutura narrativa, as histórias que conta, sejam as dela, as dos seus fãs (como em “Long Live”, de “Speak Now”, que ficou aqui para os créditos), ou as que inventou durante o confinamento (“Folklore”). As suas letras, sempre o seu valor mais constante e as suas pontes contagiosas, são as grandes estrelas deste espectáculo visual curado com mestria.

Na “Lover Era” sentimo-lo com “Cruel Summer”, uma das canções deste verão não obstante o facto de ter sido originalmente lançada em 2019; na “Fearless Era” sentimo-lo com ‘You Belong With Me’ e ‘Love Story’, músicas que já eram enormes sucessos antes da edificação do mito de Taylor Swift; na porção dedicada ao álbum “Reputation” sentimo-lo do início ao fim devido ao encarnar da personagem da “mulher louca e vingativa”, uma persona à qual Taylor volta uma e outra vez, entre referências literárias e alusões à sua própria vida mergulhadas em sarcasmo; sentimo-lo quando a arena entoa “Enchanted” (“Speak Now”) e sente a aura de magia e deslumbramento, ou ainda quando ouvimos a irónica “Blank Space”, uma resposta ao escrutínio da sua vida amorosa ,que nunca deixa de resultar ao vivo.




Por fim, fechamos com 7 músicas do último disco, neste filme-concerto longo, mas sempre bem demarcado musical e esteticamente. No final, levamos fortes impressões : as transições de era para era, a beleza da casa do “Folklore”, a mesa de jantar de “Evermore”, o musgo que cobriu o palco, a neblina lilás que nos envolveu em “Lavender Haze” ou o encantador piano do momento acústico do espectáculo.

1989 taylor's version
O palco aparatoso da The Eras Tour | ©Taylor Swift/ AMC Theaters

Sam Wrench tem alguns truques interessantes na manga,  nomeadamente alguns contra-picados mais ou menos fechados, filmados a partir do fosso, colocando-nos no ponto de vista do espectador e garantindo algo fulcral: quem já viu ou vai ver a digressão ao vivo nada perde com este filme. Antes, apenas ganha. “Taylor Swift: The Eras Tour” é uma visão privilegiada, de primeira fila, que nos permite ver todo o artefacto que compõe uma das mais ambiciosas digressões pop de todo o sempre.

No cinema, fica a memória dos gritos e palmas educadas após o final de cada música, onde o som de fãs no estádio se funde com o som de fãs no cinema, fica a troca de pulseiras da amizade, ficam as danças de jovens no espaço entre o ecrã e as primeiras cadeiras. Fica a catarse coletiva perante a chuva de êxitos. Não é mesmo este o efeito pretendido da música pop(ular)?

“Taylor Swift: The Eras Tour” está em sala desde 13 de outubro nos Cinemas UCI, NOS e Cinema City de norte a sul do país (com sessões previstas até ao dia 5 de novembro de 2023).

TRAILER | TAYLOR SWIFT: THE ERAS TOUR NOS CINEMAS UCI, NOS E CINEMACITY

Taylor Swift: The Eras Tour, em análise
Taylor Swift: The Eras Tour Poster disney+ disney plus filme concerto streaming

Movie title: Taylor Swift: The Eras Tour

Movie description: O fenómeno cultural continua no grande ecrã! Mergulhe numa experiência única e irrepetível com este filme-concerto, que oferece uma visão cinematográfica de tirar o fôlego desta digressão histórica da artista. O uso de vestuário e pulseiras da Taylor Swift Eras é altamente recomendado!

Date published: 14 de October de 2023

Country: EUA

Duration: 168'

Author: Taylor Swift

Director(s): Sam Wrench

Actor(s): Taylor Swift

Genre: Musical

[ More ]

  • Maggie Silva - 90
90

CONCLUSÃO

Sam Wrench tem alguns truques interessantes na manga, colocando-nos no ponto de vista do espectador e garantindo algo fulcral: quem já viu ou vai ver a digressão ao vivo nada perde com este filme. Antes, apenas ganha. “Taylor Swift: The Eras Tour” é uma visão privilegiada, de primeira fila, que nos permite ver todo o artefacto que compõe uma das mais ambiciosas digressões pop de todo o sempre.

Pros

Com eficácia notória, Sam Wrench mostra Taylor Swift de todos os ângulos e coloca o espectador na perspectiva de um membro da audiência da “The Eras Tour”, uma digressão ambiciosa e que monta um mega-espectáculo pop com visuais que merecem ser enaltecidos através da câmara de cinema.

Esta versão filmada da “The Eras Tour”, com toda a sua teatralidade, recorda-nos uma experiência de teatro musical, especialmente em momentos como “Tolerate It” ou “Willow”, onde Taylor brinca com adereços e encarna personagens. Ver o nível de detalhe, ao pormenor, é ver este espectáculo com novos olhos. Cada vestido brilhante, cada telhado de musgo, cada adereço pormenorizado.

Cons

Para fãs, o corte de parte do alinhamento é uma decisão que levanta curiosidade. Será o filme vendido ao streaming como um extended cut que aumenta o interesse dos potenciais compradores? Ou será que os elementos aqui removidos, no interesse de resumir um espectáculo muito longo, condensado ao máximo, nunca serão revelados?

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