Elisabeth Moss em "The Handmaid's Tale" | ©NOS Audiovisuais

The Handmaid’s Tale T4, primeiras impressões

“The Handmaid’s Tale” está de regresso para a sua quarta temporada, à medida que uma sempre exasperante República de Gilead assombra aqueles que nela se viram imersos. Para June, uma nova página parece surgir ao virar da esquina.

A progressão narrativa é iminente, contrariando o ritmo vagaroso de capítulos anteriores, nesta que será uma temporada mais curta que as suas antecessoras. 

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“The Handmaid’s Tale” regressou à plataforma original Hulu a 28 de abril de 2021 com uma grande surpresa, 3 episódios da temporada quatro foram lançados de uma assentada. Deixamos as nossas impressões acerca dos quatro capítulos já emitidos (num total de 10), todos eles disponíveis em Portugal, sempre no dia seguinte à estreia nos Estados Unidos, às quintas-feiras, mediante subscrição da NOS Play (exclusivo nacional).

Foram quase dois anos de ausência, motivada, sem surpresa, pelos constrangimentos impostos pela crise pandémica. Os eventos de “May Day”, o último episódio emitido no verão de 2019, deixaram-nos com um cliffhanger empolgante. June (Elisabeth Moss) conseguiu atingir novos voos, através de um plano concertado com múltiplas Marthas e Handmaids que permitiu libertar 86 crianças reinvindicadas por Gilead, agora seguras no Canadá.

Uma vez mais, June decidiu ficar para trás com o intuito de não abandonar o outroura território dos Estados Unidos da América até resgatar a sua filha Hannah. Depois de este ato de coragem, as consequências da punição por parte do estado autoritário antevêem-se penosas para todas as envolvidas. Mais um ciclo vicioso de fuga e captura, fuga e captura, ou um ponto de viragem?

O restante conteúdo do artigo contém breves SPOILERS acerca da narrativa dos episódios analisados.

UM PRELÚDIO: ESTARÁ O ABISMO PRÓXIMO? 

The Handmaid's Tale T4
Elisabeth Moss regressa a um dos seus mais icónicos papéis | ©2021 MGM Television Entertainment Inc

 

A tríade de capítulos iniciais lançados em conjunto atestam uma progressão ritmada nesta T4. Os dois primeiros episódios, “Pigs” e “Nighshade”, preparam-nos para uma cisão face ao mundo em que June se move e antecipam um impiedoso acerto de contas.

Com as Handmaids escondidas numa quinta local, auxiliadas por uma demasiado jovem esposa (interpretada por uma muito competente e magnetizante McKenna Grace), a nossa heroína começa a tomar decisões que denunciam a sua raiva crescente. Apesar de o seu instinto maternal continuar a ser a sua força locomotiva, o rancor e profunda revolta começam cada vez mais a encaminhar June Osborne para o lado mais ambíguo da moralidade.

Não poderia deixar de ser assim quando a narrativa avançou também ela anos, transportando as protagonistas num estado de permanente subjugação física e psicológica. A sanidade de June dançou na corda bamba e todos os seus esforços são cada vez mais movidos pela profunda necessidade de retribuição.

A FRONTEIRA CANADIANA E GILEAD COMO UM ESTADO DE CONSCIÊNCIA

Alexis Bledel em The Handmaid's Tale
Alexis Bledel, vencedora de um Emmy pela sua interpretação como Ofglen/ Emily, regressa na quarta temporada |©2021 MGM Television Entertainment Inc

 

Enquanto as Handmaids passam por uma fase de relativa calmaria no seu “oásis” temporário, é no Canadá que observamos interações mais valorosas. A estranheza impregna o ar e uma palpável desorientação desola aqueles que conseguiram eludir Gilead, mas que ainda a têm perto do seu corpo e psique. Rita (Amanda Brugel) é o exemplo máximo de uma certa dissociação cognitiva associada ao trauma. A antiga Martha escapou de uma Gilead física e transporta ainda a sua repressão. Em grande parte, a sua servidão é um hábito difícil de quebrar, a sua simpatia para com Serena (Yvonne Strahovski) roça quiçá manifestações de Síndrome de Estocolmo.

Moira (Samira Wiley), Luke (O-T Fagbenle) e Emily (Alexis Bledel), os mais próximos de June, aguilhoados pela persistência da Serva em assumir-se como símbolo, imobilizados ficam na sua vã tentativa de esquecer os horrores e ultrapassá-los. Já as crianças recém-chegadas ao Canadá, esse país com relações cada vez mais tensas com Gilead, nada recordam senão a sua existência invulgar. São peixes fora-de-água e a ausência de June como sua defensora na chegada ao novo país é também problemática. Transformaram-se as crianças roubadas em filhas e filhos desta Teocracia distópica?

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A escuridão de “The Handmaid’s Tale” chega assim a novas dimensões à medida que Gilead começa a parecer inescapável, parte da pele de cada uma das suas personagens, onde quer que estas estejam. Ela é, ao fim de contas, muito mais do que apenas um estado autoritário, é a soma de movimentos sócio-políticos fundados na realidade. A escravatura sexual é real, a perigosa apologia dos “valores tradicionais” é tentadora e recorrente, os abortos têm-se provado uma matéria de difícil concordância no país de origem desta série, o tráfico de menores é um flagelo mundial, às mulheres são recusados direitos humanos fundamentais em diversos países do mundo (…).

O  livro de Margaret Atwood que deu origem à série foi escrito em 1985, filho da tradição das grandes distopias como “1984” ou “Admirável Mundo Novo”. A sua atualidade permanece evidente (o elemento trágico-cómico diz-nos que assim continuará), embora há muito a produção televisiva tenha ultrapassado o material base literário.

THE CROSSING TRAZ MOSS EM TODO O SEU ESPLENDOR

The Handmaid's Tale T4E3 the crossing elisabeth moss
Moss em “The Crossing” |©2021 MGM Television Entertainment Inc

É com o terceiro episódio que compreendemos a pretensão de começar com três blocos de conteúdo. Chegámos à hora “H” de June com este “The Crossing” (T4E3).

No inglês “crossing” pode apontar para uma encruzilhada, travessia, uma cruz que se transporta ou uma passagem que se dá. Eis que June Osborne se encontra no seu ponto de “ruptura total” (salvo seja). Elisabeth Moss, produtora executiva da série e em geral muito mais do que simplesmente a sua protagonista, sente-se cada vez mais na pele da sua heroína à beira de um precipício.

Em 2021 e com o quarto ano da série, Moss amadurece e passa também para a cadeira da realização. Três dos dez episódios desta season ficam a seu cargo, com “The Crossing” como o primeiro destes. Enquanto esforço de realização destaca-se uma nítida ambição desmedida: a atriz e produtora quer deixar a sua marca ao passar para trás das câmaras. Contudo, acaba por se exceder e criar um episódio demasiado “incomum”. A sua estruturação é irregular, há oscilações de tom que nos levam do terror ao drama romântico num ápice, e até certos excertos de montagem chegam a parecer mesmo toscos e desnecessários. Do ponto de vista formal, Moss tem ainda muito que aprender. Vontade não lhe falta.

À medida que June passa por um dos seus piores calvários, não deixamos de nos horrorizar e mimizá-lo em igual medida. Já passámos aqui, sabemos que nunca poderá morrer. Dizer adeus à heroína é dizer adeus ao conteúdo, tal é incontestável. Ao fim destes três capítulos começamos a recear alguma estagnação. Voltaremos ao ponto do início, será “The Handmaid’s Tale” um eterno loop sem fim à vista? A frustração instala-se perante a conveniência narrativa que se vai reforçando. Ao fim de contas, dentro de todo o horror, June não deixa de estar no sítio certo à hora certa.

Questões legítimas, mas potencialmente fáceis de refutar. Este episódio é da mais extrema importância para June, uma vez que aqui se começa a desenhar uma nova rota bem provável para o seu futuro. Perante a perda (e a resposabilidade acrescida) de muitos dos que ama, perante a incapacidade de se manter fiel aos seus próprios valores, June não deverá tardar a chegar ao seu momento Khaleesi, ao seu desfecho Katniss. Tantas vezes a heroína se torna anti-heroína quando se esquece da nobreza das suas intenções e passa a ser motivada pelo ódio incomensurável. Será essa a sina desta corajosa história? Ou algo menos expectável nos aguarda?

The Handmaid's Tale T4 The Handmaid's Tale
Elisabeth Moss e Madeline Brewer (Janine) em “The Crossing” |©2021 MGM Television Entertainment Inc

 

Podemos duvidar da sequência de eventos algo trapalhona que se vai sucedendo ao longo dos quatro capítulos já emitidos (quem vê apelo na ideia de personagens a escaparem num contentor de leite?). Ainda assim, não podemos questionar Moss (nunca Moss). Nestes episódios está no seu melhot, a “trabalhar” para o Emmy que deverá ser seu de direito. É arrebatadora em todas as suas facetas: a carinhosa, a enraivecida, a maternal, a profundamente massacrada e despojada de esperança.

“The Handmaid’s Tale” vê agora claros sinais de uma evolução rumo a algo mais. Mais palcos entram em jogo e “Chicago” é o farol de esperança, o último pedaço de Estados Unidos da América que ainda resiste e o local onde June finalmente consegue chegar. O criador Bruce já reforçou não ter planos para terminar a série tão cedo e, antes da transmissão deste quarta temporada, a 5ª estava já garantida. Com a sequela do livro original recentemente publicada, a qual se passa 15 anos depois dos eventos originais, é possível que outras histórias do universo sejam contadas e que a jornada de June chegue ao fim.

Imperativo é que esta não se prolongue para lá do necessário. Por agora, “The Handmaid’s Tale” permanence relevante e capaz de se reinventar. Onde existem riscos, surgem por sua vez oportunidades em igual medida. É caso para dizer: Praised be!

TRAILER | “THE HANDMAID’S TALE” CHEGA A UMA TRANSFORMATIVA QUARTA PARTE

The Handmaid's Tale T4, primeiras impressões

Name: The Handmaid's Tale T4

Description: Na 4.ª temporada de The Handmaid’s Tale, June (Elisabeth Moss) contra-ataca Gilead como uma temida líder das forças rebeldes.

Author: Maggie Siva

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  • Maggie Silva - 75
75

EM CONCLUSÃO

“The Handmaid’s Tale” regressa para a quarta temporada e divide a sua ação entre dois pontos centrais: o antes e o depois de Chicago. Muito está em jogo, tantas expetativas podem ainda sair goradas (ou, no extremo oposto, ser ultrapassadas).

Os episódios já emitidos oscilam no que à qualidade diz respeito. Se a narrativa consegue ser insinuosa e pautada por ações pouco justificáveis (uma palavra: comboio), também há espaço para elogiar os seus méritos na expansão do universo. A segunda metade tudo ditará.

Pros

A tensão e angústia sufocante transmitidas por Elisabeth Moss ao longo da sua dantesca jornada; Bravo!

“The Handmaid’s Tale” continua a ser uma série de elenco forte, não obstante a forma como orbitamos em torno de June. Há que celebrar nomes como Yvonne Strahovski, Joseph Fiennes ou Madeline Brewer. 

A história procura novas direções, prometendo o não comprometimento da sua relevância.

Cons

Conta que a preguiça é um dos 7 pecados mortais. Em “The Handmaid’s Tale” a conveniência narrativa sempre esteve do lado de June, mas essa faceta está a intensificar-se à medida que, por cada perigo, a heroína tem alguém pronto a arcar com o sofrimento ou sacrifício em seu nome. Assim se prepara o lugar-comum da heroína caída em desgraça (ou assim parece ser, esperemos estar errados!).

O terceiro episódio tem uma montagem muito peculiar (o que nem sempre é bom, especialmente se os fins narrativos ou artísticos não o justificarem).

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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