50 Melhores Canções de 2018

Melhores canções de 2018 | Top 10

Seguem-se aquelas que, entre preferências pessoais e conversação comunitária, foram para nós as dez melhores canções de 2018. Aqui as apresentamos, comentadas e ordenadas como convém. Tensamente, em direcção à melhor do ano.

10. Half Waif, “Keep It Out” (Lavender)

“Keep it out, keep it in” é a perfeita, ainda que inversa, descrição do evoluir sonoro do single principal de Lavender, uma das melhores canções de 2018, a qual não nos cansámos de ouvir desde que saiu em fevereiro, consolando-nos no inverno na precisa (e paradoxal) medida em que rimava com ele. Tudo começa lentamente, as notas bolbosas do baixo a soar isoladas e arrastadas, a voz solitária de Nandi Rose Plunkett emergindo em versos curtos, despegados, a boiar, quase soltos, no próprio eco, numa atmosfera onde o som existe só para gerar o silêncio que impera nos intervalos. Neste vazio interior, flutua a meditação de Plunkett sobre a universal procura de um abrigo onde um estranho virá fisica e finalmente ao nosso encontro. Neste vazio, vai entrando o movimento, a vida exteriores, em saltos abruptos que vêm com os refrães, no exacto momento em que se confessa a recusa do outro. Pelo temor e incapacidade de se conseguir dar a conhecer a si próprio. Pela previsão de que nada neste mundo escapa à caducidade outonal, à morte que vem tão devagarinho como a música começou. (MPA)

We seek to settle, we make a home/ It’s fun for a little, but soon it’s old
And so it withers like all the rest/ Till we’re sleeping like strangers

Melhores Canções de 2018 | “Keep It Out”

9. Thom Yorke, “Unmade” (Suspiria)

Torna-se quase impossível dissociar esta canção de Thom Yorke do seu contexto peculiar no filme de Luca Guadagnino, quando a bizarria sangrenta que é o clímax de “Suspiria” dá lugar a uma bela canção de embalar de índole catártica. Yorke e Guadagnino, mestres do som e da imagem, não poderiam ter encontrado uma melhor simbiose entre as suas artes, mas é sobretudo graças a esta “Unmade” (e cremos que não resultaria com qualquer outra canção) que o momento cinematográfico ficará imortalizado. Thom Yorke recupera acordes estridentes da banda italiana Goblin para o “Suspiria” de Dario Argento e dá-lhes um ar suave e assombrado ao piano, que acompanha com uma voz celestial. É pertinente recuperar o que Thom Yorke afirmou em 1997 em “Let Down”: “One day I’m gonna grow wings”. 2018 foi o ano em que disse “Come under my wings, little bird”. E nós fomos. Sem hesitar. (DR)

Come under my wings / Under my wings / We’re unmade

Melhores Canções de 2018 | “Unmade”

8. Mount Eerie, “Distortion” (Now Only)

Um trajecto de onze minutos que liga o devastador espólio de A Crow Looked At Me e a reabilitação emocional de Phil Elverum. O cantautor norte-americano vagueia por devaneios existenciais, confidenciando à perpétua memória de Geneviève, a falecida esposa, alguns dos eventos mais marcantes da sua vida, assim como a idealização de um futuro desguarnecido da sua presença física. Acompanhado, exclusivamente, pelos arpejos de uma guitarra, a distorção de outra e esporádicas notas de piano, Phil Elverum retoma a sua incansável busca por respostas universais. Contudo, pelo caminho, ensina-nos a estimar os pequenos momentos da vida, pois são estes que perduram no tempo. Nunca uma canção conseguiu encapsular de modo tão autêntico a essência do ser-humano e da sua suprema jornada pelo cosmos como “Distortion”. (DAP)

I do remember when I was a kid and realized that life ends and is just over; that a point comes where we no longer get to say or do anything. And then what? I guess just forgotten, and I said to my mom that I hoped to do something important with my life: not be famous, but just remembered a little more, to echo beyond my actual end. My mom laughed at this kid trying to wriggle his way out of mortality, of the final inescapable feral scream, but I held that hope and grew up wondering what dying means, unsatisfied, ambitious and squirming

Melhores Canções de 2018 | “Distortion”

7. Wild Pink, “Love Is Better” (Yolk In the Fur)

Pode alguém em 2018 dizer e, mais ainda, acreditar numa frase tão gasta como “love is better than anything else”? Sim, if you mean it. Mas pode alguém dizer isto a sério e podemos nós levar a sério alguém que o diga? Para arriscar pronunciar, sem embaraço na voz, um chavão destes, formulando-o da maneira mais prosaica, menos original possível, é preciso ter vivido e chegado à conclusão de que é mesmo verdade, que o amor é mesmo a única coisa que tem e dá valor à existência. Quanto a dar-lhe crédito, importa aclarar o que entende John Ross por “amor” e quão certos podemos estar de que saiba do que está a falar.

As duas coisas vêm juntas e não dependem de ouvir Ross dizer com especial força, ou até gritar, que “love is better than anything else”. A serenidade do canto é, aliás, um dos sinais da maturidade conquistada, deste tornar-se mais real que vem com a perda da adolescência. Não, para descobrir se uma pessoa intende e sabe o que significa uma frase destas, é preciso ouvir as outras coisas que diz. E quando ouço tudo o que Ross diz em Yolk in the Fur, desde as melodias até aos versos e à performance de umas e outros, sei que ele sabe muito bem do que está a falar. Porque sabe o que é o amor quem é amado e, em 2018, ninguém descreveu como ele, nem melhor do que ele, o que isto é. (MPA)

“it will be okay” you say and you kiss my lips
that are mouthing the words to the prayer I say each day
knowing you’ve got an aching feeling deep in your heart/ And I feel it too
You don’t sleep well and you don’t expect to
But you always find a way to make what you do beautiful

Melhores Canções de 2018 | “Love Is Better”

6. Mitski, “Nobody” (Be the Cowboy)

Há muitas canções sobre a solidão, e não é preciso ir muito longe para encontrar algumas, basta vaguear um pouco por esta lista. Mas nenhuma delas é tão irónica e frágil como “Nobody”, nenhuma condensa em tão poucas palavras e em tão pouco tempo a surrealidade do desencontro. A sonoridade disco e o tom factual do canto contrastam com o triste vazio que é o seu assunto, convergindo só no final, quando o crescendo agressivo do instrumental acompanha o aflorar do desespero na exasperada repetição da palavra “nobody”. A imagem satírica da destruição de Vénus, deusa da antiguidade, pelo aquecimento global do planeta sugere o quão afastado está, por estranho que pareça, o mundo moderno do desejo primordial. Uma hipótese para a causa deste deserto amoroso é que nada extermina tanto o desejo quanto a obsessão com ele, capaz de queimar e reduzir a cinzas os que a ele se entregam. Mas o maior desencontro é entre cada um e o próprio amor, de nada valendo todas as tentativas. Até porque, ainda que alguma delas valesse, a que conduziria, se o amor não passa de uma ilusão – um beijo imaginado na tela do cinema – e se sabemos que ninguém nos pode salvar? Ainda assim, para negar uma coisa é preciso dizê-la. E dizer uma coisa é revelar o que insiste na nossa mente em colocar-se como possibilidade, não interessa quantas vezes a recusemos. (MPA)

Venus, planet of love/ Was destroyed by global warming
Did its people want too much too?/ Did its people want too much?

Melhores Canções de 2018 | “Nobody”

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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