Veneza 74 (4) | George Clooney Nos Subúrbios

George Clooney dirigiu Matt Damon e Julianne Moore, em ‘Suburbicon‘, uma sátira cáustica co-escrita pelos irmãos Coen, sobre um casal de uma comunidade idílica americana, que engendra um plano de assassínio cobarde e, que tem ainda como pano de fundo o racismo e a descriminação racial na década de 50.

 

George Clooney
Julianne Moore e Matt Damon, os protagonistas.

 

Depois da Leisureland de Downsizing, George Clooney com os Irmão Cohen, criaram mais uma comunidade idílica americana no thriller Suburbicon, num regresso do actor-realizador à competição depois de Idos de Março.

Os Irmãos Coen assinaram o argumento original do Suburbicon na década de 1980. Por vários motivos, o filme nunca foi realizado e ficou de reserva como explicou George Clooney:

“No ano passado, eu e meu parceiro Grant Heslov, estávamos a trabalhar numa história sobre Levittown, Pensilvânia, em 1957, inspirada em Crisis in Levittown, um documentário de curta-metragem. Liguei para os irmãos Coen para perguntar se podíamos ver o guião e torná-lo num filme sobre a história dessa cidade. Mostraram-se entusiasmados, e imediatamente começámos a trabalhar em conjunto.”

VÊ O TRAILER DE ‘SUBURBICON’

Suburbicon é sobretudo uma metáfora sobre a América de ontem e hoje, inspirada nos clássicos do film noir como Pagos a Dobrar e O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, embora a intriga aconteça numa comunidade habitacional criada partir do modelo da tal Levittown, uma cidade construída a partir do zero na Pennsylvania, — não muito longe de Nova Iorque — por William Levitt, depois da II Guerra Mundial, curiosamente dedicada apenas a pessoas de ‘raça caucasiana’.

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O filme abre mesmo com uma belíssima sequência de um vídeo-promo — parece a sequência inicial de Blue Velvet — para potenciais residentes, apontando Suburbicon como um ‘espaço de diversidade’, que atraí pessoas de lugares tão distantes nos EUA, como Nova Iorque, Ohio ou Mississippi. As famílias felizes que aparecem nas ilustrações animadas em estilo lírico-kitch são brancas, sinalizando um ambiente restritivo, — aqui não entra negro — mesmo que esta ideia não esteja claramente expressa no promo.

RACISMO OU THRILLER?

Foram as lutas raciais que inspiraram George Clooney a realizar Suburbicon. No entanto, a violência aparece abruptamente logo no início num assalto à casa de uma família de brancos Gardner Lodge (Matt Damon), por dois bandidos também brancos (Glenn Fleshler e Alex Hassell) que imobilizam todos com clorofórmio. O pequeno Nicky (Noah Jupe) acorda no hospital a saber que sua mãe morreu e que a tia Maggie, logo após o funeral e na sequência da tragédia, está disposta a dar estabilidade à familia.

George Clooney
Matt Damon, é o típico americano médio dos anos 50.

 

Por sua vez, um alegre carteiro recebe um choque quando toca à porta de um novo residente de Suburbicon e descobre que a mulher afro-americana, que supõe ser a empregada é a própria Senhora Meyers (Karimah Westbrook). Isso espalha-se logo pela cidade, provocando uma ruidosa reunião no município, em que os respeitáveis proprietários protestam contra a violação da sua comunidade e contra a inevitável quebra dos valores da propriedade. Esta parte do enredo incide numa família que na realidade quebrou a barreira da cor em Levittown, em 1957. Mas depois disto este segmento da história é praticamente abandonado, passando apenas por um assédio à casa dos Meyers, por uma multidão branca que culmina num verdadeiro motim. Somente o jovem filho Andy Meyers (Tony Espinosa) tem algum protagonismo significativo na história, enquanto que os seus pais são perseguidos e tentam permanecer impermeáveis ​​ao ódio e descriminação, passando um pouco ao lado dos outros acontecimentos e dos crimes.

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A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES

A acção principal vai acontecendo na casa de Gardner Lodge (Damon), e da sua esposa Rose (Moore), e a ligação à outra história dá-se quando o seu filho Nicky (Noah Jupe), aceita Andy como amigo, para jogarem basebol nos pátios traseiros das casas vizinhas. Rose, uma loira frágil, está incapacitada numa cadeira de rodas, desde o acidente de carro em que o marido ia ao volante. Isso deixa sua irmã gémea Margaret (Moore novamente) — uma presença constante na casa, que é idêntica à outra, mas morena — a representar o ideal da alegre serenidade e feminilidade da mulher americana dos anos 50.  O filme desde o início que cheira a traição e adultério. E antes que nos recordemos de Kim Novak, a morena Margaret vai ao cabeleireiro e muda para loira, enquanto as contradições começam pouco a pouco a revelá-la.

George Clooney
O miúdo Nick (Noah Jupe) é uma grande revelação.

 

Clooney reuniu um elenco de grandes atores — não esquecer Oscar Isaac — e dá um certo gozo assistir ao esquema de reviravoltas e situações por vezes hilariantes mas bastante negras, mesmo que a narrativa seja por vezes um pouco confusa. Enquanto o personagem de Damon mostra-se um manipulável e infeliz criminoso como William H. Macy em Fargo; Moore por seu lado tem alguns momentos divertidos como por exemplo, quando Margaret mostra algum desconforto no seu egoísmo frio para com Nicky. Todo este caos incomum com pessoas comuns leva obviamente aos crimes realizados com uma incompetência fatal.

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UMA SETA À ERA TRUMP

Matt Damon e Julianne Moore — está igual à sua personagem de Longe do Paraíso, de Todd Haynes, (2002) — representam efectivamente os cidadãos-arquétipos desse tempo: o chefe de família respeitável e a dona-de-casa exemplar, de quem se espera o melhor, antes de se tornarem uns monstros amorais, à boa maneira do Irmãos Cohen. No entanto, já se fizeram uma carrada de filmes mais incisivos e impressionantes sobre a maldade humana, nas comunidades suburbanas e na América profunda, por isso Siburbicon não é novidade. O ângulo mais interessante no filme é o crescente pânico do pequeno Nicky (Noah Jupe), num desempenho absolutamente notável.

George Clooney e Julianne Moore foram obviamente hoje a sensação.

 

Ao assistir a Suburbicon torna-se igualmente quase inevitável, pensar como seria este filme se fosse dirigido pelos Irmãos Cohen? Não é que nas mãos de Clooney seja mau filme, pelo contrário é diferente até porque Suburbicon, combina com elegância, a violência e o humor negro dos Irmãos Cohen com um certo refinamento político e uma profunda reflexão sobre o racismo entre brancos e negros, passada nessa tal comunidade inspirada no ‘american way of live’, dos anos 50. No entanto, Suburbicon é mais uma seta apontada, nesta competição, à era Donald Trump e às recentes manifestações racistas nos EUA.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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