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Venom, em análise

Não é o típico herói, mas a sua relação simbiótica com um humano é sem dúvida interessante. No entanto, será Venom um bom protagonista para um filme a solo?

Nos anos mais recentes do cinema, Venom surgiu como um dos antagonistas da trilogia de “Homem-Aranha” com Tobey Maguire. Ficando muito próximo da sua origem na banda desenhada, a personagem apareceu como uma descoberta do próprio Peter Parker, juntou-se ao super-herói e deu-lhe inclusive uma nova persona, mas acabou por encontrar um hospedeiro na personagem de Topher Grace, Eddie Brock. Se conquistou? Bem, sim, de algum modo sim. Afinal de contas, desde 2007 que se falava em Venom como um possível spin-off do universo de Homem-Aranha.

Homem-Aranha 3 Venom
A primeira aparição de Venom foi na verdade em 2007, em “Homem-Aranha 3” | © Sony Pictures

Foram 10 longos anos de espera, e já dois reboots de Homem-Aranha depois, a Sony Pictures decidiu mesmo arrancar com Venom. Passando a história de “Homem-Aranha” para as mãos da Marvel Studios, deixando-os utilizar a personagem no seu MCU, os estúdios da Sony colocaram finalmente em prática o projecto há muito em mãos: um filme a solo sobre Venom, um simbiote que tem tudo para ser o mau da fita mas que tem um appeal como poucos têm para criar o seu próprio mundo.

Claro que com este filme o que mais quisemos foi perceber as ligações à complicada teia de personagens da Marvel Comics mas, sem descurar o mundo fictício dos super-heróis, foi uma lufada de ar fresco perceber que a origem de Venom estaria em muito distante do aracnídeo mais conhecido da banda desenhada. Deixando na mesma em destaque Eddie Brock como o principal hospedeiro deste simbiote, a história leva-nos para uma descoberta científica, via Laboratórios Life Foundation, e é daí que surge todo o enredo deste primeiro filme de origem.

Venom Life Foundation
Para o filme de origem, os estúdios distanciaram-se da história ligada ao Homem-Aranha, criando um universo mais focado nos simbiotes | © Sony Pictures

Apesar de ser um antagonista com menos carácter e qualidade que outros já alcançaram no universo de adaptações de banda desenhada (como Joker, da DC Comics, e que ao longo dos anos se tem revelado um dos maiores interesses por parte dos fãs), Venom tem neste seu momento a solo a oportunidade de se apresentar e dar a conhecer mas, mais que a mestria dos efeitos especiais e de como ele é feito em CGI, o mérito vai todo para Tom Hardy. O actor, que não é estranho a ser um vilão (recordam-se dele como Bane, em “The Dark Knight Rises”?), encontra aqui a oportunidade perfeita para mostrar uma vez mais os seus dotes e versatilidade. Criando duas personagens completamente distintas, e tendo tempo de ecrã conjunto numa relação estranha mas cativante, Hardy é sem dúvida um dos grandes pontos positivos deste filme.

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“Venom” apresenta um bom protagonista mas deixa também em falta a ligação às personagens secundárias. Certo, não são principais, mas todos sabemos que por vezes são elas que fazem enaltecer a história e até mesmo o protagonista. Aqui, porém, a história é completamente outra. A estrela é Tom Hardy apenas, e apesar da personagem de Riz Ahmed ser uma boa antagonista para a de Hardy, e de Michelle Williams ter um certo ar naive que tanto se gosta de ver nos interesses amorosos, sentimos que ficou a faltar mais. Principalmente a Michelle Williams, dado o forcing que se tem feito nos últimos anos para realçar as leading ladies e colocando-as de forma tão forte no enredo; aqui mostrou-se como uma mulher com poucas emoções e sentimentos, uma personagem relativamente vazia e oca face ao talento que sabemos que ela pode deixar no ecrã.

No entanto, realça-se a vontade assumida do filme introduzir maior profundidade à história pelo contínuo desenvolvimento da relação entre Eddie Brock e Venom; a simbiose que eles criam, o modo como influenciam as personalidades um do outro e nas próprias interações que os vemos a ter desde o primeiro momento até ao último, mostram que neste ponto “Venom” se consegue distanciar de forma categórica dos demais clichés deste tipo de filmes de acção e da eterna sensação de já sabermos o que vai acontecer.

Venom
De uma versatilidade enorme, Tom Hardy é um dos grandes trunfos de “Venom”  | © Sony Pictures

No geral a edição e composição são um pouco atribuladas… quase numa mímica à caótica relação de Venom e Brock. Com momentos de narrativa frenéticos, combinados entre momentos de pausa e até alguma estranheza, Ruben Fleischer não deixa de apresentar um bom filme de acção é certo, mas que ganha mais pela interpretação e personagem do que pela longa-metragem num todo, enquanto obra cinematográgica. O que ficou em falta, na nossa opinião? A violência inerente à personagem de Venom. Apesar dos filmes de super-heróis se estarem a tornar grandes blockbusters, este merecia sempre uma história digna de vilão, ainda que colocasse o filme como R-Rated. Esse era o tratamento que esperávamos realmente para Venom. Tudo o resto se ajustaria facilmente, e prova disso é o trabalho exímio feito nos efeitos especiais e na apresentação dos simbiotes.

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Mas à parte do que gostaríamos de ter visto, e focando no que realmente tivemos, então temos que olhar para outro momento que em muito define os filmes de super-heróis: o final. O final, quer queiramos quer não, é um grande ponto de avaliação e pode determinar o mood com que se sai de uma sala de cinema. Será que é um final digno para a personagem? Irá estar a abrir novas portas para este universo gigante? Qualquer que seja a questão em cima da mesa, “Venom” conquista os fãs – há um novo mundo, que não inclui de forma imediata o universo de Homem-Aranha (mas nunca se sabe que acordos virão para cima da mesa), e que apresenta ma personagem tão irreverente quanto Venom. Carnificina! Também um simbiote que se ‘desloca’ pela Terra comum hospedeiro, a última cena mostra que Eddie Brock/Venom vão continuar a co-existir por muito tempo, especialmente com um talentoso Woody Harrelson à espera de mostrar o seu melhor Cletus Kasady, aka Carnificina (Carnage).

Woody Harrelson Venom
“Venom” conseguiu guardar uma das revelações mais excitantes para a cena final, com a revelação de Cletus Kasady, conhecido como Carnificina (Carnage) ©Sony Pictures

Engraçado agora é pensar que este era o primeiro antagonista idealizado para a apresentação de Venom nos grandes ecrãs. Será que o filme teria tido o mesmo impacto? E teria ele conseguido criar o hype para um universo maior e um sequela ainda mais aliciante?

TRAILER | VENOM JÁ É PROTAGONISTA A SOLO

Gostaste de ver Venom com o seu próprio filme? O que esperas para a sequela e o que vês no futuro da personagem no cinema?

Venom

Movie title: Venom

Movie description: Apostado em retomar a sua carreira jornalística, Eddie Brock investiga a Life Foundation, uma empresa de genética suspeita de fazer testes científicos em seres humanos. Quando é raptado pelo Dr. Carlton Drake e usado como cobaia numa experiência simbiótica com um perigoso ser alienígena, transforma-se em Venom. Possuído por um parasita monstruoso que usa o seu corpo para chacinar todos os que se cruzam no seu caminho, Eddie transforma-se numa máquina mortal e absolutamente fora de controlo...

Date published: 4 de October de 2018

Country: EUA

Director(s): Ruben Fleischer

Actor(s): Tom Hardy, Michelle Williams, Jenny Slate, Riz Ahmed, Woody Harrelson, Reid Scott

Genre: Acção, Aventura, Sci-Fi

  • Marta Kong Nunes - 75
  • Inês Serra - 70
  • Rui Ribeiro - 70
  • Manuel São Bento - 45
65

CONCLUSÃO

“Venom” destaca-se por apostar num vilão como protagonista a solo e por conseguir distanciar-se dos clichés de filmes de super-heróis. Não há claro herói, mas também não há muitos momentos que nos façam pensar que sabemos o que se segue na narrativa. Como história de origem é exímio a construir as personagens principais – Eddie Brock e Venom – e a sua relação, mas peca por não ser um filme à escala da personagem como a conhecemos da banda desenhada. Talvez tenha sido o rumo escolhido, ou o antagonista em questão, mas faltou um toque arrojado para elevar o filme.

Pros

  • Tom Hardy mostra uma versatilidade enorme ao construir a relação entre Eddie Brock e Venom;
  • Os efeitos especiais, em particular nas formas e apresentações dos simbiotes, que se mostram ‘credíveis’ e bem incorporadas no momento;
  • O final em aberto que antevê uma sequela e um futuro muito mais promissor e arrojado para Venom

Cons

  • A falta de desenvolvimento das personagens secundárias, nomeadamente a de Michelle Williams, que se mostra quase desprovida de ‘conteúdo’;
  • Faltou o passo seguinte, de incorporar um pouco mais de violência, um factor sem dúvida inerente à personagem de Venom, um dos vilões mais letais das histórias;
  • Uma composição e edição algo confusa, que acaba por conferir uma montanha russa de ritmos distintos ao filme
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Marta Kong Nunes

Arquitecta (com um c!) de formação. Coordenadora de profissão. Fanática de cinema e séries por pura paixão.

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