Yasuke ©Netflix

Yasuke, primeira temporada em análise

“Yasuke” é o mais recente anime original da Netflix que combina a História da Era dos samurais no Japão e personagens reais com criaturas fantásticas, poderes mágicos e lutas entre robôs. A animação dinâmica, moderna e maravilhosa contrasta com o insuficiente desenvolvimento das personagens. 

Quase há 500 anos atrás, um alto africano chegou ao Japão. Ele tornar-se-ia o primeiro estrangeiro a alcançar o estatuto de guerreiro samurai e a sua história passaria a estar envolta de mistério.

Yasuke, que viria a ser conhecido pelo Samurai Negro, chegou a Quioto no século XVI e rapidamente ascendeu ao estatuto de samurai, cavalgando lado a lado com Oda Nobunaga – um poderoso senhor feudal japonês que foi o primeiro dos três unificadores do Japão.

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O rastro histórico de Yasuke terminaria com a queda de Nobunaga, aquando da traição de um dos seus generais, Akechi Mitsuhide, que levou ao incêndio do palácio do senhor da guerra e ao aprisionamento de Nobunaga numa das salas em chamas. Segundo o historiador, Thomas Lockley, Oda Nobunaga pôs fim à sua vida realizando o suicídio ritual, seppuku, e Yasuke teve a honra de decapitar Nobunaga e ficou encarregue de entregar a espada e a cabeça do senhor da guerra ao seu filho.

A lenda do Samurai Negro continuaria a viver através de livros como “Kuro-suke” de Kurusu Yoshio e “Yasuke” de Serge Bile. Hollywood também se interessou pela história e dois filmes sobre o samurai estavam em pré-produção: um anunciado em 2017 pela Lionsgate e outro que veria Chadwick Boseman a protagonizar como Yasuke.

Yasuke
Yasuke ©Netflix

Numa colaboração americana/japonesa entre a Netflix e os estúdios Mappa – conhecidos pela última temporada que estreou do anime “Attack on Titan” e o recente sucesso de “Jujutsu Kaisen”, surgiu assim uma reimaginação do conto de Yasuke e do que sucedeu ao samurai após a queda do seu senhor Nobunaga.

Desde adaptações de História, videos jogos e filmes as apostas da Netflix em anime são cada vez maiores e vale a pena estar atento a todas as novidades que vão saindo (como “DOTA: Dragon’s Blood” e “Castlevania“) e que o futuro ainda espera (“Tomb Raider”, “Kong: Skull Island”, “Terminator“).

O veterano no departamento de animação, LeSean Thomas, toma as rédeas na realização da série, tendo-lhe sido dado luz verde pela Netflix em 2017 pelo seu projeto. Thomas já tinha colaborado com a Netflix no anime “Cannon Busters” estreado em 2019 e também é conhecido pelo seu trabalho nas séries televisivas animadas de “Spider-Man” e “Guardians of the Galaxy”, como artista de storyboards em “The Legend of Korra” e principalmente pela sua participação em “Children of Ether” e “Black Dynamite”. A ideia de LeSean Thomas era ir além de uma simples biografia, distinguindo-se do género de jidaigeki anime, e tentar uma abordagem romantizada do Japão feudal ambientado num mundo de fusão entre ficção científica e fantasia, com elementos como magia e mecha.

Yasuke
Yasuke ©Netflix

Nick Jones Jr., um dos principais argumentistas do anime, tirou inspiração para a sua escrita através de trabalhos como “Samurai 7”, “Rambo” e “Lone Wolf and Cub”. Matthew Shattuck atuou como produtor e o ator LaKeith Stanfield, o artista musical Steven Ellison, também conhecido como Flying Lotus, e Colin Stark são os produtores executivos do projeto. Stanfield e Flying Lotus contribuíram ativamente com ideias para a história, como no trauma e saúde mental de Yasuke e sugerindo elementos envolvendo o sobrenatural. Adicionalmente, “Yasuke” na Netflix surge como uma ótima ligação à serie documental também do serviço de streaming estreada este ano, “Age of Samurai: Battle for Japan”.

Ao nível de desenvolvimento mais técnico da série temos a criação dos designs dos personagens pelo diretor e animador Takeshi Koike, com Kenichi Shima servindo como sub designer. Satoshi Iwataki atuou como diretor-chefe de animação, Junichi Higashi como diretor de arte, Yuki Nomoto como diretor de 3DCG e Hyo-Gyu Park como diretor de fotografia. Em termos de animação, “Yasuke” é mais um sucesso do estúdio Mappa, impressionando desde as cenas do Japão feudal, ao ambiente natural e às dinâmicas cenas de ação com um equilíbrio ideal entre lápis e CGI.

Yasuke
Yasuke ©Netflix

Relativamente ao elenco, temos destaques tanto nas dobragens em japonês como em inglês, e é um dos pontos apontados como destaque positivo da série. No entanto, também pode ser um ponto controverso, pois havendo a divisão dos que preferem anime no original japonês e daqueles que preferem as dobragens em inglês (ou nas suas línguas maternas), a qualidade pode sofrer desequilíbrios devido a esse aspeto. Yasuke é interpretado quer por LaKeith Stanfield quer por Jun Soejima; Maya Tanida e Kiko Tamura surgem no papel de Saki – a criança cujos incríveis poderes místicos vêm desequilibrar o governo da vilã Yami no Daimyō; Takehiro Hira dá voz a Oda Nobunaga nas duas versões; Yu Kamio e Paul Nakauchi interpretam Morisuke – antigo samurai também ao serviço de Nobunaga, que agora gere uma escola para crianças com habilidades e que servirá de mentor a Saki; e a feiticeira negra, Yami no Daimyō, é dobrada por Yoshiko Sakakibara e por Amy Hill.

A banda sonora original foi desenvolvida por Flying Lotus e teve as participações de Thundercat, Denzel Curry e Niki Randa. Flying Lotus afirmou ter tirado inspiração de elementos de hip-hop juntamente com percussão japonesa e africana, tentando diferenciar-se de referências como “Samurai Champloo” e “Cowboy Bebop”.  A banda sonora capta com sucesso o espírito do anime, permitindo uma evolução dos estilos consoante a evolução da história, e tanto o tema de abertura, “Black Gold”, como o de encerramento “Between Memories” são produções de ficar no ouvido.

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A equipa revelou que a série foi produzida com o intuito de ter várias temporadas, e isto poderá explicar em parte o elemento mais fraco do anime que é a narrativa. Mais concretamente, “Yasuke” começa com uma boa base para o enredo e vai adicionando personagens cativantes e plots interessantes, mas a raiz do problema deve-se ao tempo que é dedicado a aprofundar estes temas e a desenvolver as personalidades de cada personagem. Estando pensado para mais do que uma temporada, o material apresentado nesta primeira teria sido melhor aproveitado se tivesse havido uma expansão ao longo de pelo menos mais meia temporada. Não nos é dado tempo suficiente para perceber o funcionamento do mundo nem as ambições dos seus vilões e, mais grave, não temos o desenvolvimento desejado no elemento mais interessante da história que é o próprio Yasuke. O passado do Samurai Negro, do tempo ao lado de Nobunaga e de como atingiu o estatuto de guerreiro são mistérios que queríamos ver apresentados, assim como mesmo o seu estado no presente poderia ter sido melhor limado.

Yasuke
Yasuke ©Netflix

“Yasuke” supera as expectativas ao nível da animação e consegue um resultado impressionante na fusão entre o Japão feudal, a fantasia e a ficção científica. O anime também se sobressai ao nível do seu elenco e da banda sonora. Infelizmente, tropeça e desilude na narrativa, que é apressada e preguiçosa, não tirando todo o proveito do que poderia ter sido uma excelente estreia da Netflix. Aguardamos agora as novidades do cancelamento ou renovação, mas esperemos que haja renovação para dar oportunidade ao anime de corrigir a solidez da exposição do enredo.

És a favor da aposta da Netflix no mundo dos animes?

Yasuke, primeira temporada em análise
Yasuke

Name: Yasuke

Description: Ele veio de África e lutou ao lado de um poderoso senhor feudal no brutal Japão do século 16. Eles o chamaram de Samurai Negro, e ele se tornou uma lenda. Agora é apenas um barqueiro pacato, mas quando uma rapariga com poderes misteriosos entra na sua vida à procura de proteção, ele terá de regressar a uma vida de violência.

  • Emanuel Candeias - 68
68

CONCLUSÃO

“Yasuke” supera as expectativas ao nível da animação e consegue um resultado impressionante na fusão entre o Japão feudal, a fantasia e a ficção científica. O anime também se sobressai ao nível do seu elenco e da banda sonora. Infelizmente, tropeça e desilude na narrativa, que é apressada e preguiçosa, não tirando todo o proveito do que poderia ter sido uma excelente estreia da Netflix.

Pros

  • Excelente animação do estúdio Mappa
  • Componente histórica
  • Fusão entre História, fantasia e sci-fi

Cons

  • Os pros são grandemente manchados por uma narrativa apressada, que não tira proveito do grande potencial do anime
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Emanuel Candeias

Graduado em Hogwarts, foi head-boy de Ravenclaw. Aventurou-se durante uns tempos pela Middle-Earth e por Westeros, tendo feito grandes amizades na House Stark e com os elfos de Lothlórien. De forma a aprofundar os seus conhecimentos contactou grandes mentes como Doctor Banner, Doctor Strange e chegou mesmo a viajar com Doctor Who. Dedicou-se durante uma temporada a fortalecer a sua espiritualidade em Konoha, onde aprendeu com os mestres Goku e Naruto. Neste momento encontra-se perdido no Matrix. O seu sonho é vir a ingressar na Starfleet.

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