Parasite

72º Festival de Cannes | ‘Parasite’: a luta de classes

O cineasta coreano Bong Joon-ho regressou a Cannes com um filme extraordinário intitulado ‘Parasite’, tratando a diferença das classes sociais de uma forma trágico-cómica.  O menino-prodígio Xavier Dolan estreou ‘Mathias et Maxime’. 

A cidade acordou vazia, depois do turbilhão Quentin Tarantino, e muita gente já foi embora com o fim também do Mercado do Filme. Mas faltam alguns filmes para culminar em grande esta competição de Cannes 72. É o caso deste belíssimo ‘Parasite’, de Bong Joon-ho, o realizador de ‘Okja’, filme que originou em 2017, as primeiras polémicas com a Netflix. Como se viu este ano os filmes da plataforma de streaming não foram bem-vindos a Cannes. Contudo, o genial Bong Joon-ho regressou à competição ‘cannoise’ em pleno, com ‘Parasite’, um filme de produção do seu país e falado na sua língua natal.

Parasite
Os Ki-taek, são uma família vulgar que vive de expedientes.

‘Parasite’, conta a história dos Ki-taek, uma família vulgar e modesta de quatro pessoas (pai, mãe e dois filhos adultos), todas desempregadas que habitam um apartamento situado numa cave suburbana e que sobrevivem de pequenos trabalhos e expedientes. Neste sentido, ‘Parasite’, faz lembrar Shoplifters: Uma Família de Ladrões’, de Hirokazu Kore-eda, a Palma de Ouro 2018. Na verdade as motivações familiares são semelhantes, a sobrevivência e denúncia social contra o capitalismo selvagem no oriente, só que esta história se torna mais complexa em termos narrativos e formais. O rapaz da família, Ki-woo, faz-se passar como professor de inglês e vai dar apoio escolar à filha adolescente da família Park, um casal jovem e rico que vive numa moderna e sofisticada moradia nas colinas de Seul. Pouco a pouco e à custa de pequenas mentiras e manipulações, tanto os pais como a irmã de Ki-woo, começa a trabalhar para os Park.

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Parasite
A família Park é um casal jovem e rico que vive numa sofisticada moradia.

Apesar de satisfeitos com a nova vida os Ki-taek, vêm rapidamente os seus planos de trabalho e estabilidade comprometidos por algo de inesperado que acontece. Atrás de uma sucessão de acontecimentos tanto trágicos como absurdos — situações que às vezes fazem lembrar a commedia dell arteBong Joon-ho desenvolve uma feroz e violenta sátira social, confrontado as duas famílias numa verdadeira lutas de classes: de um lado os pobretanas, antes classe média vítimas desemprego e precaridade, e do outro os ricos fruto da exploração e dos ganhos das novas tecnologias que substituem a mão-de-obra. Mas o grande mérito de ‘Parasite’, está na forma como se desenvolve o drama, pois a realização é de uma criatividade louca e inebriante sempre ao serviço da história e das suas reviravoltas e as interpretações são extraordinárias.

Parasite
Parasite’ é uma excelente tragico-comédia de humor e terror.

‘Parasite’ é uma  excelente trágico-comédia que retrata com humor e terror, a desilusão dessa família que depois depois de passar pela pobreza, começa uma vida próspera e de imediato vai cair novamente na realidade anterior. ‘Parasite’ é surpreendentemente um dos melhores filmes desta competição e pelos gostos do presidente do júri dificilmente o coreano Bong Joon-ho, sairá de Cannes sem um prémio.

‘Mathias et Maxime’
Mathias é interpretado pelo actor de origem portuguesa Gabriel D’Almeida Freitas.

Um dos ‘bijous’ do Festival de Cannes o jovem realizador canadiano Xavier Dolan (30 anos), apresentou aqui ‘Mathias et Maxime’, que segue um grupo de amigos de infância — num regresso também como actor — marcados pela cumplicidade, humor e solidariedade. No entanto, Mathias (interpretado pelo actor canadiano filho de pais portugueses Gabriel D’Almeida Freitas) e Maxime (Xavier Dolan), destacam-se neste grupo, por um ‘caso’: a interpretação de um ‘beijo homo’, para uma curta-metragem experimental da irmã de um dos outros amigos. Este acontecimento anódino é o ponto de partida, para algo que vem do passado e um desafio interior de Mathias, um jovem advogado casado com uma bela mulher, enquanto Maxime, um jovem mais frágil socialmente se prepara para imigrar para a Austrália. Rodado em pouco mais de um mês, o último filme de Xavier Dolan, parece regressar aos seus primeiros, plenos de energia e movimentos e diálogos frenéticos e exaltados. Embora o tema de ‘Mathias et Maxime’, pareça mais ligeiro e menos profundo, — a história de um primeiro beijo — do que os seus filmes anterior com ‘Tom na Quinta’ ou ‘Mommy’, presença de uma mãe problemática e alcoólica, mantêm-se… —, o menino prodígio do cinema canadiano continua a insistir nos temas da ambivalência sexual, da socialização e construção das identidades e géneros.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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