74º Festival de Cannes: Verão Escaldante

O Festival de Cannes 2021, começa amanhã 6 de julho com ‘Annette’ de Leos Carax. Vou ao encontro também dos novos filmes de Apichatpong, Verhoeven, Dumont, Moretti, Ozon, Wes Anderson, Sean Penn e de figuras tão carismáticas como Jodie Foster ou Spike Lee o realizador entre vários de ‘Verão Escadante’ (1999). Até 17 de julho vamos novamente estar, no maior festival de cinema do mundo e, ainda em tempo de pandemia de Covid-19.

As medidas sanitárias impostas são habituais, para este tempo ainda de pandemia (certificado de vacinação, testagens em plena Croisette e já fiz uma, pelo sim pelo não apesar de estar vacinado). E assim o 74º Festival de Cannes vai arrancar já amanhã com as máscaras obrigatórias nas salas de cinema — em França como a maioria da população já está vacinada, a máscara não é obrigatória na rua, embora muita gente a use — com lugares marcados à priori, para a imprensa, — já tenho até os meus bilhetes na mão (ou melhor no telemóvel) para os primeiros dois dias de sessões — e sem as distâncias físicas das cadeiras. O ano passado uma experiência semelhante, resultou em cheio no Festival de Veneza 2020, — embora com as salas reduzidas de lotação e distância entre cadeiras — sem que houvesse qualquer foco de epidemia. E tais medidas até tornaram a Mostra do Lido de Veneza, bastante mais humana e mais acessível — sem filas e atropelos — e mais fácil para quem precisa de trabalhar em segurança e nas melhores condições para uma reportagem. Porém, cautelas e caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém e epidemia está longe de ter acabado. O Festival de Cannes 2021, vai enfim realizar-se presencialmente (numa edição física e nada de streaming) e só assim faz sentido para todos os festivais, para uma mostra de cinema (a essência dos festivais são os encontros de pessoas das várias áreas), que tem tradição de ser todos os anos altamente qualificada, diversificada nas escolhas e altamente prestigiada com os filmes vencedores da Palma de Ouro, a chegarem às salas com essa marca e a serem candidatos, aos maiores prémios da indústria de cinema mundial.

VER TRAILER DE ‘ANNETTE’

Este ano pelos nomes e filmes selecionados, o 74º Festival de Cannes, apesar dos condicionalismo, não vai fugir à regra colocando o cinema ao serviço de discussões tão actuais e com tudo preparado de forma ultrapassarmos a situação excepcional, que vivemos: vamos ver filmes feitos durante o confinamento, filmes sobre as questões de identidade ou de género, sobre a família e os relacionamentos entre casais, reflexões sobre a perda e a fuga, obras activistas e de denúncia, mas vamos experimentar também alguma poesia e beleza; e foi isto que os organizadores do Festival de Cannes — sempre de olho, naquilo que pudesse acontecer em relação à pandemia — aos poucos foram anunciando, juntando à extensa programação, filmes que não andam muito longe da nossa realidade, que vai apesar das vacinas, vai continuar limitada por mais algum tempo.  A competição é composta por cerca de 24 filmes, onde estarão as novas obras de realizadores como, Apichatpong Weerasethakul, Paul Verhoeven, Bruno Dumont, Wes Anderson, Leos Carax (com ‘Annette’, o primeiro filme que vamos ver, que já está comprado para Portugal pela NOS), Nanni Moretti — num regresso 20 anos depois da Palma de Ouro, ganha por ‘O Quarto do Filho’), François Ozon, Jacques Audiard ou Sean Penn, no papel de actor-realizador, entre outros. Este ano, além dos filmes, dos realizadores, da enorme madrinha que é Jodie Foster, — que com a sua presença dá um simbólico prestígio ao Festival, num momento difícil de afirmação — o júri oficial da competição, capitaneado por Spike Lee, é composto por um conjunto de assinaláveis figuras. São cinco mulheres (elas estão em maioria) e três homens de sete nacionalidades diferentes e dos cinco continentes que vão decidir quais os melhores filmes e intérpretes, bem como a Palma de Ouro 2021, que escapou o ano passado: Mati Diop (realizadora francesa), Mylène Farmer (cantora e compositora canadiana), Maggi Gyllenhaal (actriz norte-americana), Jessica Hausner (realizadora austríaca), Mélanie Laurent (actriz francesa), Kleber Mendonça Filho (realizador brasileiro), Tahar Rahim (actor francês) e por último Song Kang-ho (actor sul-coreano).

 

Spike Lee
Spike Lee

Para começarmos com lirismo e poesia temos ‘Annette’, de Leos Carax (na abertura), um filme inspirado num musical composto pela banda norte-americana Sparks, interpretado por Marion Cotillard e Adam Driver, com uma história, passada em Los Angeles, sobre o relacionamento entre um stand up comedian e uma cantora de sucesso.  É curioso que a origem deste filme assenta num encontro entre o realizador francês e a banda precisamente em Cannes, no ano da estreia de ‘Holy Motors’ (2012); também há muito anunciado estava ‘Benedetta’, do veterano Paul Verhoeven, um filme que estava literalmente na fila de espera — um problema de saúde do realizador e depois a pandemia, atrasaram a sua estreia — desde a ultima presença do realizador em Cannes com ‘Ela’, em 2019. Baseado no livro ‘Atos Impuros – A vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença’, de Judith C. Brown, Benedetta’, conta a história real de Benedetta Carlini. Contudo parece não ter sido o único filme a ficar numa lista de espera 2021 e aguardando melhores dias no pós ou alívio da pandemia para uma estreia grandiosa em Cannes: ‘Memoria’, de Apichatpong Weerasetkahul, com Tilda Swinton (filmado na Colômbia, que concretiza uma viagem e um olhar do cineasta tailandês pela América Latina, numa espécie de exílio criativo, inspirador e necessário, já por ele há muito anunciado), ‘Tre Pianni’, do italiano Nanni Moretti ou mesmo ‘The French Dispatch’, de Wes Anderson, pareciam estar nessa lista também e as hesitações foram muitas até assinalr definitivamente à sua estreia, aqui em Cannes. Entende-se esta ansiosa e impaciente espera porque Cannes é uma porta aberta (aos filmes) para o mundo!

Festival de Cannes
Jodie Foster, convidada especial e Palma de Ouro de Carreira. | Cortesia de Festival de Cannes, © DR

Na competição vão estar ainda e claro, ansiosamente aguardados filmes como: ‘A Hero’, do iraniano Asghar Farhadi‘Tout s’est bien passé’, do francês François Ozon, que junta três divas Sophie Marceau, Charlotte Rampling, Hanna Schygulla‘Titane’, de francesa Julia Ducournau (com Vincent Lindon); ‘Red Rocket’, do ‘indy’ norte-americano Sean Baker (‘The Florida Project’); ‘Petrov’s Flu’, do russo Kirill Serebrennikov, que pr motivos políticos está impedido de viajar, para fora da Rússia; ‘France’, do francês Bruno Dumont, com a bela Léa Seydoux; ‘Bergman Island’, da francesa Mia Hansen-Love, uma ficção que é uma suposta ‘peregrinação’ a Farö, a ‘ilha de Ingmar Bergman’, onde viveu os últimos anos e morreu o mestre); ‘Les Olympiades’, do francês Jacques Audiard (fimado a preto e branco no agora ‘chique’ 13º arrondissement de Paris (Rive Gouche)); ‘Les Intranquiles’, do belga Joachin Lafosse (fabuloso o seu ‘L’economie du couple’, 2016); e ainda na competição vão estar filmes de Joachin Trier (‘The Worst Person in the Word’), Nadav Lapid (‘Ahed’s Knee’), o vencedor do Urso de Ouro da Berlinale 2019; Catherine Corsini (‘The Divide’), Ryusuke Hamaguchi (o realizador de ‘Asako I e II’ e ‘Happy Hour’) que desta vez adapta Haruki Murakami em ‘Drive my Car’), Ildikó Enyedi (‘The Story of my Life’, com Léa Seydoux e Louis Garrel), Justin Kurzel (‘Nitram’), Mahamat-Saleh Haroun (‘Lingui’), Nabil Ayouch (‘Casablanca Beats’), Juho Kuosmanen (‘Compartment No. 6’) e, por ultimo Sean Penn, atrás e à frente das câmeras em ‘Flag Day’. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

José Vieira Mendes has 485 posts and counting. See all posts by José Vieira Mendes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *