Cenas de Um Casamento/©HBO

78º Festival de Veneza: ‘Cenas de um Casamento’

‘Cenas de um Casamento’, a série da HBO criada pelo israelita Hagai Levi que estreou aqui na Mostra, é um remake em inglês do filme e da série sueca de mesmo nome de Ingmar Bergman, de 1973. Muitas coisas aconteceram depois do original, e há muita gente que não o conhece, mas esta versão vale sobretudo pelas notáveis interpretações de Oscar Isaac e Jessica Chastain.

‘Cenas de um Casamento’ (294’), a série da HBO de 5 episódios, que vai estrear em breve, com Oscar Isaac e Jessica Chastain e que já vimos aqui na Mostra de Veneza é mais um remake em inglês do filme (e da série original) sueco de Ingmar Bergman.  Os principais temas de um casamento ou melhor de relacionamento amoroso são revistos e analisados à lupa pelo israelita Hagai Levi, com notáveis desempenhos dos protagonistas Oscar Isaac  e Jessica Chastain, — são também produtores executivos ou melhor financiadores — movimentando-se sempre em ambientes fechados da casa de família e com poucos exteriores. Cada episódio começa aliás nos bastidores no set e de uma rodagem executada durante a pandemia, — toda  equipa está de máscara — até ao splash da claquete. Aliás algo de inovador, que como já veremos procura diferenciar-se do original, mais teatralizado de Bergman. Os protagonistas são um casal americano contemporâneo (ele um académico, ela ligada à inovação digital); tirando algumas alterações (que não convém para já desvendar) a série procura mostrar a realidade da vida dentro de um casamento e tudo o que isso acarreta; e também quão difícil é uma separação, apesar do individualismo para que a sociedade contemporânea nos empurra. Porém com o lançamento desta nova versão na HBO, de ‘Cenas de um Casamento’ (294’), é importante lembrar o arquétipo bergmaniano de 1973, intitulado ‘Cenas da Vida Conjugal’,  com Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andersson, para melhor entender o quanto a série original (e mais tarde o filme), teve na época tanto impacto sobre um nível cinematográfico e sociológico. Provavelmente esta não vai ter o mesmo, mas é uma obra a não perder, porque muita gente nem sequer nunca teve acesso ao original. Contudo já foram encenadas várias peças nos palcos nacionais, a última recentemente no Teatro São Luis com direcção de Rita Calçada Bastos.

Lê Também:
78º Festival de Veneza: Uma Semana de Competição (1)

VÊ TRAILER DE ‘CENAS DE UM CASAMENTO’

Nos anos 70, Ingmar Bergman gravou seis episódios de 50’, para a televisão em 16mm, preferindo diálogos, close-ups e planos em ambientes fechados: uma opção teatral nítida (que aliás está na base de muitos dos seus trabalho e que a série da HBO procura distanciar-se) que penetra no fundo na alma dos personagens, que só aparentemente parecem felizes com suas vidas. A paixão que se desvanece e os sentimentos que mudam e minam até mesmo o que antes era dado como certo ou pelo menos equilibrado. A versão cinematográfica de Bergman, foi inflada para 35mm e reduzida para 167’, e fez então também um grande sucesso de crítica e público. O filme é aliás considerado uma das obras fundamentais do mestre sueco, que sempre afastou a ideia de ser uma espécie de catarse auto-ficcional. Bergman retomou esse trabalho trinta anos depois, para fazer uma continuação, agora intitulada Sarabande’ (2003), com os personagens mais velhos e aliás o seu último filme estreado nas salas de cinema. Woody Allen está também entre os realizadores mais influenciados pelas obras de Bergman e grande parte deste filme pode ser encontrada nas obras mais dramáticas do realizador nova-iorquino: Maridos e Mulheres’ (1992), e sobretudo em Uma Outra Mulher (1988) com Gena Rowlands  e Mia Farrow e com direção de fotografia de Sven Nykvist, um dos parceiros de Bergman.História de um Casamento a produção da Netflix de 2019 dirigida por Noah Baumbach, sem dúvida inspirou-se também na obra de Bergman. Quanto a esta versão HBO é efectivamente dirigida por Hagai Levi, um realizador, argumentista e escritor israelita, nascido em 1963, mais conhecido por dirigir a série dramática Be Tipul (2005-2008), que lhe valeu o Prémio da Academia Israelita. Estudou cinema e televisão na Universidade de Tel Aviv, onde se formou em co-produção com a longa-metragem ‘August Snow’ (1993). Esta nova série, por si criada, tem algumas nuances e desenvolvimentos interessantes, mesmo no que diz respeito aos personagens. Mas segue tanto quanto possível a linha narrativa bergmaniana, sendo que algumas questões que se colocam actualmente relativamente às problemáticas de género (e inversão de papéis), se  apresentavam e se viviam de uma maneira diferente, em 1973. E ainda bem! A nova série vale sobretudo pela enorme cumplicidade e desempenho de Oscar Isaac — o actor deste festival, pois é também o protagonista de The Card Counter e um importante personagem de ‘Dune’ — e da discreta contenção e beleza de Jessica Chastain. 

JVM 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *