Em “Border”, do dinamarquês de origem iraniana Ali Abbasi, uma solitária guarda da alfândega sueca constrói um complexo vínculo afectivo com um estranho viajante. “Yomedine”, do egípcio Abu Bakr Shawky é uma terna fábula e um road movie de um leproso à procura da família.
Depois de “Shelley”, apresentado na secção Panorama da Berlinale 2016, “Border”, a segunda longa-metragem de Ali Abbasi, apresentada no Un Certain Regard é uma estimulante e original combinação de conto de fadas, folclore/mitologia escandinava, investigação policial, romance trágico e drama existencial. “Border” é uma adaptação de um romance do escritor sueco John Ajvide Linqvist, que também participou no argumento e que entre outras obras é o autor de “Deixa-me Entrar”, livro que já foi duas vezes adaptado ao cinema, uma delas por Matt Reeves (2010), realizador de “Cloverfield”.

O início de “Border” dir-se-ia que é quase hipnótico e lento para o espectador, desenvolvendo-se depois numa narrativa complexa e ricamente construída, onde todas as peças aparentemente irregulares (e desajeitadas como a personagem principal) acabam por se encaixar umas nas outras. O objectivo é descobrir o verdadeiro ‘eu’ e a luta interna de uma feia e eficiente polícia de fronteira.
Toda a narrativa central assenta na extraordinária interpretação de Eva Melander — uma das actrizes mais conhecidas da Suécia, vimo-la entre outras participações, na série de televisão “A Ponte”. Tina (com Melander por detrás de uma máscara de latex), tem os olhos encobertos e umas feições ‘neandertais’, que lhe dão uma aparência de ter pertencido (aliás com o iremos ver) a um mundo perdido. Tina parece apesar do seu trabalho rotineiro bastante fechada na sua solidão. A polícia tem no entanto, um dom nato e um faro tão aguçado que faria inveja a Hannibal Lecter: na alfândega, Tina consegue farejar os culpados e quase pressentir a presença do mal. O realizador mostra-nos os talentos desta mulher, através de ‘close-ups’ com Tina em acção, de lábios trémulos e a contrair as narinas, quando passa alguém, e se aproxima algo que não é bom ou é ilegal.

Tina na verdade parece ser mais animal que humana: vive numa casa na floresta, que partilha com Roland (Jorgen Thorsson), um namorado irresponsável, que não lhe liga nenhuma, e com os três cães doberman dele, que passam a vida a ladrar, quando ela passa. No entanto, Tina parece mais feliz quando passeia descalça no musgo e se banha no lago da floresta próxima. No entanto, tudo vai mudar quando na alfândega Tina se cruza com o estranho Vore (Eero Milonoff) e sente que está a olhar-se ao espelho. É como se fosse uma espécie de reencontro entre os dois últimos sobreviventes de uma velha tribo. E a partir daí o filme agarram-nos de tal maneira ao ponto de estarmos presos nos personagens, nessa busca de identidades e curiosas histórias de vida, que parecem estar ligadas uma à outra, por alguma coisa que não sabemos.
Impressionante em “Border” é a forma como Abbasi consegue manipular e organizar os vários elementos do drama e os truques de vários géneros cinematográficos — ele próprio se auto-intitula um Wagner do cinema — numa orquestra e numa ópera bem composta e afinada. A presumível auto-descoberta de Tina desenvolve-se paralelamente com a investigação de um caso de pedofilia, com os seus problemas com o pai e com uma crescente e explicável atracção por Vore, sem que nunca o espectador se perca nestas várias pistas.
É notável a forma como Abbasi interpreta alguns dos elementos mais grotescos, góticos e fantásticos, combinando-os com um certo humor (negro é claro!) e com a estranha humanidade da situação de Tina, que faz lembrar aliás por vezes Wolverine.
Eva Melander é extraordinária na interpretação, sobretudo na forma como constrói as maneiras rudes, ásperas e animalescas de Tina, mas também como lhe introduz uma patética sensação de mágoa interior que revela decência e pureza, no que diz respeito a esse instinto inato e a esse aspecto que tem atrapalhado a vida da personagem. O actor finlandês Eero Milonoff — também obviamente mascarado — é um adequado e revoltado sedutor no papel do misterioso Vore. O complexo relacionamento entre estas duas almas perdidas é sem dúvida a grande alma de um filme de rara qualidade, ao ponto de o sentir-mos completamente diferente de qualquer outra coisa que temos visto aqui no Festival de Cannes e recentemente no cinema.

“Border” não é propriamente o tipo de filme que possa agradar à maioria dos espectadores, porque é obviamente estranho. No entanto, vai certamente atrair os cinéfilos pesados, mesmo os que não se revêem no género terror ou no fantástico; e sobretudo é um filme dirigido a todos os fanáticos dos géneros culto, mais alternativos ou até próximos do suspense.

Essa procura do eu e a ideia de uma fábula humanista acaba por ser comum a “Yomeddine”, uma primeira obra do egípcio Abu Bakr Shawky, apresentado na Competição Oficial. Abu Bakr Shawky estreou-se no longo formato com o documentário “The Colony” (2008), um filme sobre uma colónia de leprosos. Esta sua ficção “Yomeddine” protagonizada por um verdadeiro e deformado leproso (Rady Gamal) é uma aprendizagem do olhar para o espectador, onde a ideia de monstro de “Elephant Man”, surreal e absurdo é substituída por uma terna “Straight Story”, também à procura da família — numa referência aos filmes David Lynch. “Yomeddine” segue o périplo de um leprosos curado, mas deformado, que viaja acompanhado de um jovem órfão, numa velha carroça puxada por um burro, para procurar a família que o abandonou na colónia de leprosos quando era pequeno.

“Yomeddine” é um road-movie que procura libertar o personagem da sua estranheza, à medida que vai encontrando a sua identidade, o seu nome, a sua identidade, e o seu passado. A ideia é precisamente fazer com que o espectador entenda porque que é que a visão do rosto do ator no início, não é assim tão dolorosa. À medida que a história se vai desenvolvendo, a realidade é como coberta com um véu calmante de ficção. Nem toda a gente é bonita, mas toda a gente pode ser boa e gentil e o filme termina de uma forma paradoxal conciliado música e sorrisos, com se o mal estivesse ausente e onde todo sofrimento pode ser apagado por uma fábula humanista. Mas é um filme bonito e sincero. E apesar de tudo como em “Border”, este “Yomeddine não deixa de ser um feel good movie.
José Vieira Mendes (em Cannes)

