IndieLisboa ’26 | The Loneliest Man in Town, a Crítica
Ao longo das últimas décadas, Tizza Covi e Rainer Frimmel têm vindo a especializar-se num cinema retratista que perpetua a tradição do Neorrealismo Italiano com um travo de fabulismo austríaco. Seus primeiros trabalhos, enfatizaram a narrativa coletiva, tentando capturar várias vidas entrelaçadas em engenhos perdidos algures entre o facto e a ficção. “Babooska” em 2006 e “Der Glanz des Tages” em 2012 marcam um ponto de viragem na sua abordagem, recalibrando este cinema à imagem de pessoas cuja vida se define pela performance, pela curadoria da sua pessoa numa persona para entreter o público.
Primeiro, foram vários membros de uma trupe circense, depois os círculos de teatro vienense. “Mister Universo,” estreado no Festival de Locarno de 2016, levou a dupla de realizadoras até à fantasia de um domador de leões em busca de um ídolo perdido. Era ele o Mister Universo do título, um tal Arthur Robin que, em tempos, foi estrela do halterofilismo na Europa e, agora, se tornava numa toda mitologia através da câmara de Covi e Frimmel. Seguiu-se “Vera,” com que a Áustria competiu aos Óscares, e mais uma vedeta perdida nas vãs glórias do passado, mais um passo no desenvolvimento artístico e mais um modesto sucesso.
Só que, quando contemplavam a filha de um antigo ator Italiano, os cineastas levaram a flagrância da sua ficção mais longe. Vera Gemma interpreta-se a si mesma, mas a história da personagem vem de um livro que Covi havia publicado antes. Assim há uma tensão marcada nestes projetos, entre fazer o elogio e a lembrança dos seus sujeitos biográficos e enquadrar sua vivência numa fantasia cinematográfica. São trabalhos que tentam comunicar verdade através da mentira, que almejam vislumbrar a essência destas figuras caricatas através de um exercício em faz-de-conta. Nada podia ser mais apropriado para pessoas assim, cuja vivência sempre foi uma performance.
“The Loneliest Man in Town” segue o mesmo jogo, retratando aquele que é, quiçá, o melhor protagonista que Covi e Frimmel até agora encontraram. Será ele Al Cook, cujo verdadeiro nome é Alois Koch, um músico austríaco que dedicou a vida aos blues. Inspirado em Elvis, Cook fez a carreira à imagem do seu ídolo e assim moldou a sua figura perante a audiência. Até o inglês que lhe sai da boca se manifesta com um sotaque do sul dos EUA, um eco dessas muitas influências que, além do Rei do Rock, contam com muito músico Afro-Americano, todos eles presentes nas paredes e armários de Cook, cada canto e recanto do seu lar.
O cinema enquanto arte retratista, a verdade enquanto mentira.

De facto, o primeiro gesto do filme descreve esse afeto pelo passado. A câmara espera por Cook dentro de um prédio deserto, uma casa assombrada cujo único habitante é o músico virado fantasma de carne e osso. A época é festiva, pelo que o senhor nos surge com um pinheiro ao ombro, pronto para decorar a casa para o Natal. Mas, ao invés de subir as escadas na direção de uma domesticidade pacata, Cook e a câmara descem até aos calabouços da memória. Na cave do prédio, os tesouros do senhor cobrem o espaço e quase parecem aquecer a solidão das sombras do mesmo jeito que um abraço nos aquece o corpo.
No entanto, a estetização desta existência solitária tem os seus limites. Quando Cook nos presenteia com a música que tanto ama, as seguintes palavras fincam-se na mente do espetador como pregos na frágil carne: “I’m so tired of living all alone.” Também ecoam pelas muitas imagens da quadra passada num apartamento silencioso, com os 16mm do filme a tornar todas as velas em espectros cuja luz queima o celuloide e rasga a composição. Ainda mais quando lhe cortam a eletricidade e Cook se vê forçado a enfrentar o breu da noite com somente as velas decorativas como auxílio. Fiéis a princípios de realismo Baziniano, os realizadores deixam que estes momentos se estendam em tempo real.
Dito isso, também tornam as amarguras da vida em comédia. O corte da luz é encenado em jeito de piada seca e um tanto ou quanto cruel, como se as tensões do “Aquarius” de Kleber Mendonça Filho nos aparecessem com as tonalidades humorísticas de um Aki Kaurismäki. Faço a comparação à fita brasileira, pois o conflito narrativo é muito semelhante. O edifício em que Cook vive está na mira de um desenvolvimento imobiliário e ele é o único desgraçado que ainda não vendeu a casa e insiste em permanecer no prédio. Não que esse enredo domine a fita. Pelo contrário, Cook acaba por aceitar o fado de deixar o lar com relativa facilidade.
O que tal significa é que o resto de “The Loneliest Man in Town” se estrutura em torno da partida, assim como um desapego material com o seu quê de monástico. Por outras palavras, grande parte dos 86 minutos do filme são dedicados à venda dos vários objetos que fazem a companhia do músico e à preparação de uma viagem há muito esperada. Al Cook vai finalmente visitar os EUA, terra-mãe da expressão musical que tanto ama. Já não vai precisar de forçar o Danúbio a interpretar o Delta do Mississippi para sessões fotográficas ou sonhar com uma Memphis distante. Pelo modo desafetado, mas convicto com que Cook interpreta esta ficcionalização da sua identidade, a viagem toma um ar de peregrinação.
Al Cook é uma presença que fascina e apaixona.

Tudo é encenado, pois claro, e a excentricidade do músico não se pode entender como autêntica na sua totalidade. Não quer isso dizer que “The Loneliest Man in Town” é um filme desonesto ou uma exploração vampírica pela parte dos cineastas para com o seu protagonista. A colaboração sente-se na presença de Cook, no humor e na constante lembrança de que, na criação da sua persona Americanizada, já há muito tempo ele faz esta curadoria do eu num “eu” sempre a dois passos da realidade, o que quer que essa realidade seja. Vários momentos junto ao espelho reforçam a ideia, assim como justaposições caricatas de um cão ao lado de grandes gatos em loiça, o mundo natural e o fac-símile do mesmo.
Nem tudo vive nesse registo e ainda bem. Quando a teatralização do quotidiano começa a ser demais, algum detalhe quebra com o jogo. Penso, por exemplo, nos marfins amarelados de um piano, teclas tingidas pela memória física de mil e uma músicas nelas tocadas. Penso no uso de filmagens de arquivo, onde Cook e sua amada nos aparecem num diálogo que o tempo e a morte impossibilitaram no presente. Penso em todas as passagens marcadas por Cook na guitarra, a partilhar a sua música connosco e, nessa partilha, transmite algo de sentimento profundo, um rasgar do artifício do filme e perfeito contraposto à mise-en-scène.
Por seu lado, Covi e Frimmel pouco medeiam como o espectador encara Cook, construindo as cenas através de planos fixos e decoupage simplificada, um desapego tão deliberado quanto o despojamento que a personagem faz dos seus pertences. Os trejeitos mais humorísticos são onde a mão dos cineastas se pressente mais pesada, mas não chega a tombar o filme em paródia autorreflexiva. O único senão está no modo como “The Loneliest Man in Town” acaba por valer mais como um texto em diálogo direto com a restante filmografia dos realizadores. Como objeto singular, parece um pouco limitado.
Mesmo assim, foi ótima escolha para dar início a mais uma edição do IndieLisboa após ter já competido pelo Urso de Ouro na Berlinale deste ano. Por terras alemãs, ganhou uma menção honrosa por parte do júri de cinemas arthouse. Em Portugal, não está entre os títulos em competição, mas forma uma conversa preciosa com outros títulos do programa, nomeadamente todo o ciclo de Mockumentaries em mostra na Cinemateca Portuguesa. Tal como esses documentários fingidos, “The Loneliest Man in Town” indaga sobre a representação da verdade em cena e sobre como, quiçá, a abordagem mais verdadeira de todas passa pela admissão da mentira, da ficção, da estória.

