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No passado fim de semana (2 a 5 de julho), Lisboa recebeu a primeira edição da “Polska Mostra de Cinema Polaco”, numa coorganização entre a Embaixada da Polónia em Lisboa e a Associação Il Sorpasso (que já organiza eventos como a Festa do Cinema Italiano). A “Polska” terá ainda novas sessões em Vila Nova de Gaia a 9 e 10 de julho. O evento incluiu uma homenagem ao realizador Andrzej Wajda (pelo seu centenário) onde agora aqui analisamos o filme “Man of Marble” (1977).

O filme de Wajda estreou comercialmente em Portugal em 1980 sob o título “O Homem de Mármore” e, agora, foi exibida numa nova cópia restaurada em 2012. Trata-se de uma longa-metragem de ficção com um forte apelo documental, como diria o teórico Bill Nichols.

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Vale a pena ver Man of Marble?

A “Polska Mostra de Cinema Polaco” veio dar destaque a uma nacionalidade de cinema (ainda) pouco conhecida em Portugal. Apesar disso, é inegável a importância da obra de Andrzej Wajda na História do cinema mundial.

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Neste caso, “Man of Marble” é uma das suas mais importantes obras cinematográficas. E o facto mais curioso neste filme é que, se não conhecermos o seu contexto, podemos acreditar que o protagonista do mesmo, Mateusz Birkut (interpretado por Jerzy Radziwiłowicz), existiu mesmo. Birkut pode ser, efetivamente, uma personagem de ficção. No entanto, a sua história poderia ter acontecido no contexto histórico que o filme nos apresenta, na Polónia dos anos 1950, um período de fortes mudanças políticas.

Wajda constrói, assim, um filme de importância histórica em dois sentidos. 1 – importância para a História do Cinema. 2 – importância pela representação e análise de uma determinada realidade histórica. Este é, pois, um filme que vale a pena ver.

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Um falso documentário dentro da ficção

Man of Marble
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“Man of Marble” é um filme que, não conhecendo os bastidores, pode enganar o espectador. E, com o seu prelúdio, acreditamos efetivamente na ‘verdade’ do assunto que será abordado.

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O filme acontece, pois, em dois tempos narrativos distintos: anos 1950 e 1976. O ponto de partida é em 1976 com a personagem Agnieszka (Krystyna Janda), uma jovem realizadora que pretende investigar a vida de Mateusz Birkut que foi, no contexto do filme, um importante pedreiro nos anos 1950 e com quem fizeram filmes.

Agnieszka sente algumas dificuldades em avançar com o seu projeto já que se trata de um assunto bastante sensível na História do país. Ainda assim, ela não desiste e avança na sua investigação vendo os (falsos) arquivos das filmagens de Birkut para o cinejornal polaco (em certa medida, uma aproximação do “Jornal Português”). É aí que se lançam as dúvidas sobre a verdade/mentira que, mais tarde, também são desmascaradas à nossa frente quando ‘viajamos’ em ‘flashback’ até às filmagens nos anos 1950. E não ajuda o facto destes arquivos creditarem Andrzej Wajda como assistente de realização e, assim, acharmos que os ‘arquivos’ são do próprio realizador… Uma pequena brincadeira onde goza com ele próprio, portanto.

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Um filme pensado nas Novas Vagas

Man of Marble
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Embora Andrzej Wajda já filmasse desde os anos 1950, é inegável a importância da obra “Man of Marble”. A longa-metragem traz-nos realmente algo de novo e inovador e que se liga profundamente com as novas vagas de cinema que surgiram na Europa nos pós-II Guerra Mundial.

Mesmo realizado com mais de 30 anos de distância sobre o início do Neo-Realismo ou cerca de 15 sobre a Nova Vaga Francesa, este é claramente um filme inspirado por este tipo de novas linguagens contemporâneas no cinema. Especialmente, com a Nova Vaga Francesa e, em particular, com a obra de Jean-Luc Godard. Não quero com isto dizer que “Man of Marble” não seja original – porque é – mas sim que o filme se inspire em Godard pelo facto de, por exemplo, nos mostrar o dispositivo cinematográfico a ser desconstruído.

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Contudo, “Man of Marble” vai muito mais além de obras como “O Acossado” (1960) ou “Made on USA” (1966). Assim, a longa-metragem de Wadja, na verdade, não só desconstrói o dispositivo cinematográfico como também mostra o poder que o cinema pode ter para construir a sua própria realidade. Especialmente num ‘documentário’ que, por fim, se torna propaganda.

As imagens que Agnieszka viu no início da narrativa são, pois, mostradas nos seus bastidores quando ela se encontra com o realizador das mesmas. Toda a orquestração desta rodagem – que até inclui música ao vivo – é deveras caricata e patética – e Wadja consegue, pois, criticar de forma muito lúcida e clara o regime e o mito forçado que criou. Não esqueçamos, pois, que estávamos no auge da Guerra Fria e a influência da União Soviética era grande…

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O cinema magoado e politicamente ativo do pós-II Guerra

Precisamente pelo passado da Polónia, “Man of Marble” é também um filme que segue (embora mais tardiamente) a linguagem do cinema do pós-II Guerra Mundial. E fá-lo numa espécie de renascimento dos países de leste. Nesse sentido se justifica o olhar crítico sobre a realidade do país e sobre as influências que recebe dos países vizinhos. Assim, Wadja lança o debate consciente no espectador e preconiza o movimento sindical Solidariedade (através da busca de Mateusz Birkut pela justiça).

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Man of Marble – Longo mas muito bem realizado

Man of Marble
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Ao longo de “Man of Marble” vamos além da desconstrução do dispositivo cinematográfico e acompanhamos o depois do declínio de Birkut que foi, por fim, silenciado e caído em desgraça. E o facto é que a importância desta personagem-tipo é tal que 20 anos depois ainda é polémica.

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Agnieszka não se conforma com o facto de Birkut ter sido apagado e denegrido a simples estátuas de mármore. Por isso, nas suas conversas com os conhecidos de Birkut nem sempre utiliza os métodos mais corretos para recolher testemunhos. No entanto, o que é mais ‘ilegal’? Tornar a câmara e o microfone oculto ou tornar um homem um mito pela encenação documental? É essa a reflexão que “Man of Marble” nos deixa nas suas longas 2h40.

A duração algo longa do filme poderia ter algumas cenas mais curtas para tornar o filme mais ‘suportável’. Contudo, é inevitável que “Man of Marble” é mesmo uma obra-prima do cinema polaco onde a realização é sem falhas e os atores do filme são tanto estas personagens que acreditamos na sua existência.

Por fim, se não acompanhaste o filme na “Polska Mostra de Cinema Polaco”, sugerimos-te a compra do blu-ray na Amazon (com legendas em inglês).

Man of Marble

Conclusão

  •  “Man of Marble” (ou “O Homem de Mármore”) é, inegavelmente, uma obra-prima do cinema do realizador Andrzej Wajda.
  • Um filme ‘lírico’ que desconstrói o cinema e o poder das imagens, sempre de forma crítica.
  • Peca um pouco pela sua duração onde certas cenas podiam ser um pouco mais curtas. No entanto, nada está realmente a mais na narrativa e tudo tem o seu significado.

 

 

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