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O Hotel Palace, a Crítica | Roman Polanski regressa ao grande ecrã com Joaquim de Almeida em destaque

Joaquim de Almeida marca presença no elenco de “O Hotel Palace”, mais uma obra do premiado cineasta Roman Polanski.

Muito mal ouvi dizer deste último filme de Roman Polanski, “The Palace” (O Hotel Palace), 2023. Já agora, o seu a seu dono e adicionemos ao nome do realizador polaco um outro, o do seu compatriota Jerzy Skolimowski, co-argumentista e autor cuja abordagem crítica dos meandros mais criticáveis da sociedade podemos encontrar nesta história situada entre dois milénios e no seio da classe ociosa internacional, reunida num luxuoso hotel dos Alpes suíços.

O BUG DO MILÉNIO E O FÉTIDO GLAMOUR DA CLASSE OCIOSA…!

O Hotel Palace
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Tudo embrulhado no receio patético de que a passagem do ano de 1999 para o ano 2000 fosse o prenúncio do fim do mundo devido ao chamado bug do milénio, o infame Y2K. Terror informático que se revelou uma imbecilidade e que felizmente manteve o status quo dos zeros e uns, mas que infelizmente não acabou com a podridão reinante entre plutocratas e oligarcas, muitos dos quais ainda circulam por aí impunes apesar dos seus crimes de ganância, de narcísica vaidade e de falta de vergonha na cara ou, melhor dizendo, nas carantonhas que em geral são as deles depois de inenarráveis operações plásticas.

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Mas, repito, ouvi dizer mal e até da parte de críticos a que habitualmente dou crédito e que não nutrem qualquer inimizade ou repulsa pela obra de Roman Polanski. Todos eles ou quase reportaram-se a impressões recolhidas no Festival de Veneza onde o filme participou fora da competição internacional, e interrogo-me: será que os críticos em Veneza foram confrontados com uma subida dos preços que se praticam no Palazzo del Cinema, absolutamente obscenos, e ficaram mal dispostos e a embirrar com isto e com aquilo por dá cá aquela palha? Não me parece. Será que houve uma greve dos vaporetto, os autocarros aquáticos de Veneza, e o pessoal da crítica que se levanta cedo foi obrigado a ir a nado atravessando águas infectas e contagiosas até ao outro lado da Laguna? Enfim, não me consta, pois isso seria notícia de primeira página nos principais noticiários dos jornais de fait-divers e não me recordo de ver ou ouvir nada parecido com essa desgraça.




Será que no dia da projecção para a imprensa se abateu sobre o Lido uma daquelas borrascas que de vez em quando assolam a região de Veneza? Confesso que nem me dei ao cuidado de consultar as estatísticas sobre as qualidades ou vicissitudes do clima durante o certame. Mas essas diabruras da Natureza, para um verdadeiro homem ou mulher da crítica, nunca poderiam ser razões válidas. Por exemplo, em Lisboa a projecção foi realizada num dia bem agreste e cinzento e mesmo assim lá fui eu e alguns colegas deste ofício, disciplinadamente, ver o filme. E, pela minha parte, apesar de praguejar contra a chuva e o vento, saí satisfeito do visionamento. Então, o que se passou? Terão visto outro filme, outra versão diferente da que eu vi?

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Bom, podemos continuar com as nossas perguntas retóricas, mas digo-vos que se este filme não é a obra-prima de Roman Polanski, porque não é, se este filme está longe de ser um dos melhores filmes de 2023, porque não é, acreditem que já vi estrearem muitas obras que comparadas com esta não valem nada e no entanto poucos as demoliram como o fizeram relativamente a este “The Palace”. Não quero acreditar que seja perseguição ao realizador que sistematicamente vem sendo acusado de se portar mal com adolescentes e por isso há muitos anos não pode entrar nos Estados Unidos.

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Se for esse o caso, aconselho os que assim pensam a nunca mais elogiarem as qualidades de uma Leni Riefenstahl, nem a sua habilidade para glorificar os seus mentores e protectores nazis como sendo anjos bafejados por uma divina missão e não como anjos da morte que arrastaram a Europa e o Mundo para a Segunda Guerra Mundial. Naturalmente, não serve de atenuante, mas cinema é cinema, conhaque é conhaque. Mas vejamos então com que matéria se faz esta narrativa cáustica e cínica sobre os ricos, mais ou menos famosos, e aqueles que se julgam poderosos.




O leque não podia ser mais sortido: 1) Um actor porno italiano, Bongo (Luca Barbareschi), já retirado, mas que mantém os “documentos” em ordem como memória feliz de um passado de grande “penetração” junto do público e não só. 2) Um cirurgião plástico brasileiro, o Dr. Lima (interpretado por Joaquim de Almeida, que não se livra de encarnar pela enésima vez uma personagem latino-americana), acompanhado pela mulher que sofre de Alzheimer. Desde cedo fica rodeado por outras figuras femininas, antigas pacientes, que mais parecem manequins com máscaras dignas de pertencer a um museu dos horrores, aliás, não muito diferentes das figuras de cera que encontramos em certos canais do audiovisual em programas de carregar pela boca.

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3) Uma aristocrata francesa, Constance Rose Marie de La Valle (Fanny Ardant), que se faz acompanhar de um cão danado para a brincadeira e que não hesita em sujar os lençóis da cama da dona com as suas descargas intestinais. Pudera, a dita alimenta-o a caviar. Maldito seja o desperdício…! 4) Um velho magnata que não sabe o que fazer ao dinheiro, Arthur William Dallas III (John Cleese), embeiçado por uma jovem texana com medidas BBW e um Q. I. similar ao cachorro diarreico, a volumosa Magnolia (Bronwyn James). Esta em vez de um cão passeia uma simpática mascote, nada menos do que um pinguim (vivo). Coisa chic…! 5) Um arrivista que congeminou um plano para se aproveitar da confusão gerada pelo Y2K de modo a alcançar um patamar de riqueza que no momento só na aparência ostenta, Bill Crush (Mickey Rourke). Ele vai ser confrontado com a realidade dos factos e a possibilidade de ser pai (sem o querer) quando lhe aparece pela frente um alegado filho oriundo da República Checa, acompanhado da mulher e filhos, que o filme retrata como um autêntico saloio (aqui estou de acordo com algumas críticas) de forma cruel, muito cruel mesmo.

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6) Finalmente, a estes juntam-se outras criaturas, entre elas um bando de russos pós-soviéticos, filhos da restauração do capitalismo no etílico período de vigência do então Presidente Boris Yeltsin. Uma matilha da pior espécie, mais as suas mulheres de conforto, interessada em dividir os lucros dos seus negócios duvidosos com o ainda embaixador da Federação Russa na Suíça antes deste, muito provavelmente, ser destituído pelo novo poder que próximo do novo milénio foi parar às mãos de um certo Vladimir Vladimirovich Putin. No meio desta sopa de pedra não podemos esquecer a presença dos empregados e dos encarregados das diferentes áreas de administração do hotel, personagens que, por contraste, representam os seus papéis na perfeição e de um modo deveras saudável e civilizado.




Destaque para o Director, Hansueli Kopf (Oliver Masucci), cuja calma e serenidade provam que o caos pode ser gerido até ao limite dos limites. Descritas as personagens protagonistas, há que reconhecer que o argumento a partir da primeira sequência propõe uma muito ritmada descoberta quarto a quarto, corredor a corredor, refeição a refeição, caso a caso, das principais linhas de força que enriquecem esta comédia negra. E alguns episódios são exemplares na maneira como nos remetem para um imaginário muito próprio das cinematografias do Leste da Europa que há uns anos apostavam na demolidora crítica dos costumes e das instituições.

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Há ali ecos da Escola de Cinema de Lodz e da Polónia de outras eras, restos perdidos e achados das primitivas incursões cinematográficas de Roman Polanski, que assentavam numa rebeldia controlada e aqui e além um pouco louca, quer no domínio das longas quer no das curtas-metragens. De igual modo, sinto que a presença do realizador, argumentista, actor e pintor Jerzy Skolimowski (co-autor do argumento da primeira longa polaca de Roman Polanski, o belíssimo “Nóż w Wodzie” (A Faca Na Água), 1962) não acontece por acaso. Posso mesmo dizer que em alguns momentos sinto mais a sua capacidade de sátira do sistema capitalista que ali se bombardeia com mísseis de furiosa violência. São vagas sucessivas de sarcasmo, e essas suspeito que sejam mais dele do que da cabeça de quem assina a realização.

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Seja como for, regressando ao leque de perguntas retóricas, será que algumas pessoas ficaram agoniadas com a simplicidade e mordacidade do final? Para além do lixo produzido na festa de passagem do ano, um lugar-comum da representação “gráfica” dos excessos da raça humana, surpreendemos o cãozinho da francesa Fanny Ardant a sodomizar o pinguim da americana Bronwyn James. No visionamento de imprensa ouvi um suspiro e um reparo de alguém que estava na sala, do estilo “Minha Nossa Senhora”…! Bom, de facto já vi soluções mais interessantes para falar mal da classe ociosa ou lançar fel e vinagre sobre os detractores das proezas amorosas do realizador nonagenário.




Parece evidente, e até nada subtil, a referência sexualizada a algo que ficou de fora da narrativa proposta e que não se relaciona nem de perto nem de longe com a narrativa principal, mas sim com as alegadas acusações de libertinagem ao realizador. Ainda assim, não vejo nada de mal do ponto de vista ficcional em acrescentar essa provocação final. Falo, entenda-se, apenas do contexto da ficção proposta no filme. Para além do mais, o genérico final assegura que nenhum animal foi molestado durante a rodagem, logo, não há razão para nos apoquentarmos. Nas voltas e reviravoltas do argumento, pior até se pode considerar a sessão de sexo ao jeito da nobre arte de cavalgar um milionário, com Magnolia a espalmar o marido contra a cama, o já mencionado e podre de rico Arthur William Dallas III, com consequências caninas que não revelo para não estragar a surpresa e a partilha da “dor” de quem for ver o filme.

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E, sinceramente, mesmo que do acto zoológico e animalesco resultasse algo mais (já imaginaram o cruzamento entre um caniche e um pinguim?), o bicho fruto desse “amor” não seria pior do que a galeria de figurões que em “O Hotel Palace” parecem de mentira, mas que se virmos bem não se diferenciam muito das personagens reais que inspiraram os produtores nesta por vezes agradável e contundente comédia sobre o apocalipse, não da espécie humana, mas da dignidade humana.

E fora com o Y2K e quem o apoiar…!

O Hotel Palace, a Crítica
O Hotel Palace

Movie title: The Palace

Director(s): Roman Polanski

Actor(s): Mickey Rourke; Fanny Ardant; John Cleese, Joaquim de Almeida; Oliver, Masucci

Genre: Comédia, 2023, 100min,

  • João Garção Borges - 65
65

Conclusão:

PRÓS: Não há muito mais para acrescentar ao que podem ler na minha análise, a não ser o convite sincero para irem ver “O Hotel Palace” (co-produção entre Itália, Suíça, Polónia e França) num grande ecrã de uma sala de cinema e desfrutarem de uma visão muito particular sobre um mundo em perpétuo movimento onde circulam os mutantes e os monstrengos do capitalismo, os melhores e sobretudo os piores representantes da classe ociosa.

Naturalmente, se fosse um filme dirigido por Wes Anderson seria muito mais preciso na definição gráfica dos ambientes, mais requintado nas referências culturais, mais intelectualizado, decididamente mais POP e muito menos venenoso, apesar das doses de violento sarcasmo depositadas na composição de figuras pouco abonatórias por parte do homem e do autor que nos deu “The Grand Budapest Hotel” (O Grande Hotel Budapeste), 2014. Pois, mas Roman Polanski está mais voltado para a bruta visão da realidade circundante e as coisas são como são. Assim sendo, gosto de ambos… e viva a diferença…!

CONTRA: Nada de especial.

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