"A Besta" | © Les Films du Bélier

A Besta, a Crítica | Léa Seydoux arrebata o IndieLisboa

Em “A Besta,” também conhecido como “La Bête” e “The Beast,” Bertrand Bonello repensa um clássico literário de Henry James. Léa Seydoux protagoniza, entregando-se àquela que poderá ser a melhor prestação da sua carreira. O filme integra a secção Rizoma do IndieLisboa deste ano.

É curioso como, no mesmo ano, dois realizadores abordaram o mesmo texto de Henry James, produzindo adaptações que fogem à convenção e negam qualquer noção de lealdade literária. Primeiro, veio “La Bête dans la Jungle” de Patric Chiha, estreado na Berlinale. Em segundo lugar, “A Besta” de Bertrand Bonello, mostrado em competição no Festival de Veneza, onde a fita tão espantou como confundiu a crítica internacional. Já anteriormente explorámos o trabalho de Chiha, essa odisseia da discoteca, mas agora chega a vez da obra cuja versão do texto é ainda mais mirabolante, englobando o filme de época, um slasher tenebroso, e até a ficção científica.

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Encurralados entre ontem, hoje, e amanhã, somos levados pelos devaneios de Bertrand Bonello com Léa Seydoux e George MacKay a interpretarem as muitas vidas de um casal central. Mas, antes de se precipitarem as três histórias interligadas, o realizador confronta-nos com um prólogo ainda mais estranho que o subsequente filme. Perante um telão verde, Seydoux parece interpretar-se a si mesma, enquanto uma voz off-screen faz direção de cena. A situação proposta parece tirada de um filme de terror, com a interprete forçada a imaginar alguma ameaça que, na materialidade do ensaio, lhe é invisível.

A câmara aproxima-se de tal forma de Seydoux que a sua face consome o ecrã, olhos tristes e assombrados tornados gigantes no espaço de projeção. Em certa medida, sentimos que essa beleza enorme nos poderia devorar a todos, antes de devorar o universo, quiçá a realidade como a conhecemos. Num estado de simultâneo temor e fascínio, o olhar de Bonello regista a plasticidade tonal e deixa-se inebriar pelo múltiplo significado, uma ambrósia polissémica em forma de filme. Em arrebato total, exige-se um grito à atriz, mas tal som só será produzido no fim das duas horas e meia de história. “A Besta” é toda ela um prelúdio para esse grito.

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© Les Films du Bélier

Passada a estranheza da introdução meta-cinematográfica, Bonello precipita o espetador nas cronologias entrelaçadas de Seydoux e MacKay. Em 1910, ela será Gabrielle, uma pianista cujo marido preside sobre uma fábrica de bonecas de porcelana. Certa noite, nalguma festa da Belle Époque, ela cruza-se com Louis que, em tempos terá conhecido e partilhado segredos íntimos. O encontro traz à memória cinéfila a “Marienbad” de Resnais, mas o texto é Henry James puro e duro. Acontece que o homem acredita que algo terrível irá acontecer e ela é a única pessoa a quem ele confessou a premonição. Sem saberem o que virá, os dois esperam juntos.

Em 2014, Gabrielle é uma modelo com aspirações de atriz. Como muitas mulheres em semelhante fado, ela foi a Los Angeles, tentando vingar numa indústria onde caras bonitas há muitas e é difícil destacar-se na multidão. Certo dia, ela chama a atenção a Louis sem se aperceber, despertando uma obsessão assassina no homem virgem. Um autodeclarado incel, ele fala para as audiências do YouTube em jeito de Elliot Rodger, proclamando o ódio às mulheres e a supremacia do macho injustiçado por uma sociedade onde o feminino é poder opressivo. Quando, no evento de um terramoto, Gabrielle pede que Louis a leve a casa, estão traçadas as condições para uma tragédia.




Por fim, em 2044, as novas tecnologias permitiram aos humanos conhecer as vidas passadas e, num processo de purificação, eliminá-las do seu código genético. Muitos sujeitam-se a isso na esperança de encontrar trabalho num mundo onde a inteligência artificial domina a força laboral, condenando a gente orgânica a uma existência obsoleta. O propósito da purificação é excisar emoções, essas máculas na psique que nos tornam tão impressíveis, tão humanos. A única maneira de vingar nesta visão do amanhã é tornarmo-nos máquinas, perfeitas como só elas podem ser. Desesperada, Gabrielle concordou em sujeitar-se ao “apagamento.”

Contudo, no mesmo dia em que começa o processo, ela conhece Louis, também ele empenhado em destituir-se das vidas passadas e consequente memória genética. Algo os atrai um ao outro, mas ambos estão a condenar-se a uma vivência onde tais conexões serão impossíveis, um erro tecnológico superado pelo último update evolutivo. Se a cronologia mais antiga de “A Besta” recorda o cinema de Resnais e a parte de 2014 segue a tradição do slasher, então a ficção científica tem um teor de David Lynch em trajado futurista. Dito isso, não obstante as referências e legados estilísticos, Bonello é iconoclasta, voz singular no panorama cinematográfico.

@ Les Films du Bélier

Isso sente-se ao longo de toda a obra, seus leitmotif simbólicos e trejeitos mais macabros. O sentimento que algo terrível está para vir trespassa a literatura de Henry James para se reinventar em termos puramente audiovisuais, ganhando especial forma na intervenção de bonecas. Primeiro são as porcelanas modeladas em mimese a ideais humanos. Depois vêm robots de brincar, gravadores de voz incorporados em corpos de plástico para divertir a burguesia endinheirada. Por fim, no futuro há réplicas praticamente indistinguíveis da pessoa a sério, propondo um destino em que a tecnologia imitará o humano ao ponto de o tornar irrelevante. Mas será o artificial melhor que a pessoa real?

Ao longo do tempo, faz-se cópia da cópia, até que “A Besta” se desenrola como uma degradação digital em que cada passagem impõe a perda de algo essencial. Bonello não está para aqui com nostalgias, mas também não se deixa iludir pela promessa oca do progresso. À medida que o horizonte se expande, também novos limites se impõem à vida e a à imaginação, castrando e cortando, comprimindo as nossas almas até que nos resta pouco daquilo que, em tempos, fez de cada indivíduo um milagre por si só. Se a história é confusa para a mente racional, não será assim tão indecifrável para a emoção do espetador.

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Assim sendo, tal como o primeiro Louis infetou Gabrielle com o omino da desgraça, também “A Besta” nos transmite uma inquietação profunda. Saímos do cinema atarantados, perdidos e sem rumo, procurando significados que nos fogem das mãos como fumo. E nos nossos ouvidos, no âmago do nosso ser, ainda aquele grito reverbera, testamento ao poder do filme e à melhor prestação na vida de uma grande atriz. É o grito de Seydoux e de Gabrielle, o grito da Humanidade ao aperceber-se que, na busca do impossível, destruiu tudo o mais importante do seu ser. O sonho do Homem será o seu fim e a beleza d’”A Besta” é um fatalismo sem comparação no cinema moderno. Nesta angústia, também nós queremos gritar.

A Besta, a Crítica

Movie title: La Bête

Date published: 24 de May de 2024

Duration: 145 min.

Director(s): Bertrand Bonello

Actor(s): Léa Seydoux, George MacKay, Guslagie Malanda, Dasha Nekrasova, Elina Löwensohn, Marta Hoskins, Julia Faure, Kester Lovelace, Laurent Lacotte, Lukas Ionesco

Genre: Drama, Romance, Ficão-Científica, 2023

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“A Besta” é um dos trabalhos mais ambiciosos na carreira de Bertrand Bonello. Em certa medida, representa um culminar de algumas das preocupações mais acentuadas no trabalho do artista francês, desde a plasticidade do meio cinematográfico até à desfragmentação do sentido através da sua reprodução. Com três histórias entrelaçadas, três vidas em ecos sucessivos, Léa Seydouz e George McKay dão vida ao sonho da Humanidade e sua desgraça. São eles o fatalismo do cinema em carne humana, morrendo e perdendo-se em pesadelos narrativos até que um grito os desperta para o maior terror de todos.

O MELHOR: A visão de corpos flutuando numa morte tão bela quanto sinistra. A tensão de uma casa de vidro tornada na gaiola onde presa e predador lutam entre si. O olhar de Seydoux perante a desgraça final de Gabrielle, seu grito de desespero cósmico.

O PIOR: Usar diálogos copiados integralmente do manifesto de assassinos como Elliot Rodger parece-nos uma transgressão a mais para o engenho de Bonello. “A Besta” é um filme muito humano, mas nesse gesto, peca pela desumanidade.

CA

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