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Anora de Sean Baker, o striptease favorito à Palma de Ouro

Três anos depois de “Red Rocket”, o realizador norte-americano Sean Baker apresentou na Competição, o seu novo “Anora”, um filme burlesco sobre uma jovem stripper, que dá nome ao filme, num registo entre a comédia negra e uma crónica de gangsters ou da máfia russa. 

“Anora” ou melhor Ani (a excelente Mikey Madison, da série “Better Things” e de “Era Uma vez em Hollywood…”) é uma jovem que trabalha como dançarina, num conhecido clube de striptease de Brooklyn, Nova Iorque, não muito longe do ‘bairro russo’ de Brighton Beach.

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Ani, mora com a irmã num pequeno apartamento nos arredores da cidade e faz a sua vida normal, passando despercebida como qualquer rapariga da sua idade (26 anos). A sua vida muda completamente, quando no clube de striptease conhece Ivan/Vanya (Mark Eldenstein, que faz lembrar um pouco Timothée Chalamet) um imaturo e irresponsável jovem russo, quase da idade dela, pertencente a uma de família de oligarcas moscovitas.

Ansioso por se divertir nos últimos dias antes de regressar a casa, para começar a trabalhar a sério nos negócios da família, Ivan decide divertir-se à grande, desafiando Ani a passar uma semana com ele, em troca de um generoso pagamento.

A primeira parte do filme é uma sucessão de festas e de excessos dos dois jovens, que levam consigo um grupo de amigos, para desfrutarem de uns dias de prazer e loucura, que os leva até aos casinos de Las Vegas.


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Anora, de Sean Baker conquista o Festival de Cannes

Tudo isto, torna-se numa mudança para Ani proporcionando-lhe uma oportunidade para mudar de vida e ganhar dinheiro. Porém, esse universo de fingimentos e de excessos que até então constituía as férias de Ivan nos EUA, acabam por contaminar Ani, que passa a acreditar na sua boa estrelinha e mais ainda quando Vanya lhe propõe um casamento de papel em Las Vegas.

Sean Baker, como sempre, começa por lançar um requintado olhar sobre o sexo como forma de vida, além de como sempre objectivar um pouco o corpo feminino, o que é ainda mais evidente neste caso da sua protagonista, uma jovem stripper, que passou a acompanhante (escort), para quem o físico é a sua ferramenta de trabalho.

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Ultrapassado o ponto de inflexão da narrativa o casamento do jovens contra a vontade da família do jovem russo, a história recomeça, com uma corrida contra o tempo, em que Ivan, foge para fazer face à adversidade e ao desespero dos progenitores de este ter casado com uma profissional do sexo. Este é também o momento em que Ani vê a sua nova realidade desmoronar-se, com uma crueldade que só aumentará até ao desfecho final.

Porém, é com muito humor e com vários contrapontos narrativos que o realizador construirá na segunda parte uma alucinante e burlesca busca. Os novos personagens que entram, são todos cómicos e ridículos (sobretudo o excelente Youri Borisov, vimo-lo em “Compartimento Nº6”) e ironicamente são figuras que nada têm a ver com o nosso imaginário, do que serão as máfias russas.

A história de “Anora” — o verdadeiro nome de Ana, que curiosamente tem origens usbeques—  vai-se sobrepondo em várias camadas narrativas, através dessa busca incessante dos ‘empregados russos’, por vários lugares da cidade, no meio da noite, para encontrar Ivan, na verdade um menino-rico e malcriado.

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É neste momento que Ani, que os acompanha, se mostra uma personagem mais complexa do que parecia à primeira vista, deixando explodir a sua fragilidade, depois de inicialmente demonstrar força, coragem e uma arrogância excepcionais.

O final, absolutamente surpreendente, manifesta um enorme desprezo a essa apologia da força e do dinheiro, mas também do instinto de sobrevivência da rapariga, que pairava até então.

Para além das qualidades de escrita do argumento, destaque vai para a qualidade da interpretação de Mikey Madison, que desenvolve uma gama impressionante de emoções e registos. Ela é por sua vez objeto de desejo, uma mulher amorosa e independente, mas também é devotada ao seu amor, rebelde  e depois, finalmente, frágil e com pés de barro, quando tudo se vira contra si.

“Anora”, de Sean Baker, é um filme sensível e profundo, que brinca com o espectador levando-o num voo noturno que leva consigo uma luz vermelha forte e ofuscante das noites do negócio do sexo.

A última cena do filme é absolutamente comovente, revelando ao mesmo tempo, uma ternura inesquecível e uma beleza azeda. É mais um trabalho que vem reiterar que o cinema de Sean Baker está entre os mais interessantes de produção independente nos EUA da atualidade. E aqui pode estar mais um candidato à Palma de Ouro.

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Anora, em análise

Movie title: Anora

Movie description: Anora ou Ani, é uma jovem stripper do Brooklyn, que se transforma numa Cinderela moderna quando conhece o filho de um oligarca russo. Sem pensar, ela casa com entusiasmo com seu príncipe encantado; mas quando a notícia chega à Rússia, o conto de fadas torna-se rapidamente ameaçado: os pais do jovem partem para Nova Iorque com a firme intenção de anular o casamento…

Country: EUA

Director(s): Sean Baker

Actor(s): Mikey Madison, Mark Eydelshteyn, Yura Borisov

Genre: Drama

  • José Vieira Mendes - 80
80

Prós e Contras

O melhor: Mikey Madison interpreta a protagonista Ani, com muita garra e graciosidade. Apesar de alguma estridência e excesso a sua personagem mantém-se ao longo do filme muito cativante, transformando-se numa heroína inusitada.

O pior: A tendência que o realizador tem quase sempre em objectivar o corpo feminino, embora de uma forma requintada e respeitosa.

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