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Lovecraft Country, primeira temporada em análise

“Lovecraft Country” leva-nos numa aventura onde o mistério, a magia e o mundo real se unem, para nos mostrar que os verdadeiros monstros não existem nos filmes de terror, mas sim dentro de nós.

Atenção este artigo contém pequenos spoilers da série!

Preparem-se porque a viagem vai ser turbulenta. “Lovecraft Country” é uma aventura muito diferente do que estamos habituados neste tipo de produções, apresentando-nos vários elementos que separados podem não fazer muito sentido, mas num todo nos dão uma lição sobre racismo, misoginia e homofobia como nenhuma outra, misturando elementos do folclore de horror, como monstros, espíritos e cultos mágicos, mas já lá vamos. Queria em primeiro lugar salientar que vale muito a pena ver esta série pela narrativa em si, mas também para nos mostrar um mundo que conhecemos através de documentários, mas que aqui é retratado na perfeição, quase como se estivesse a acontecer diante dos nossos olhos. Não foi assim há tanto tempo atrás que estas situações eram uma realidade inquestionável e sim, estou a falar da segregação racial das Leis de Jim Crow ou do Massacre de Tulsa, que revelam o sofrimento absurdo que era infligido aos negros sem qualquer motivo aparente, vivendo num constante sentido de alerta onde os verdadeiros monstros eram os caucasianos que sem sofrer qualquer punição, destruíam muitas vezes o trabalho de uma vida só por prazer. Não nos podemos esquecer que há pouco mais de 60 anos atrás, ser negro era automaticamente um passaporte para banir pessoas de locais públicos, ou designá-los a sítios específicos, longe dos outros, simplesmente por terem um tom de pele diferente. Realidades que no fundo não são desconhecidas para os nossos pais e por isso vale muito a pena aprendermos com os erros do passado e caminharmos cada vez mais no sentido da verdadeira inclusão de todos.

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O horror cósmico misturado com ficção científica e toda esta dura realidade dos anos 50 unem-se para nos mostrar como o ódio e a discriminação racial ou de género nunca poderão fazer a sociedade evoluir para um bem maior. Neste sentido temos duas personagens com destinos diferentes, mas que nos mostram caminhos em comum. Estou a falar de Christina Braithwhite (Abbey Lee), a filha do líder de uma organização secreta, que se baseia na magia de um culto completamente misógino, onde as mulheres não podem ter um lugar de destaque. Christina tem a ambição e para isso faz tudo ao seu alcance para lá chegar, mesmo que isso signifique causar o caos e a injustiça que ela sente, perante os outros. Este é um dos casos que nos mostra como a misoginia pode transformar todo o percurso de vida de uma pessoa e que, ao ser barrado à partida algo que seria seu por direito, só por ser mulher, faz com que caminhe por terrenos muito perigosos e que distorcem completamente a sua verdadeira natureza, tornando-a na antagonista de toda esta história. Por outro lado, ainda nesta temática, temos Ruby Baptiste (Wunmi Mosaku) que através da magia experiencia o privilégio branco e vê com os seus próprios olhos aquilo que lhe foi negado pelo tom de pele. Para além disso, através dos comentários sem filtro das pessoas caucasianas com quem vai convivendo e aquilo que experiencia ser a realidade “do outro lado da barricada”, consegue finalmente perceber que o mal não está nela, como sempre lhe foi imposto pela sociedade, mas sim nos outros, que não lhe dão uma oportunidade só por ser negra.

Lovecraft Country
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Os pontos fortes desta série caminham assim de mãos dadas mas não se ficam por aqui. Centrado num estilo híbrido que nos leva pela fantasia, ficção científica e terror, “Lovecraft Country” foi criado por Misha Green e inspirado na obra de Matt Ruff com o mesmo nome. Dividido em 10 episódios, cada um apresenta um foco principal que nem sempre é a narrativa central da história. Essa aliás é-nos contada no primeiro episódio, onde ficamos a conhecer Atticus, ou Tic, interpretado por Jonathan Majors que se vê aqui nomeado pela primeira vez aos Emmys, Letitia ou Leti, pelas mãos de Jurnee Smollett que também se estreia na lista dos prémios de televisão e o querido e amado Tio George (Courtney B. Vance). O trio parte atrás de respostas, depois de uma carta misteriosa escrita pelo pai de Tic, ligada aos antepassados da família da sua falecida mãe. Esta obsessão por parte de Montrose (Michael Kenneth Williams) não vem ao acaso. Ele sabia que a sua mulher escondia um passado de magia que corria nas suas veias e tentou a todo o custo perceber porque é que a sua família estaria implicada e em eminente perigo. Ao tentar proteger-se, acabou por envolver ainda mais quem inocentemente o tentou encontrar, acabando por viver uma aventura que se revela muitas vezes grotesca, envolta em fantasia e horror.

Lovecraft Country
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Como se costuma dizer, ao início estranha-se e depois entranha-se e neste caso foi mesmo assim. Apesar de muitas vezes parecer sem sentido, uma vez imerso neste universo não se quer mais sair. E porque é que eu digo isto? Porque acredito que tal como eu, ao ver o trailer oficial, podes ter pensado que esta seria uma série de horror generalista mas rapidamente percebes que é algo mais além, levantando mais questões do que propriamente respostas. E isto pode ser bom, para alguns, para outros pode ser o mote para desligar a TV e não voltar. Confesso que fiz parte do segundo grupo. Senti que o trailer se focava demasiado no lado do terror e suspense e não fazia jus ao conteúdo da série, mais fantasioso, mas decidi dar uma hipótese e não me arrependo nada, por muito que no final do primeiro episódio sentisse que estava dentro de uma mistura estranha entre “Harry Potter” e “Vampire Diaries”. Esta “estranheza” por assim dizer, por um lado até é bastante refrescante. Apesar do ser humano estar programado para se desvincular de tudo o que acha desconfortável, a verdade é que se o conseguirmos aceitar, pode ser que encontremos uma pérola em bruto e foi o que aconteceu aqui. O facto dos episódios nem sempre estarem ligados à trama principal, deu o destaque merecido a algumas personagens que até ali estiveram em pano de fundo e conseguem conectar-se à história principal de forma muito suave, como é o caso de um dos meus favoritos, o 7º episódio intitulado “I Am.” que mistura ficção científica com o empoderamento feminino espetacularmente interpretado por Aunjanue Ellis, com a sua personagem Hippolyta que tinha ficado nos bastidores até então.

Lovecraft Country
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Em termos técnicos, “Lovecraft Country” não desaponta, com uns efeitos visuais dignos de um filme de Hollywood com um orçamento de milhões. Os Shoggoth, os espíritos macabros da casa mal assombrada e a transformação grotesca de Ruby e Christina (da qual prefiro que vejam sem adiantar informação, para não perder a sua espetacularidade) são alguns dos efeitos meticulosamente trabalhados nesta produção e que apresentam um resultado final sem falhas. O desempenho de Jonathan Majors e Jurnee Smollett, mas também de Michael Kenneth Williams que tem um papel fundamental na desmistificação do homem homossexual, de Aunjanue Ellis que passa do papel de esposa, dona de casa para uma das mais importantes personagens no desfecho desta história e ainda alguns easter eggs e cliffhangers colocados no sítio certo, mantém-nos presos a este mundo, que infelizmente não teve luz verde para a segunda temporada pela HBO. Contudo, espero que as 18 nomeações aos Emmy deste ano façam repensar esta decisão, pois é só mais uma confirmação de que esta narrativa é necessária e apreciada por muitos de nós que olham para lá da superficialidade do universo bizarro que é inicialmente apresentado.

TRAILER | VISITA O LADO OCULTO DE “LOVECRAFT COUNTRY”, EM EXCLUSIVO NA HBO PORTUGAL

Lovecraft Country, primeira temporada em análise
Lovecraft Country Poster

Name: Lovecraft Country

Description: Uma nova e empolgante série dramática da HBO que segue a busca de Atticus Freeman pelo pai desaparecido – uma jornada que o leva a ele, à sua amiga Letitia e ao seu tio George numa viagem transcendental pela América de Jim Crow dos anos 50.

  • Filipa Carvalho - 79
79

CONCLUSÃO:

Com um estilo híbrido entre terror, fantasia e ficção científica, esta série faz uma ponte importante entre o que é fruto da nossa imaginação e os factos reais, cada vez mais importantes de ser debatidos na sociedade contemporânea. “Lovecraft Country” é único na sua abordagem e merece toda a nossa atenção, levando-nos numa viagem inesquecível no estilo de horror cósmico criado por H.P Lovecraft e adaptado na obra de Matt Ruff que nos é apresentado agora no pequeno ecrã pelas mãos de Misha Green.

Pros

  • A abordagem de temas importantes como o racismo, misoginia e homofobia
  • O terror presente em alguns episódios, com todos os elementos grotescos sem censura
  • Os efeitos visuais meticulosamente trabalhados com um resultado final sem falhas
  • A atuação de Jonathan Majors e Jurnee Smollett

Cons

  • Alguns episódios têm um ritmo mais lento que o normal, podendo afastar a atenção do espectador
  • O trailer podia ter revelado a característica mais fantasiosa da série, para que o espectador não tenha um “choque de realidade” quando vê o primeiro episódio.
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Filipa Carvalho

Metade humana, metade geek, tudo culpa do meu avô que todas as semanas, à segunda-feira, me levava ao cinema à sessão da tarde no Fonte Nova. Depois vieram os vizinhos com as NES e as DreamCasts e o bichinho continuou. Adoro uma boa série de comédia que me faça rir, um filme de terror que me deixe assombrada para o resto do dia e um jogo que me tire o sono. Também faço lives na Twitch e desabafo no Twitter onde... bem.... o que dizer? Vocês conhecem como funciona o Twitter

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