Death Stranding © PlayStation

Death Stranding | Mono no Aware e a contemplação

[Este artigo pode conter spoilers] Hideo Kojima arriscou e criou algo que o próprio considerou como um novo género de videojogos e a verdade é que “Death Stranding” possui elementos raramente encontrados neste universo. Depois da análise, partilhamos contigo outra abordagem que esperamos ajudar-te a compreender um pouco mais do que sentimos estar nas entrelinhas da obra. 

“Death Stranding” é um título que muitos acreditavam ser o grande retorno de Hideo Kojima, uma oportunidade do artista criar sem limites, sem regras, sem obstáculos. No entanto, acredito que muitos dos fãs não compreenderam, na altura, o que isso significaria. Talvez ninguém tivesse percebido completamente, nem o próprio autor.

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A verdade é que esta foi uma experiência diferente do que a que estamos habituados e a razão pode estar escondida no próprio Mono no Aware: a arte da contemplação.

Mono no Aware é um conceito nascido no Japão que, apesar de estar presente no Shintoísmo, transcende por completo a questão da religião, fazendo parte da vida dos japoneses, da sua arte, das suas relações e da sua forma de ver o mundo. O exemplo mais prático desta filosofia é a queda das pétalas de flor de cerejeira, um evento que todos os anos é assistido tanto pelos locais quanto por muitos estrangeiros que se deslocam ao país para presenciar e apreciar este momento: a efemeridade da vida.

A árvore repleta de flores, belas e delicadas, vive uma mudança drástica durante a Primavera, quando as pétalas caem, uma a uma, cobrindo o chão com uma “neve rosa”. As pessoas, curiosas, assistem pacientemente a essa passagem melancólica da vida para a morte. Isto é Mono no Aware, a contemplação da vida e a aceitação da mudança.

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Death Stranding © PlayStation

Por um lado, este conceito explora o modo como devemos apreciar cada momento do presente, pois este pode ser o último. Por outro, Mono no Aware sublinha a importância de aceitar a mudança, o início de algo novo que viverá independentemente daquilo que outrora foi, bela até ao dia em que dará lugar a outro algo e assim sucessivamente, ao longo do tempo, para sempre, até o para sempre terminar e dele nascer algo mais. Isto é “Death Stranding”: a contemplação da vida e a aceitação da mudança.

Quando conhecemos Sam Porter Bridges, somos apresentados a um mundo à beira da ruptura, assistindo contemplativamente a todo o processo: à queda do mundo e à sua passagem da vida para a morte, como aquela pétala de flor de cerejeira. É aqui que, acredito, muitos dos jogadores se perderam, desejando um título repleto de ação quando o propósito deste é, voluntária ou involuntariamente, levá-los a uma história profunda e a algo mais do que o que normalmente encontramos em videojogos como “Metal Gear Solid”, uma obra que apesar de possuir elementos filosóficos bem vincados, se centra num gameplay de ação, onde o objetivo é cumprido e o mundo salvo.

Curiosamente, é interessante compreender como mesmo dentro do mundo de “Death Stranding” existem várias formas de lidar com o seu presente e com o futuro do qual não irá escapar. Umas personagens tentam de tudo para travar a sexta grande extinção, enquanto outras lutam para que esta chegue o quanto antes pois não existe razão para adiar o inevitável. No entanto, o final é diferente: tanto o vilão quanto o herói vencem e o jogador é deixado para compreender sozinho o porquê.

A resposta a esta questão está em certa parte na própria Bridget Strand, uma mulher que aceita que o mundo irá acabar mas que nem por isso desiste dele, lutando para que o tempo que lhe resta seja dedicado à mudança e à evolução. No final, o mundo vai sim acabar e todos o sabem mas, no fundo, todos irão observá-lo contemplativamente, aproveitando cada alegria que ainda têm por viver, aceitando a sua efemeridade, aceitando a mudança, aceitando que o para sempre não é um processo linear.

Esta é a razão que me faz adorar “Death Stranding”. Não se trata simplesmente de um visual realista criado com tecnologia de ponta, de um gameplay que permite jogar de forma mais agressiva ou mais stealth, de mecânicas que me obrigam a analisar bem o trajeto assim como os acessórios e a carga que levo, de personagens criadas ao detalhe com histórias únicas que me fizeram ler todas as entrevistas e todos os e-mails, do mundo vivo e em constante mudança graças à presença subtil de outros jogadores. O que me fez adorar o novo projeto de Hideo Kojima é a oportunidade de caminhar pelo mundo ao som de uma música tranquila, de apreciar o presente apesar das dificuldades, a aceitação de que o mundo vai “acabar” independentemente do que eu fizer mas que nem por isso deixa de ser belo, um final verdadeiramente feliz.

Agora ficamos curiosos para saber a tua opinião? Terá sido um erro a criação de um jogo tão diferente do habitual? Ou gostarias de experimentar mais títulos como este?

Ângela Costa

Mestre em Cinema pela Universidade da Beira-Interior, sou apaixonada pelo cinema japonês e toda a cultura que o envolve. Adoro igualmente fotografia e se tiveres curiosidade passa no meu Instagram ;) Música e videojogos são dois outros grandes interesses.

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