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Doclisboa 2021 | All Light, Everywhere, em análise

“All Light, Everywhere”, uma narrativa norte-americana da autoria de Theo Anthony, insere-se na secção “Da Terra à Lua” do Doclisboa 2021 e apresenta-nos um trabalho reflexivo acerca do uso da tecnologia, vídeo e fotografia na acção policial dos EUA.

O documentário faz-se de várias vertentes, desde a apresentação da história da fotografia na criminologia até à apresentação da competitiva tecnologia que permite aperfeiçoar a vigilância no Século XXI.

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Esta obra documental procede a uma exploração das narrativas partilhadas pelas câmeras, forças policiais e justiças. Partindo da presunção de que as tecnologias de vigilância se encontram cada vez mais fixadas na nossa vida quotidiana, “All Light Everywhere” coloca então um conjunto de questões fundamentais: qual a origem do fenómeno fotográfico, de que forma é que a sua história se interliga com a história da polícia e da justiça criminal, e como é que o uso atual destas tecnologias afeta os direitos e privacidade do cidadão comum?

Adicionalmente, o filme coloca em causa a objetividade do observador, estudando tanto os preconceitos inerentes à percepção do ser humano como aqueles que se impõe à lente.  “All Light Everywhere” pensa desde os primórdios da tecnologia fotográfica e fílmica até às consequências não só presentes, mas futuras do uso de tais dispositivos. A sua narração sucede-se via voz off, uma voz intencionalmente fria, robótica, distante. A banda-sonora é excessivamente fantasmagórica, quase como se estivéssemos focados não num objetivo documental mas numa narrativa de suspense.

Quanto à estrutura da própria longa-metragem , há que reconhecer que “All Light, Everywhere” é francamente mais interessante para um “leigo” no campo da história dos audiovisuais. Para quem tenha tido aulas de Cultura Visual, Fotografia e História do Cinema, grande parte do que aqui nos é narrado soará repetitivo, familiar e desprovido de pontos de vista adicionais.
Lá está, o interessante deste filme é essencialmente a parte que se prende com o presente e com a exploração das novas potencialidades das tecnologias de vigilância. Nomeadamente, é acompanhada a introdução de câmaras corporais na força policial da problemática cidade de Baltimore, onde a atividade criminal e o abuso policial se controlam mutuamente, a partir de 2020, com a introdução obrigatória destas tecnologias.
Um dos momentos mais interessantes de “All Light Everywhere” é precisamente a viagem aos escritórios e fábrica da Axon, a fabricante de tasers policiais e câmaras corporais. Somos guiados, nestas instalações, por um funcionário caricaturalmente fanático pelos produtos da empresa, à medida que estes nos são apresentados e exemplificados. Aqui ficamos rendidos aos encantos e potencialidades desta perversa tecnologia que nos é vagarosamente apresentada.
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O problema de “All Light, Everywhere” é que a componente humana nunca sobressai, aliás, é mesmo essa a nítida intenções crua e dura dos criadores. Mas por muito evidente e intencional que possa ser esta abordagem, a verdade é que a remoção total da emotividade impede a criação de um elo de ligação entre objetivo fílmico e espectador. Assim, acabamos com uma peça interessante, enigmática, corajosa, arrojada, mas ultimamente esquecível.

 

“All Light, Everywhere” repete no dia 30, sábado, pelas 21h45, na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge. Quanto ao Doclisboa 2021, prolonga-se apenas até domingo, em seis salas da capital. 

All Light Everywhere, em análise
Da Terra à Lua All Light Everywhere

Movie title: All Light Everywhere

Movie description: All Light, Everywhere analisa a história que câmaras, armas, policiamento e justiça partilham. Numa altura em que as tecnologias de vigilância fazem parte da vida quotidiana, o filme questiona a complexidade de um ponto de vista objectivo, explorando os vieses inerentes tanto à percepção humana quanto à lente.

Date published: 30 de October de 2021

Country: EUA

Duration: 109'

Director(s): Theo Anthony

Genre: Documentário

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  • Maggie Silva - 66
66

Conclusão

“All Light, Everywhere” sugere mais perguntas do que resposta ao colocar em causa a nossa crescente dependências relativamente às tecnologias de vigilância que mergulham, de forma progressiva, no nosso quotidiano.

Pros

  • A apresentação de todos os antecedentes da atual tecnologia de vigilância de ponta;
  • A inclusão da perspectiva dos civis que serão afetados pela utilização da tecnologia e o nítido respeito demonstrado pelas suas opiniões e privacidade;

Cons

  • A natureza mecânica e desprovida de emoções da narrativa;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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