Edgar Medina: Os Mistérios de ‘Causa Própria’

‘Causa Própria’ é a nova aposta da ficção da RTP1, que estreia já a 5 de janeiro (quarta). Em entrevista com um dos criadores, fomos investigar os mistérios de como fazer uma série (bem) portuguesa e de sucesso, para as grandes audiências nacionais e internacionais.

Trata-se de mais uma narrativa de ficção televisiva da autoria de Edgar Medina (‘Sul’) e Rui Cardoso Martins, constituída por 7 episódios realizados por João Nuno Pinto (‘Mosquito’), com Margarida Vila-Nova e Nuno Lopes nos principais papéis. A história cruza os bastidores dos tribunais e a investigação de um crime, numa pequena cidade portuguesa, fora dos grandes centros urbanos e onde as pessoas e famílias procuram agora outras formas alternativas de vida e outro tipo de equilíbrio. Mas isso não esconde os mesmos mistérios, o trabalho da justiça, a violência, a xenofobia, homofobia e a criminalidade subterrânea. Tudo isto é revisto em ‘Causa Própria’. Porém, esta série policial, intercala ainda com alguns dos casos relatados em ‘Levante-se o Réu’, de Rui Cardoso Martins, que ao longo de mais de vinte anos acompanhou muitas sessões públicas no tribunal, reproduzindo-as primeiro nas crónicas do jornal ‘Público’ e mais tarde em livro. As histórias oscilam entre a comédia e o drama, com a justiça a servir de fio condutor. E por isso ‘Causa Própria’ é também um retrato cirúrgico de um Portugal da actualidade e do funcionamento da nossa justiça. Margarida Vila-Nova interpreta Ana, uma juíza residente numa pequena cidade portuguesa, prestes a colocar em causa todos os seus valores e ética profissional, por causa de um homicídio que lhe é próximo. Rodada nas Caldas da Rainha, Foz do Arelho e Sintra, esta nova série da RTP, onde a realidade, às vezes, ultrapassa a ficção, conta além de Margarida Vila-Nova e Nuno Lopes, com um elenco onde se destacam nomes como Catarina Wallenstein, Ivo Canelas, Maria Rueff, Adriano Carvalho, Afonso Laginha, Sílvia Chiola e Luís Lucas. Todos aliás em magníficas interpretações. Já vimos os 7 episódios e  à conversa com Edgar Medina, um dos criadores e dono da Arquipélago Filmes, fomos tentar desvendar todos os mistérios, de como fazer uma série policial portuguesa para grandes audiências. Na RTP1 às quartas e disponível também na RTPlay.

Margarida Vila-Nova
Margarida Vila-Nova é uma juíza com fortes valores e ética. ©RTP

1) O ponto de partida de ‘Causa Própria’, foram as crónicas ‘Levante-se o Réu’ do Rui Cardoso Martins, que também assina este argumento de ‘Causa Própria’. Porque as transformaram num projecto algo diferente: uma série de investigação policial, porém combinada com as crónicas de tribunal de casos comuns?

O projecto teve muitas variantes. O primeiro projecto que apresentei à RTP, ainda antes do ‘Sul’, era adaptar precisamente as crónicas do Rui Cardoso Martins para ficção. Eu tinha acabado de abrir a Arquipélago Filmes e queria produzir séries de ficção com significado, liberdade de criação e inseridas neste novo contexto de produção internacional.

2) Mas, em concreto, o que alteraram no projecto?

A ideia inicial era mesmo produzir cerca de 30 episódios curtos (menos de 30 minutos cada) a partir das crónicas. Um episódio por caso judicial. Era um grande desafio até porque o grande valor das crónicas são o seu discurso interno, o olhar do Rui, a forma como  “lê “ as personagens e os conflitos na sala de tribunal.  Ou seja, eram dificilmente dramatizáveis sem recurso intenso a “voz off”. Mas tudo mudou. Criámos antes um grande arco narrativo (em sete episódios) sobre uma juíza de província que vive um grande conflito ético. 

VÊ TRAILER DE ‘CAUSA PRÓPRIA’

3) Gostas muito do género policial?

Não.

4) Estava convencido que sim, porque ‘Sul’ e agora ‘Causa Própria’, são claramente histórias policiais de investigação de um crime….

Há muitas pessoas que me perguntam pelo meu fascínio pelas histórias do género criminal. Diria que o meu interesse é tão grande como o de qualquer outra pessoa, mas  que gosto trabalhar este tipo de género. Por duas razões. A primeira é que é são estilos com uma forte tradição cultural, histórica e estética e que gosto muito de brincar com as convenções – fascina-me. A segunda, é que este tipo de género permite-nos colocar personagens em situações muito difíceis, muito extremas, e que é através da forma como as personagens lidam com estas dificuldades, que obtemos alguma verdade sobre elas e sobre o mundo. Acho que faz parte do meu ofício ser cruel com os personagens. Não são propriamente os mortos, as investigações, as peripécias que me interessam  mesmo nas histórias. São as personagens e pouco mais. E acho que isto é assim em todas as grandes obras dentro de géneros muito definidos. O que importa num ‘Johnny Guitar’ não são os tiros (que, aliás, são poucos) ou mortes mas é a magnifica história de amor entre aqueles dois marginais. O que é o ‘Rio Bravo’ mais do que uma história de amizade de quatros homens que têm de aprender a viver em conjunto para sobreviver? Sim, são westerns, mas não é o “western” não que é a verdade desses filmes.  

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5) Se ‘Sul’ era uma série ambientada em Lisboa, vocês decidiram mudar a bússola para Oeste, para (reconhece-se!!!) Caldas da Rainha. Porquê? 

Na verdade não foi uma coisa demasiado pensada. Queríamos fazer a história desta juíza numa pequena cidade, procurámos localizações e encontrámos o Parque D. Carlos I nas Caldas da Rainha, que é extraordinário. Depois, começamos a olhar em volta e tudo fazia sentido. O ‘Sul’ foi pensada com uma carta de amor a Lisboa, isso era um ponto de partida. A escolha das Caldas da Rainha foi mais circunstancial. 

6) Afinal também acontecem muitas coisas estranhas, crimes complexos e violentos para resolver fora das grandes cidades. Ou há muito tempo que não se passa nada, como dizem algumas das personagens, apenas as ‘sacholadas’ entre vizinhos e incestos entre familiares?

As pequenas cidades têm coisas fascinantes. São sítios aparentemente discretos mas depois vemos as notícias e descobrimos realidades únicas. Por exemplo, na zona Oeste, o impacto das quadrilhas de roubo de fios de cobre. Há zonas na região oeste que à noite são fechadas pela polícia para evitar a actuação dessas quadrilhas. Não me posso esquecer também de crimes como o da Praia do Osso da Baleia. Acredito que a geografia física e humana da zona influenciaram muito aqueles crimes. Na província também há uma criminalidade escondida e subterrânea. 

7) Será isso fruto de uma mudança de vida de algumas das pessoas das grandes cidades para fora, em busca de uma suposta qualidade de vida? Obviamente isto provoca alterações para melhor e para pior esses locais, nessas cidades mais pequenas. Achas que se começam a ter os problemas típicos das grandes cidades: tráfico de droga, xenofobia, violência, intolerância, bullying? Foi isto que quiseram também transmitir na série?

O mal está em todo o lugar. O Rui tem uma bela frase, acho que resultado de ser de Portalegre: “As cidades do interior são o contrário do mar: são turbulentas na profundidade e calmas à superfície.”

8) Se em ‘Sul’ as referências literárias eram romances policiais do escritor catalão Manuel Vasquez Montalban, aqui reconheci ‘O Delfim’ de José Cardoso Pires e a neblina cinzenta sobre o verde das águas da lagoa de Óbidos, que estão no filme do Fernando Lopes. Pegaram nestas referências?

‘O Delfim’? Não, de todo! O Montalban é de facto uma presença muito clara em ‘Sul’.

Catarina Wallenstein
Catarina Wallenstein e Nuno Lopes são dois investigadores da PJ.©RTP

9) Depois há a personagem da investigadora Maria (Catarina Wallenstein), que é uma jovem com um visual algo excêntrico e com um certo potencial para as novas tecnologias, que me fez lembrar Lisbeth Salander (interpretada no cinema pela Noomi Rapace e a Rooney Mara), a personagem da trilogia ‘Millenium’, do Stieg Larsson? 

Há uma série de dinâmicas quando se constrói uma personagem, que também ultrapassam o produtor-criador. Não tenho o domínio, nem quero, interferir em tudo. Escrevemos uma personagem de uma jovem investigadora dos subúrbios de Lisboa, que trabalha fora da grande cidade, ambiciosa, que tem um forte ligação às novas tecnologias. Era uma personagem que funcionava muito em contraponto com a do seu colega de investigação – homem local, simples e muito emotivo. O João Nuno Pinto, o realizador, acabou por fazer a sua própria abordagem com a Catarina Wallenstein que a atiram para uma espécie de tecno-gótica, mais sofisticada. Foi uma opção do realizador, que respeitei, claro. Na realidade, a personagem é muito diferente da Lisbeth Salander: tem aquele visual, mas ao mesmo tempo é muito intuitiva, emotiva e sabe que tem jeito para falar com outras personagens, especialmente as mais jovens. A personagem da Catarina Wallenstein, funciona assim também noutro contraponto: por um lado a sua imagem e o que esta invoca e por outro a sua psicologia. E isto é  a riqueza da personagem que acaba por ser construída, um bocadinho por todos: argumentista, produtor, realizador, actor….

10) Acho mesmo que ‘Causa Própria’, tem bastantes influências dos policiais nórdicos, onde os mistérios são muito velados, tudo está muito escondido num ambiente e numa sociedade em que parece tudo muito equilibrado e normal…

Acho que ao mesmo tempo, é também muito portuguesa. E esse foi sempre um dos nossos objetivos.  Acho que há uma abordagem fria na estética da cidade (a província portuguesa é também bem mais do que o postal que gostamos de acreditar que é), e que nos pode levar para essa pista. Mas eu acho que as referências narrativas estão em linha com a de outras tradições europeias. Aliás, acho que identificar o ‘Causa Própria’ como um típico policial é redutor: começa como uma investigação policial, transforma-se numa narrativa judicial e vai revelando-se enfim, como uma espécie de tragédia grega. 

11) Há outro aspecto interessante: tem-se falado muito da questão da justiça em  Portugal. Há um momento em que se sente uma forte pressão do Vítor (Ivo Canelas), o procurador do MP, sobre os investigadores, para que se encontre rapidamente um culpado, por causa da opinião pública e dos media. Isto é uma crítica ao MP? A justiça em Portugal funciona assim?

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Limitamo-nos a trabalhar sobre uma realidade que conhecemos. E as melhores narrativas são as que daí derivam. Não só a ideia de um procurador que quer ver resultados rapidamente, mas também temos também um sub-texto (pouco explorado, mas presente) na relação da juíza com o seu ex-marido. São duas pessoas formadas no Centro de Estudos Judiciários, e a mulher consegue ser juíza e o ex-marido não. 

12) É curioso também a escolha dos dois investigadores, um homem, (Nuno Lopes) e uma mulher, (Catarina Wallenstein). Ele chama-se Mário e ela Maria (riso). Isto tem algum simbolismo?

Não. Foi mais simples. Simplicidade acima de tudo. Mas têm de facto uma certa dicotomia. Tem mais a ver com a localização: percebe-se que o Mário (Nuno Lopes) é um investigador da região ou que há muito tempo vive ali. É um local, ainda com um olhar muito provinciano sobre aquela realidade, ao passo que a Maria (Catarina Wallenstein) é uma figura mais urbana, que vem da grande cidade. Os dois acabam por se complementar. 

13) Vamos chegar ao elenco, sobretudo à protagonista: a Margarida Vila-Nova, como chegaste a ela e a escolhes-te para ser juíza, que apesar de nos dar uma bela imagem da justiça bem ponderada e de proximidade com as pessoas, vai ter que, talvez, em dada altura (e sem revelares muito) julgar em causa própria?

A Margarida Vila-Nova já tinha participado no ‘Sul’ e quisemos voltar a trabalhar juntos. Quando convidei o João Nuno Pinto para realizar esta nova série ela já fazia parte da história.

Causa Própria
Nuno Lopes é o investigador dividido entre a ética e os sentimentos. ©RTP

14) O papel foi escrito para ela, certo?

Sim. E a Margarida tem uma magnífica interpretação. É a juíza Ana, como a imaginamos. Depois há questões práticas, muito importantes. Ela dá-nos uma enorme segurança não falha e dá tudo pelas personagens. Tal como o Nuno Lopes. Nas difíceis condições com que estamos a filmar em Portugal, isso é um enorme valor. Uma série destas não se consegue fazer sem este conjunto de actores. Filmar 8 a 9 páginas de argumento por dia é muito, muito, duro.

15) Na minha opinião, tens feito também escolhas muito acertadas nos realizadores: em ‘Sul’, o Ivo M. Ferreira e agora o João Nuno Pinto. São realizadores que se identificam com a tua linguagem? Particularmente agora o João Nuno Pinto para esta ‘Causa Própria’?

São coisas muito intuitivas. Com o Ivo M. Ferreira já tínhamos uma relação de trabalho anterior em que co-escrevi os argumentos de ‘O Estrangeiro’ e ‘Cartas da Guerra’ e temos uma proximidade linguística e estética, muito grande. Do João Nuno Pinto conhecia o ‘América’ e os trabalhos dele como publicitário. Entretanto vi uma primeira versão de ‘Mosquito’. Apesar de não o conhecer bem, há coisas que tem muito a ver com a nossa sensibilidade. O João Nuno é uma pessoa muito bem-educada e delicada. E eu só consigo trabalhar com pessoas de que gosto e tranquilas. O João Nuno tem ainda outra coisa que me agrada muito: além de ser uma pessoa muito sensível, é dos realizadores que está sempre a filmar. Realizar é também um ofício, precisa de ser praticado.  

16) Há também uma coisa que tu inauguraste de certo modo na produção audiovisual nacional, que é a figura do autor-criador-produtor de séries de televisão. Vais continuar a trabalhar desse modo?

Eu gosto muito do que faço e do que temos produzido até aqui. Tem corrido bem. 

17) Sei que estás a trabalhar no ‘Matilha’, a personagem interpretada pelo Afonso Pimentel em ‘Sul’. Decidiste dar-lhe uma vida própria. Como está a correr? Também vai ser uma série de género policial ou as aventuras e desventuras de um bom malandro de um ‘cromo’ lisboeta?

O ‘Matilha’ é uma espécie de filho mais novo. Peguei em duas personagens de ‘Sul’ de que gostava, que andavam a gritar há muito que queriam existir para além da série e estou a construir uma narrativa muito rápida, muito lisboeta, muito nossa. Enquanto o ‘Sul’ tinha uma dimensão mais onírica, ‘Matilha’ tem uma dimensão mais realista e rápida ainda que pesada em termos de produção. O realizador vai ser o luso-brasileiro, José Henrique Fonseca (‘O Homem do Ano’, ‘Heleno’, ‘Mandrake’, ‘Romance Policial Espinosa’ e ‘Bom Dia Verônica’), que tem uma obra reconhecida no Brasil e que agora vive cá em Lisboa.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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