"Natureza Humana" | © Agência da Curta Metragem

Entre Muros, a Crítica | Três curtas portuguesas mostram o melhor do cinema nacional

“Entre Muros” reúne três curtas portuguesas no mesmo programa, tudo obras que tiveram sucesso no circuito dos festivais lá fora. São elas “2720” de Basil da Cunha, os “Corpos Cintilantes” de Inês Teixeira, e a “Natureza Humana” com assinatura de Mónica Lima.

“2720”, Basil da Cunha

Algures na Cova da Moura, duas figuras deambulam pelas ruas em missões distintas. Camila é uma menina de sete anos à procura do irmão, tendo-se inteirado de uma rusga policial quando ia buscar um gelado. Talvez o queira avisar, talvez o queira salvar. Por outro lado, temos a jornada de Jysone, que acabou de sair da prisão depois de vários anos atrás das grades. Com somente cinco semanas de liberdade, ele conseguiu arranjar emprego, sendo este o seu primeiro dia de trabalho. Infelizmente, deixou-se dormir, já está atrasado e ainda nem sequer conseguiu confirmar boleia. O almoço que ele leva num tupperware é quase cómico na situação presente.

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Pelo caminho, as duas figuras encontram-se e desencontram-se, passando por uma pluralidade de espaços entre a folia e a domesticidade. Também se deparam com conhecidos, traçando uma tapeçaria humana que faz todo o bairro sentir-se vivo, quase como uma personagem coletiva a rebentar de idiossincrasias, mistérios e cor. O trabalho de texto – derivado de um exercício próximo do documentário –  faz por criar um retrato comunitário ao mesmo tempo que puxa pela tensão inerente às duas histórias. Será que Camila vai encontrar o irmão? Será que Jysone vai chegar a horas? E acima de tudo isso, será que a presença policial vai ser pacífica ou haverá sangue nas ruas?

Se Camila representa a alma da narrativa neorealista, Jysone é quem mais dá energia à coisa, propulsionando uma ansiedade que nos sufoca desde o primeiro minuto. Mas “2720” não se faz só de realismo social em texto e performance. O seu elemento mais impressionante é a mobilidade da câmara, sempre em movimento pelo bairro da Reboleira, capturando a geografia Lisboeta com apreço e curiosidade. Com poucos cortes a interromper o seu fluir, a fita deslumbra e consome, uma experiência imersiva pontuada por um choque final capaz de nos partir o coração. Basil da Cunha confirma o seu talento na cadeira de realizador, enquanto o diretor de fotografia Vasco Viana mostra como é um dos grandes artistas a trabalhar no cinema português.

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“2720” teve a sua estreia mundial no Festival Visions du Réel no ano passado. Mais tarde, passou no Festival Oberhausen onde ganhou o Prémio FIPRESCI dentro da Competição Internacional. Teve semelhante fado quando passou no Curtas Vila do Conde, onde ganhou o Prémio da Audiência e o galardão para Melhor Realizador. Atualmente, a fita está nomeada para o Prémio Sophia de Melhor Curta-Metragem de Ficção. Dia 26 de maio, lá se saberá se Basil da Cunha também vence esse troféu ou se outro filme do “Entre Muros” o derrota.




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“Corpos Cintilantes”, Inês Teixeira

No seu primeiro trabalho depois dos estudos, Inês Teixeira revela um bom olho para cristalizar as particularidades da psique adolescente. A sua estreia faz-se com “Corpos Cintilantes,” a crónica de um fim-de-semana na vida de Mariana, uma jovem na Escola Secundária que conhecemos num ambiente escolar. Em registo de película e com um trabalho de câmara intimista, o espetador sente logo um jogo de subjetividades. Tanto observamos Mariana como experienciamos o mundo através da sua sensibilidade, um olhar que se prende em corpos esculpidos que ela quiçá cobiça e num rapaz sorridente da mesma turma.

Ele é Jorge e, terminadas as aulas, a conversa desabrocha entre os dois. Fazem-se convites para passar os próximos dias em Leiria e lá vai Mariana para a casa do amigo. O restante filme mantém as mesmas linhas intimistas, com pouco diálogo e muita expressividade, de caras e corpos, vislumbres sorrateiros e desejos nascentes. À medida que o fim-de-semana se desenrola, acentuam-se questões de amor próprio, com a consideração do reflexo no espelho e o desconforto de um biquíni que revela mais do que Mariana quer mostrar. O fumo de uma ganza partilhada em jardim vizinho desembaraça as línguas, mas é sempre difícil ser-se sincero nestas idades difíceis.

Tal como em “2720,” existe uma dramaturgia delicada na base da fita, sem que, no entanto, as suas maiores qualidades se manifestem no texto. Acima de tudo, “Corpos Cintilantes” é uma montra para as habilidades de Inês Teixeira enquanto contadora de histórias por meios audiovisuais, um talento por formar caracterizações através dos espaços vazios, dos silêncios e pausas na conversa. Há que elogiar o trabalho de Maria Abreu e Gaspar Menezes nos papéis principais, mas a estrela maior é, mais uma vez, Vasco Viana como diretor de fotografia. Ainda se aplaude a montagem de Joana Góis, capaz de dar musicalidade às interações reticentes destes jovens em processo de autodescoberta e primeiros amores.

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“Corpos Cintilantes” teve a sua estreia no Festival de Cannes de 2023, onde integrou a competição pelo Prémio Descoberta Leitz Cine. Ainda foi a Vila do Conde e a Coimbra, onde ganhou a honra de Melhor Curta-Metragem. Neste momento, está nomeado para o Prémio Sophia da Academia Portuguesa de Cinema.




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“Natureza Humana”, Mónica Lima

Em tempos de pandemia, um casal – Xavier (João Vicente) e Alba (Crista Alfaiate) – está confinado ao seu apartamento, passando o Verão num estado semelhante à estagnação. Ou talvez não seja só a estação mais quente. Apesar de considerar um dia na vida das suas personagens, “Natureza Humana” estende-se através do ciclo da natureza e das estações. Um jardim citadino onde Xavier passa as horas em lavoro parece crescer ao longo da fita, um milagre botânico que sugere uma história fora dos confins do tempo. Há um toque impressionista nisto tudo, a noção de que sentimos os efeitos de uma cronologia ditada pela experiência humana e não tanto pelo calendário.

O jardim é marca temporal e é símbolo de uma fecundidade contrastante. No mesmo gesto em que flores e legumes crescem, insuflados de vitalidade, o casal confronta os insucessos do seu esforço natal. Por muito que tentem, não conseguem ter filhos. Ainda por cima, persiste uma ideia amarga e cruel incerteza: este mundo está em declínio e talvez não seja certo gerar nova vida se o seu fado será sofrer. Entre COVID-19 e mudanças climáticas, um pavão à solta nas ruas e tanto mais, o apocalipse afirma-se no horizonte. Mas os desejos da paternidade não são, por isso, inválidos. De facto, “Natureza Humana” desvenda a dor, o amor, e até a esperança na alma do seu elenco.

Por entre o Éden que construíram na selva urbana, Xavier e Alba interagem com crianças, ora uma menina vizinha ou o filho de um outro casal seu amigo. Nessas faces juvenis, as ideias mais solarengas de “Natureza Humana” ganham forma e um antídoto para o desespero toma o filme de assombro. Apesar de se isolarem na mágoa individual, Xavier e Alba acabam por se encontrar no meio, unidos neste confinamento e dispostos a encarar o futuro juntos. Se o niilismo se pronuncia em noções de “no future,” então a obra de Mónica Lima é uma garantia que vale a pena viver para o amanhã. E que belo sonho ela nos proporciona, tão bem sugerido pela câmara de Faraz Fesharaki que quase conseguimos sentir o cheiro a terra fértil e flores frescas, os raios de sol na cara e uma brisa estival na pele.

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“Natureza Humana” foi estreado no Festival de Cinema de Roterdão, onde ganhou o Tigre Ammodo da Competição de Curtas-Metragens. Em Vila do Conde, ganhou a Competição Nacional, tanto em voto do júri como das audiências. Além dessas duas passagens no circuito festivaleiro, ainda passou em Coimbra, Achtung, Gante, Montpellier, Saguenay, El Gouna e no Cine Eco, onde se celebra cinema ambientalista.

“Entre Muros: Três Curtas Portuguesas” mostra-nos o melhor do nosso cinema nacional, provando a qualidade do setor e a maravilha da sétima arte feita em Portugal. Não percas!

Entre Muros, a Crítica
entre muros tres curtas portuguesas

Date published: 10 de May de 2024

Duration: 75 min.

Director(s): Basil da Cunha, Inês Teixeira, Mónica Lima

Actor(s): Camila Moniz, Jason Varela, Maria Abreu , Gaspar Menezes, João Vicente, Crista Alfaiate

Genre: Curta-Metragem, Drama, 2023

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Entre Muros” proporciona uma amostra do grande cinema que se faz em Portugal. As três curtas formam uma coleção entre o realismo e o impressionismo, entre retratos sociais e vislumbres para dentro da alma angustiada. Apesar do drama, persiste uma ideia de esperança, quer seja na pequena Camila de “2720,” nos namoricos adolescentes de “Corpos Cintilantes,” ou no casal em confinamento de “Natureza Humana.” Basil da Cunha, Inês Teixeira e Mónica Lima são nomes que qualquer fã do cinema português devia conhecer e apreciar. O futuro está nas mãos deles.

O MELHOR: O esplendor fotográfico das três curtas-metragens, todas elas filmadas em película. Em termos de cinemas nacionais, Portugal tem do mais belo à escala mundial.

O PIOR: Como acontece em qualquer coletânea de curtas, a junção das obras força a comparação. “Natureza Humana” é o grande destaque do trio, mas todos merecem aplausos e serem considerados enquanto triunfos individuais.

CA

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