Crista Alfaiate é a protagonista desta história de amor. @Uma Pedra no Sapato/Divulgação

Festival de Cannes 2024 | De Miguel Gomes à Nova Hollywood

O 77º Festival de Cinema de Cannes começa oficialmente logo ao final da tarde com a comédia politicamente incorreta “Le Deuxième Acte”, de Quentin Dupieux (fora da competição). O cineasta português Miguel Gomes, com “Grand Tour’, um filme de viagens é um dos candidatos à Palma de Ouro, aliás como Francis Ford Coppola o grande mestre da Nova Hollywood, com o seu novo filme “Megalopolis”, uma drama futurista de ficção científica. 

Cerca de 18 anos depois de Pedro Costa ter apresentado “Juventude em marcha”, em 2006 na competição oficial, o cinema português regressa pela porta grande com Miguel Gomes com o seu novo “Grand Tour” e mais 5 filmes espalhados pelas outras secções competitivas e não-competitivas de Cannes 2024. Recorde-se que nas 76ª edições do Festival de Cannes, o cinema português apenas ganhou uma Palma de Ouro, pela curta-metragem “Arena” de João Salaviza, em 2009, mas nunca atingiu um grande prémio ao nível das longas-metragens.

Miguel Gomes em Cannes

Quanto a “Grand Tour’, de Miguel Gomes, a longa epopeia a preto e branco de uma mulher disposta a conquistar o amor, passa-se em Rangoon na Birmânia, em 1917, ou melhor em plena Belle Èpoque, quando Edward (Gonçalo Waddington), um funcionário público do Império Britânico, parece arrepender-se e foge no dia em que se casaria com sua noiva Molly (Crista Alfaiate). Determinada a casar-se custe o que custar, Molly parte em busca de Edward seguindo uma longa linha de comboio e acavalo numa grande viagem por uma Ásia, pela selva exótica e desconhecida.

Lê Também:   Bárbara Paz em Lisboa para homenagear Hector Babenco

Vê o trailer de “Grand Tour”




Uma Comédia politicamente Incorreta

Por sua vez, Le Deuxième Acte”, a nova comédia do prolífico realizador e argumentista francês e também músico, Quentin Dupieux, será o filme de abertura desta 77ª edição. Apresentado fora de competição em estreia mundial na Croisette esta comédia a quatro vozes será lançada no mesmo dia que em Portugal estreia “Daaaaalí!”, uma farsa que explora de forma excêntrica as diferentes personalidades de Salvador Dalí, o prestigiado pintor espanhol símbolo do surrealismo, É assim também que para abrir as festividades do 77º Festival de Cannes, Quentin Dupieux, um artista ousado e imprevisível, quase como Dali, irá subir a passadeira vermelha do Grand Théâtre Lumière, rodeado por toda a sua equipa.

Lê Também:   A Paixão Segundo G.H., a Crítica | Uma extraordinária viagem cinematográfica ao universo de Clarisse Lispector

Le Deuxième Acte” é mais uma filme deste “cineasta da liberdade” — ao nível dos tons, das formas e dos temas – já com uma extensa obra (13 longas-metragens em 17 anos) e que mais uma vez parece libertar-se das convenções cinematográficas, para estabelecer a comédia de absurdo, como um género de direito próprio. Le Deuxième Acte” é uma bela ilustração do seu cinema único e quase como que uma síntese dos seus filmes anteriores, mas agora como uma nova loucura em torno do trabalho de um ator, aliás também já um dos temas centrais de figuras como em “Yannick” ou “Daaaaaali!”

Vê o trailer de “Le Deuxième Acte”

No elenco e na passadeira vermelha estará um elenco tão soberbo quanto inesperado: Léa Seydoux, Vincent Lindon e Louis Garrel, que participam pela primeira vez no alucinado mundo de Quentin Dupieux, enquanto Raphaël Quenard regressa pela quarta vez, depois da sua participação em filmes como “Mandibles”, “Fumer fait tousser” e “Yannick”. A estes juntam-se ainda algumas das maiores estrelas do cinema francês da atualidade que de certo modo também habitam a constelação Quentin Dupieux: Alain Chabat, Benoît Poelvoorde, Jean Dujardin, Adèle Exarchopoulos, Léa Drucker, Benoît Magimel, Anaïs Demoustier, Vincent Lacoste, Gilles Lellouche, Édouard Baer, ​​​​Pio Marmai…incrível!




Coppola numa “Apoteose Now”

Salvo “Grand Tour” de Miguel Gomes, defendendo a prata da casa, o favoritismo vai e seria incrível que Francis Ford Coppola, com o seu novo filme “Megalopolis”, ganha-se uma terceira Palma de Ouro — depois de “O Vigilante” (1974) e “Apocalipse Now” (1979) — neste festival que tradicionalmente premeia sobretudo o “cinema de autor”. Se assim fosse, esta lenda viva da (Nova) Hollywood ultrapassaria Michael Haneke, Ken Loach, Ruben Östlund, os três realizadores que receberam por duas vezes, um dos maiores prémios do cinema mundial.

Lê Também:   A Paixão Segundo G.H., a Crítica | Uma extraordinária viagem cinematográfica ao universo de Clarisse Lispector

De facto, tudo leva a crer que “Megalopolis”, que anuncia como argumento uma fábula fantástica inspirado num épico romano transposto para a era dos americanos de amanhã, deve ser de fato uma obra-prima, embora tenha sido muito falada as dificuldades em encontrar quem se encarrega-se da sua futura distribuição comercial. Seja como for, ao longo da longa carreira de Coppola, é preciso reconhecê-lo, é um cineasta-autor norte-americano — também os há no cinema de Hollywood —  que nos habituou ao melhor e ao pior.

Vê o trailer de “Megalopolis”

Mesmo assim, continuo a acreditar que este fabuloso regresso de “o padrinho” da Nova Hollywood tem um enorme brio e vai ser marcante nesta edição 77. Várias vezes falido, mas sempre refeito, o realizador de “Apocalypse Now” investiu cerca de 130 milhões de dólares neste projeto que matutou ao longo de quarenta anos, um valor provavelmente não muito longe do que vale o seu famoso vinhedo Inglenook, em Napa na Califórnia. Com 85 anos, viúvo há algumas semanas, Coppola quase parece ter apostado a sua própria vida neste projeto, numa atitude do tudo ou nada.

Lê Também:   Ripley, a Crítica | Um ensaio sobre a natureza do mal

Tal como Martin Scorcese no ano passado, com “Os Assassinos da Lua das Flores”, parece, que os cineastas da Nova Hollywood dos anos 70 ainda têm algo a dizer-nos, aliás Paul Schrader apresenta também nesta Competição 77, o misterioso “Oh Canada” e George Lucas será uma das Palma de Ouro Honorárias pela sua carreira. Depois de Scorcese, Spielberg, Cameron e Lucas, Coppola é mais um daqueles “cineastas-autores” que conseguiram fazer escolhas ousadas, criaram universos eminentemente pessoais e que quase sempre conseguiram agradar ao público. Ganhe ou não mais uma Palma de Ouro, uma coisa é certa, há realizadores que Hollywood transformou e há aqueles que transformaram Hollywood e a história do cinema mundial. Francis Ford Coppola pertence à classe-alta dos últimos. Veremos!

JVM

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *