Beatriz Batarda é a Tânia, 'a mãe do portugueses' em Great Yarmouth.

70º Festival de San Sebastián | ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’

O realizador português Marco Martins estreou na Secção Oficial de San Sebastián, o seu novo filme ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’, uma poderosa obra sobre a imigração ilegal portuguesa no Reino Unido e que retrata a desumanizada sociedade contemporânea, cada vez mais marcada por uma economia neo-liberal.

‘Great Yarmouth: Provisional Figures’, de Marco Martins (‘São Jorge’) é antes demais um arrasador ‘festival’ de interpretação de Beatriz Batarda, no papel de Tânia, uma mulher portuguesa imigrante, que se esforça para aprender um inglês fluente, fundamental para obter a nacionalidade britânica. Batarda é a ‘great’ protagonista de mais uma drama do cinema nacional, sobre a imigração portuguesa no Reino Unido, depois de ‘Listen’ de Ana Rocha de Sousa. Porém o novo filme Marco Martins, é bastante mais ambicioso e parece feito à medida daquela que se pode considerar a maior e mais completa actriz portuguesa da actualidade, tanto no teatro como no cinema. ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’ é também uma obra infinitamente mais intrigante e mais trabalhada do que ‘Listen’: tem como base uma peça de teatro experimental com o mesmo título, encenada e estreada em Inglaterra em 2018, que resultou neste filme negro, incómodo, duro, que denuncia a xenofobia social presente no Reino Unido e que decerta maneira deu origem ao Brexit. ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’ é um retrato realista, sórdido e desesperançado, sobre o tráfico humano, num mundo desumanizado e global, onde as pessoas, são tratadas como mera mercadoria.

VÊ TRAILER DE ‘GREAT YARMOUTH: PROVISIONAL FIGURES’

O filme, que parte do geral para o individual — do grupo de imigrantes recém-chegado a Great Yarmouth, para os conflitos pessoais da sua protagonista — começa três meses antes do Brexit, com destaque para Tânia (Beatriz Batarda), uma portuguesa (aparentemente) casada com um inglês (Kris Hitchen, vimo-lo em Passamos Por Cá, o ultimo filme de Ken Loach, em 2019), proprietário de um hotel abandonado na cidade costeira de Great Yarmouth (Norfolk County, Grã-Bretanha). Trata-se de uma localidade que foi outrora um importante centro turístico, transformado agora em local de chegada de imigrantes ilegais (ou ‘provisional figures’, isto é à espera da legalização) de Portugal. Tânia chamada de ‘a Mãe dos portugueses’ e o seu braço-direito (Romeu Runa), um tratador de galgos de corrida, são uma espécie de intermediários, que se dedicam a fornecer mão-de-obra barata a um matadouro de aves, nas redondezas do ex-balneário turístico. Tânia sonha que, com o tempo, com as economias que vai fazendo à custa dos trabalhadores e também desviando do marido, parte do dinheiro que ganha, vai conseguir transformar o velho e degradado hotel — onde abriga em péssimas condições, esses imigrantes que trabalham no matadouro — num alojamento turístico para idosos reformados. Porém, os seus planos viram-se do avesso quando um homem (Nuno Lopes) e a sua cunhada (Rita Cabaço) chegam a Great Yarmouth, para trabalhar e à procura do irmão dele, de quem não têm notícias há muito tempo.

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Great Yarmouth: Provisional Figures
©70SSSIFF/Great Yarmouth: Provisional Figures, de Marco Martins, com Beatriz Batarda e Nuno Lopes.

À partida, Marco Martins parece encarar a narrativa como uma incursão no realismo social (britânico), à boa maneira de Ken Loach ou Mike Leigh, com um olhar incrédulo e um espírito de denúncia dos factos. Contudo com um tom que vai do drama social ao thriller, o realizador português, vai-nos ajudando a seguir os seus controversos personagens com uma câmera muito envolvente e próxima dos rostos, questionando-os através dos pouquíssimos diálogos e mostrando-nos as suas figuras marcadas pela dureza, mas também pelas suas diversas sensibilidades e fisionomias. Pouco a pouco vai conseguindo conectar-nos, com os protagonistas principais, a um nível muito profundo, evitando cenas paradas e longos diálogos, apesar de quase sempre vazios e banais. No centro, está uma magnífica Beatriz Batarda interpretando Tat (ou Tânia), que só com os seus olhares e uma dicção tão delicada quanto ferida, numa mistura de inglês com português, consegue sem dúvida representar o tom geral do filme: uma obra que nos revela a infecção dos lugares e as falsas esperanças desses imigrantes, que vão morrendo aos poucos num matadouro de perus, uma espécie de lugar de fuga em decomposição, em troca de umas poucas migalhas de pão ou de um futuro melhor. O mundo dos pássaros e a ornitologia usada por uma estranha personagem solitária, que funciona como uma espécie de narrador, é a metáfora, para um duro ensaio sobre a natureza humana e os contrastes entre as espécies selvagens que vivem nos pântanos e os perus que vão para o matadouro. Martins coloca-os no mesmo plano da cadeia alimentar, ao lado dos imigrantes portugueses ilegais, pessoas que são usadas, massacradas e consumidas como essas aves de abate.

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©70SSIFF/Beatriz Batarda é o rosto e o tom deste novo e duro filme de Marco Martins.

A fotografia escura de João Ribeiro, segue um naturalismo sujo e realista mostrando-nos tanto a imundície e humidade dos quartos, como um matadouro cheio de sangue, vísceras e merda; em contraste com imundície do espírito humano, que transforma os homens em predadores de outros homens. A atmosfera é desagradável e o fedor quase chega à cadeira do espectador. Nem os momentos de amor e o sensual e romântico karaoke de Tânia, estão livres de sujeira, desespero e desilusão. ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’ é um filme desconfortável, lento, figurativo, mas acima de tudo arrasador e honesto, talvez um dos melhores da filmografia portuguesa dos últimos anos. Mas é sobretudo um trabalho que usa uma estética incrível, principalmente para realçar o timbre da voz e a espantosa expressividade da grande actriz que é Beatriz Batarda. Ao lado dela até o extraordinário Nuno Lopes, parece neste filme muito pequenino. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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