©Nikopoulos Nikos/Alambique

How to Have Sex – A Primeira Vez, a Crítica | Dispostas a tudo ou quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga

Depois de ganhar o prémio máximo na competição oficial Un Certain Regard do Festival de Cinema de Cannes, em maio passado, “How to Have Sex – A Primeira Vez”, a longa-metragem de estreia da londrina Molly Manning Walker, é um filme que retrata a estigmatização da virgindade feminina, que se tornou um fenómeno de popularidade com várias outras distinções, em festivais internacionais. Estreia a 28 de Março.

Depois de uma longa carreira como diretora de fotografia e de realizar ela própria algumas curtas-metragens, a britânica Molly Manning Walker estreia-se agora como argumentista e realizadora de longas com “How to Have Sex – A Primeira Vez”, uma obra que pode ser definida como uma sofisticada mistura dos melhores filmes de adolescentes em férias, como “Aftersun”, “What Happened Yesterday” ou “Spring Breakers: Viagem de Finalistas. Contudo, é bastante melhor e mais profundo do que estes filmes de referência. 

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Tara (Mia McKenna-Bruce), Em (Enva Lewis) e Skye (Lara Peake) são três amigas de 16 anos, inglesas, que viajam para um resort na ilha grega de Malia, para desfrutarem de umas férias de perder a cabeça e até que o corpo aguente. Depois de gritar, comer batatas fritas e beber shots sem parar, conseguem encontrar um quarto com vista para a piscina e iniciam as suas excursões a bares e casas noturnas de karaoke e dança.

Voltam bêbadas já ao amanhecer do dia seguinte, com um misto de decepção e frustração. Isto, até conhecerem uns atraentes vizinhos do mesmo bloco de quartos do hotel: Badger (Shaun Thomas) e Paddy (Samuel Bottomley), que seguem o mesmo plano de loucura e excessos. Começam os jogos de sedução e as propostas são cada vez mais diretas para a possibilidade de encontros sexuais, a que alude o título do filme.

How To Have Sex
No filme, a personagem Tara é interpretada pela excelente Mia McKenna. ©Nikopoulos Nikos/Alambique




FORA DO CONTROLO

“How to Have Sex – A Primeira Vez”, o filme escrito e realizado por Molly Manning Walker tem um bom ritmo e muita sensibilidade, e parece, a princípio, efetivamente uma daquelas comédias de amadurecimento, com as desventuras, as várias complicações e os excessos de jovens adolescentes em férias, como em “Spring Breakers”, (2012) de Harmony Korine. Aliás, até talvez seja este o filme com que este parece ter mais afinidades.

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Porém, aos poucos “How to Have Sex – A Primeira Vez” vai-se concentrando na personagem de Tara, para refletir profundamente, nessa compulsão em que os jovens se divertem em excesso, mesmo quando as situações não são exatamente engraçadas; de saírem do controlo todas as noites e excedendo os limites, mesmo quando isso gere efeitos colaterais não muito agradáveis; isto é  terem encontros sexuais de qualquer maneira, sem o mínimo de carinho e afeto e sobretudo de uma forma bastante descuidada e traumática.

VÊ TRAILER DE “HOW TO HAVE SEX-A PRIMEIRA VEZ”

RITUAL DE  PASSAGEM

É neste sentido que o inicial humor lactente de “How to Have Sex – A Primeira Vez”, mesmo que seja um pouco desconcertante quando olhamos para a pobreza mental das jovens miúdas, dá origem a uma exploração da angústia mais íntima, daquele sentimento que em muitos casos é uma farsa, uma encenação, uma simulação de diversão que efetivamente não o é; ou seja a necessidade de cumprirem certos rituais típicos do final da adolescência e do início da idade adulta (neste caso, veremos, na transição para a vida universitária) e que muitas raparigas gostariam de vivenciar de forma mais natural, menos forçada, sem seguirem uma série de pressões, comandos e condicionamentos sociais, muitas vezes impostos pelos próprios colegas ou pela própria família.

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No entanto, o que poderia ser um filme doce e divertido sobre auto-descoberta e as “primeiras vezes” é na verdade um retrato nítido e muito realista da vulnerabilidade que acompanha a adolescência tanto no rapazes como nas raparigas, quando se está numa idade em que todos em redor nos pressionam para que ajamos como o adulto, que ainda não somos. “How to Have Sex – A Primeira Vez”, fala-nos justamente sobre essa fase de transição para a idade adulta que, para o bem ou para o mal, nos vai marcar para sempre.




How To Have Sex
A realizadora mergulha nas curtas férias de miúdas inglesas. ©Nikopoulos Nikos/Alambique

UMA REVELAÇÃO NAS INTERPRETAÇÕES

Manning mergulha nessas curtas férias das três miúdas, precisamente sob a forma de uma fuga ou rito de passagem típico da juventude da classe trabalhadora britânica — mas poderia ser o das miúdas da classe média portuguesa, num passeio de finalistas. Porém fá-lo, principalmente a partir do flerte de Tara (Mia McKenna), mais do que das outras duas raparigas. Razão pela qual faz uma espécie de inversão nos típicos filmes sobre a perda da virgindade, questionando ao mesmo tempo, as pressões sociais, que estão na base dessa liturgias de desinibição típicas destes contextos. A realizadora, oferece-nos assim um olhar compassivo e matizado sobre sexo, amizade e pressões dentro de uma história didática sobre consentimento.

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No filme, a personagem Tara, interpretada pela excelente Mia McKenna — numa performance absolutamente notável, que já lhe valeu um Prémio Revelação dos European Film Award — tem de lidar com as inseguranças, expectativas e incertezas sobre o futuro, enquanto passa pelo seu ritual de iniciação: perder a virgindade. “How to Have Sex – A Primeira Vez” faz um ótimo trabalho ao focar-se igualmente na falta de educação (ou informação) em torno do consentimento, da introdução ao sexo e nas diferentes situações de abuso pelas quais a maioria das miúdas, como Tara, está sujeita a passar nas mais variadas circunstâncias.

A ilha grega de Malia, com as suas ruas repletas de bares e discotecas, como Ibiza ou algumas praias do Algarve, serve de pano de fundo para esta excelente representação dos primeiros encontros sexuais, uma história que Molly Manning Walker aborda de uma forma muito honesta e muito delicada, que fará com que todas as jovens mulheres, que passaram por isso, não se sintam sozinhas no mundo.

How to Have Sex - A Primeira Vez, a Crítica

Movie title: How to Have Sex

Movie description: Três adolescentes britânicas saem de férias, bebem, festejam e dão uns amassos naquele que deveria ser o melhor verão de suas vidas. Enquanto dançam pelas ruas ensolaradas de Malia, na Grécia enfrentam as complexidades do sexo, do consentimento e da auto-descoberta.

Date published: 26 de March de 2024

Country: Reino Unido, Grécia

Duration: 91 min

Director(s): Molly Manning Walker

Actor(s): Mia Mc Kenna-Bruce, Enva Lewis, Lara Peake, Shaun Thomas, Samuel Bottomley

Genre: Drama, 2023,

  • José Vieira Mendes - 65
65

CONCLUSÃO:

Este drama bastante premiado e aclamado pela crítica, conta a história de três adolescentes britânicas que saem de férias, para as ilhas gregas, com o desejo de viver o melhor verão de suas vidas: festejar, beber, flertar com estranhos…Quem nunca fez umas férias como estas? Em “How to Have Sex-A Primeira Vez”, a realizadora britânica Molly Manning Walker, faz porém uma representação dos altos e baixos da amizade entre as jovens mulheres, abordando sobretudo a questão do sexo juvenil, estigmatização da virgindade, abuso sexual e consentimento. Capturando com imagens luminosas e uma banda sonora perfeita, as férias destas três miúdas, mas sobretudo os sentimentos de Tara (Mia McKenna-Bruce), uma delas, a estreia desta realizadora nas longas-metragens, pinta um retrato dolorosamente real da passagem da idade jovem à adulta e de como as primeiras experiências sexuais deveriam — ou não — desenvolverem-se. Trata-se de um filme interessante e não sentimental, sem os clichês dos filmes sobre a passagem da adolescência à maioridade. 

JVM

Pros

O maravilhoso trio principal formado por Skye (Lara Peake) e Em (Enva Lewis) e sobretudo por Tara (Mia McKenna Bruce), que nos fazem acreditar que as situações são absolutamente reais e verdadeiras e estão a passar umas férias de loucura.

Cons

Apesar do realismo da história temos algumas dúvidas que o filme tenha um efeito tão pedagógico ou de denúncia, como pretende ter, até porque estas histórias e experiências, são infelizmente constantes. Fica no entanto as boas intenções…. 

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