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Ciclo de conferências Impérios | Entrevista exclusiva a Rui Lopes

Falámos com Rui Lopes sobre o ciclo de conferências Impérios e sobre o contínuo impacto da máquina de fazer cinema de Hollywood. 

Com entrada completamente gratuita, realiza-se no próximo dia 15 de novembro às 21h, mais uma conferência do ciclo Impérios, que está a ser organizado pela Culturgest. Desta vez, o foco será o cinema e o responsável pela conferência será Rui Lopes. Doutorado em História Internacional pela London School of Economics and Political Science (LSE), Rui Lopes tem vindo a desenvolver várias investigações sobre a 7ª arte, a cultura da Guerra Fria, a dimensão internacional do Estado Novo e o império de Portugal. Meticulosamente, tem conseguido perceber as implicações desse passado nas mais distintas ramificações artísticas dos Estados Unidos de hoje.

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Fazia assim todo o sentido falarmos com o Rui, um académico no verdadeiro sentido da palavra. A sua investigação vai realmente a fundo e com ele ficaríamos a falar horas a fio. Na nossa entrevista, entendeu-se perfeitamente a sua paixão pelas palavras e pelas imagens em movimento. Iremos percecioná-lo obviamente na sua conferência “SUAVE E IRRESISTÍVEL? O IMPERIALISMO DE HOLLYWOOD”. Aliás, como dito na sinopse desta conferência:

O cinema tornou-se num importante instrumento de poder externo dos Estados Unidos da América, em particular durante a Guerra Fria. Para além do seu impacto económico a uma escala global, os filmes de Hollywood promovem valores, técnicas e mundivisões, não só através da sua imposição no mercado, como também através do seu consumo ativo por diferentes públicos. As suas imagens e narrativas (sobre os EUA e o resto do mundo) são exportadas e imitadas, mas também contestadas e recontextualizadas.

A nossa entrevista com o Rui Lopes serviu ainda para perceber as razões que o levam a ser orador desta conferência e também de olharmos para os filmes e para as suas narrativas de uma maneira tendencialmente mais objetiva e distante para que possamos entender o estado da arte.

filmes na tv
Ingrid Bergman, Humphrey Bogart, Claude Rains, e Paul Henreid em “Casablanca”

MHD: Como é que surgiu o convite para o Rui participar no ciclo de conferências Impérios?

Rui Lopes: Este ciclo de conferências é uma organização conjunta entre a Culturgest e Instituto de História Contemporânea, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Eu, para além de ser investigador do Instituto, estou à frente de uma das suas linhas de investigação intitulada Mediações Modernas: Arte, Tecnologia e Comunicação. No âmbito desta linha já dinamizei algumas conferências e em parte acho que foi por isso que estava no radar da Culturgest.

Há vários anos, tenho vindo a estudar as dinâmicas das relações do cinema de Hollywood e as relações internacionais, nomeadamente na maneira como o cinema de Hollywood ajudou a projetar uma imagem de Portugal durante o Estado Novo. Atualmente, estou a começar um novo projeto de investigação sobre o cinema, a banda-desenhada na Guerra Fria e como estes meios visuais, de cultura popular, ajudaram as pessoas a visualizar esse período.

MHD: O que poderemos esperar da sua conferência “Suave e Irresistível? O Imperialismo de Hollywood”?

Rui Lopes: O título é quase como uma brincadeira para duas expressões às quais a minha apresentação vai remeter. Uma é a ideia de “soft power”, a de poder suave, e que parte do poder dos Estados Unidos se exerce, não apenas através da força militar ou do seu poder económico, mas através de uma forma mais difusa.

A outra expressão, “império irresistível”, da académica Victoria de Grazia que a aplicou à máquina cultura dos Estados Unidos incluindo o cinema. Esta é uma expressão que gosto muito porque apresenta esta ideia de um império, ou seja, de uma potência que exerce poderes sobre outras, e que o faz não só através da força, como através da sedução e persuasão com a colaboração das próprias pessoas que consomem os seus produtos.

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MHD: Que filmes e/ou cineastas conseguiram mostrar o cinema dessa forma, um instrumento de poder externo dos Estados Unidos da América?

Rui Lopes: Inicialmente tinham-me proposto que apresentasse um filme que, de alguma maneira, fosse representativo desta ideia de um imperialismo cultural. Propôs vários filmes e, honra seja feita à Culturgest, responderam-me que eu poderia apresentá-los todos. Não vou conseguir fazê-lo, mas vou passar excertos de quatro ou cinco filmes. De alguma maneira, a partir desses excertos vou fazer o resumo das várias dimensões desta relação entre Hollywood e Imperialismo.

filmes na tv
Sylvester Stallone em “Rambo: A Vingança do Herói” © Estudios Churubusco Azteca S.A.,

Escolhi filmes do período da Guerra Fria, em que as relações entre a diplomacia americana e indústria americana estavam muito próximas e foi um período em que, embora sejam filmes antigos, se forjaram algum tipo de narrativa muito presentes na nossa cultura. É verdade que o cinema já não tem o mesmo peso que tinha na Guerra Fria, mas é engraçado vermos como ainda hoje são usadas referências a esse cinema para explicarmos questões do mundo. Não existe uma semana sem que, a propósito da crise na Ucrânia não se fale de “Doutor Estranhoamor“, “Rambo” ou tantos outros filmes em que os russos são vilões. Esses filmes deixaram um grande lastro e decidi focar-me em filmes e géneros muito populares. Terei western, um filme romântico, outro de ação e outro de guerra.

MHD: O Rui fala-nos na influência no cinema da Guerra Fria e nas suas implicações no cinema nos dias de hoje e, em semana de estreia do novo Black Panther, não poderíamos deixar de referir que o próprio cinema da Marvel aproveita-se disso mesmo e mostra muitas vezes os russos como vilões.

Rui Lopes: Sem dúvida. Há muitas narrativas da Guerra Fria que estão a ser recicladas. Em parte em resposta ao tempo presente e de estarmos novamente num conflito com a Rússia e, de certo modo, com a China. Há outra parte, provavelmente menos ideológica, que é o facto de termos pessoas a fazer filmes nos dias de hoje que foram pessoas que cresceram durante essa época. Ou que mesmo não tenham nascido durante esse período foram influenciados por essas histórias. Os filmes de super-heróis são adaptações de personagens que foram criadas durante a Guerra Fria, ou de histórias escritas na Guerra Fria e que, embora adaptados aos tempos modernos trazem na sua genética ideias desse contexto histórico.

Capitão América Guerra Civil
Capitão América: Guerra Civil | © NOS Audiovisuais

MHD: Será que nos pode falar um pouco da perceção que os EUA tinham de Portugal durante a Guerra Fria e se irá abordá-la na sua conferência?

Rui Lopes: Esse não vai ser um objetivo desta conferência, por muito que faça alguma referência. Hollywood, na verdade, ao longo do período do Estado Novo – desde o início dos anos 30 aos inícios dos anos 70 – produziu dúzias de filmes em que o enredo se passava no Espaço Colonial Português, especialmente em Macau. Esses filmes são muito diferentes, de géneros variados, mas de alguma maneira apresentavam uma imagem limpa de Portugal. Temos um país onde não aparecia pobreza, repressão, ditadura e nem sequer são feitas referências à Guerra Colonial.

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De qualquer maneira, Hollywood ajudou a projetar por todo o mundo uma imagem pacífica do nosso país. Pelo mundo fora, as pessoas não estavam a ouvir os discursos dos representantes das Nações Unidas ou não estavam a ver as críticas que eram feitas em jornais. Aquilo que estavam a fazer era consumir cinema. Essa imagem era muito mais branda e omissa em comparação com o caráter totalitário do regime. No cinema americano não convinha salientar que Portugal tinha uma dimensão fascista. No “Casablanca” o nosso país é visto como um sítio para onde podemos fugir. Se há coisa que notámos, até com o caso da Marvel, é quando esses códigos são formados voltam a ser reproduzidos. Há esta ideia de responder às expetativas do público e de ver coisas que reconhecem.

filmes de super-heróis
Capitão América: Guerra Civil © NOS Audiovisuais

MHD: O Rui é também professor na University of London. Como é que o Reino Unido olha para o cinema dos Estados Unidos? Sente que existe maior proximidade até por falarem a mesma língua?

Rui Lopes: O caso do Reino Unido é, de longe, o que tem maiores relações com a indústria cinematográfica americana. Se pensarmos bem, aquele que continua a ser os filmes britânicos com maior distribuição e maior visibilidade em todo o mundo são co-produções entre ambos estes países. É uma relação que remonta ao início dos anos 60, sendo absolutamente central nesta indústria. Há uma grande cumplicidade, como nas produções de James Bond.

Existem produções e escolas alternativas a esta relação, que apresentam visões e críticas diferentes. Um dos pontos que curiosamente vou fazer na minha conferência prende-se à tradição de apresentar visões dissidentes.

James Bond | © Metro-Goldwyn-Mayer Pictures
James Bond | © Metro-Goldwyn-Mayer Pictures

MHD: Vemos mesmo que alguns dos agora grandes nomes do cinema de Hollywood vieram do cinema mais dissidente, de um cinema indie.

Rui Lopes: É uma indústria e como qualquer indústria criativa todo o processo é de tensão permanente. Existe uma tensão entre ideologia e interesse comercial, uma tensão entre o que o Estado quer e aquilo que a indústria quer, há uma tensão entre uma visão mais criativa e individual destas pessoas e aquilo que é no fundo uma visão de uma empresa.

Até me parece engraçado, quando falamos dos filmes de super-heróis existem análises para todos os gostos. Não interessa à indústria fazer filmes com uma mensagem política muito fechada, porque isso não é uma receita de sucesso. Os filmes de Hollywood acabam assim por ser muito ambíguos e conseguem chegar a várias pessoas em todo o mundo.

MHD: Quão importante lhe parece ser o ciclo Impérios que se realiza até meados de dezembro na Culturgest?

A minha conferência funcionará como transição. O ciclo teve um primeiro momento sobre imperialismo europeu, a minha conferência será dedicado ao imperialismo americano e depois haverá um terceiro momento sobre o imperialismo russo.

O Ciclo de Conferências Impérios é organizado pela Culturgest em colaboração com o Instituto de História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa / IN2PAST – Laboratório Associado para a Investigação e Inovação em Património, Artes, Sustentabilidade e Território, Instituto de Comunicação da NOVA, ICNOVA- FCSH-UNL. Todas as informações podem ser conhecidas no site oficial da Culturgest.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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