“Best in Show” é uma referência no universo das comédias norte-americanas, lançado no ano de 2000 com realização por Christopher Guest e argumento co-escrito em conjunto com o ator Eugene Levy. Exibiu no 23.º IndieLisboa, inserido na retrospectiva dedicada aos mockumentaries ou “mocumentários”.
O universo dos falsos documentários no IndieLisboa
De 30 de abril a 10 de maio, o IndieLisboa voltou à capital para exibir o melhor do cinema independente do último ano. Mas como qualquer bom e completo festival, apresentou também secções retrospectivas. Destaque para uma interessante e inesperada retrospectiva que decorreu na Cinemateca Portuguesa, a dedicada ao universo dos “mockumentaries”.
O que são mockumentaries? Em suma, são falsos documentários, os quais apresentam eventos fictícios ou manipulados, apresentando-os como se se tratassem de documentários. O género é bastante plástico e a retrospectiva do IndieLisboa reflete essa elasticidade. O mockumentário é muito associado atualmente a comédias de televisão, tendo sido popularizado pela versão norte-americana de “The Office” e posteriormente empregue noutras séries de comédia de sucesso como “Parks & Recreation” ou “Modern Family”.

Todavia, há muito a dizer sobre o formato. Nomeadamente, pode e foi também já aplicado no reino do terror. Como parte desta retrospectiva foi possível ver um exemplo basilar – o filme “The Blair Witch Project”. E, de forma mais pontual, o drama pode também viver no mocumentário, como aconteceu com o intimidante senão tenebroso “Las Hurdes” (Terra Sem Pão), de Luis Buñuel, um devastador conto que se enquadra neste género por ter tido uma história fabricada.
O mockumentary pressupõe sempre uma fabulação, e muitas vezes tem marcas distintivas do género, como por exemplo entrevistas frente à câmara, na qual os sujeitos recapitulam os eventos que se estão a desenrolar. “Best in Show” tem diversas destas características e, como clássico da comédia mockumentary no cinema, foi uma excelente escolha para exibição no IndieLisboa.
Esta é a história de uma competição canina peculiar, oferecendo um olhar privilegiado no que diz respeito ao mundo competitivo das exibições de cães, visto através do prisma dos seus donos e cuidadores. Aqui, acompanhamos o pré-competição, a competição e a vida destes vários casais meses depois do final da competição no “Mayflower Dog Show”.
As performances inesquecíveis de Best in Show
A longa-metragem “Best in Show” vence através do seu humor, por vezes extremo e absurdo, e muitas vezes deadpan. Mas acima de tudo, vence através do fenomenal elenco cómico que apresenta. Destaque para a parelha Jennifer Coolidge (“The White Lotus”) e Jane Lynch (“Glee”), a dona de um cão de competição e a sua treinadora, que desde logo mostram excelente química no ecrã e que ao longo da obra desenvolvem uma associação romântica.

Não podemos, neste ponto, deixar de elogiar a representação de personagens LGBTQIA+ numa comédia mainstream lançada no ano 2000. “Best in Show” é profundamente queer friendly, e embora utilize as suas relações homossexuais como parte do humor, nunca as ridiculariza ou leva menos a sério. Tal não parece muito, mas há que considerar que o lançamento do filme conta já 26 anos.
Destaque também para a performance de Parker Posey como uma dona de cão de competição absolutamente neurótica e que, à conta da sua neura, acaba por custar a competição ao seu concorrente. Quem a adorou em “The White Lotus” e nunca tenha visto “Best in Show” vai de certo delirar com as qualidades igualmente exacerbadas da personagem aqui representada.
Dizer adeus a Catherine O’Hara em 2026
Por fim, os “underdogs” e protagonistas reais desta obra são Cookie Fleck e Gerry Fleck, correspondentemente interpretados por Catherine O’Hara e Eugene Levy, uma parelha que contracenou múltiplas vezes ao longo da sua carreira, e cuja colaboração culminou no casal inesquecível que interpretaram em “Schitt’s Creek“. Ver “Best in Show” em 2026 acaba por funcionar também como uma homenagem à grande O’Hara, que perdemos cedo de mais no início deste ano e que entrega aqui uma performance cativante.

O arco narrativo de Gerry e Cookie é, aliás, o mais luminoso e recompensante de “Best in Show”. Aqui, a humanidade do par e o seu infortúnio acabam por funcionar como os elementos que humanizam todo o “disparate” da narrativa: da surreal competição canina aos exagerados receios e devaneios dos participantes. Aqui, nesta relação e na sua evolução narrativa, encontramos um muito prezado e importante equilíbrio que acaba por elevar a longa-metragem.
Desse lado, fã de mockumentaries? Já viste “Best in Show”? Não podemos deixar de recomendar, especialmente aos amantes de animais.
Best in Show, a Crítica
Conclusão
“Best in Show” é uma comédia com muito espaço para o exacerbado e para o absurdo, mas também um filme repleto de coração. O elenco excelente, com várias lendas da comédia, torna a visualização essencial.

