"Hamnet" | © Focus Features

Jessie Buckley | A Rapariga Que Veio de um Talent Show, Para Nos Partir o Coração nos Cinemas.

De segunda classificada num concurso da BBC a favorita ao Óscar de Melhor Actriz: como Jessie Buckley uma irlandesa do interior se tornou uma das melhores e respeitadas actrizes britânicas da sua geração.

Durante anos, Jessie Buckley foi para muitos “aquela actriz muito boa que aparece em filmes difíceis”. É talentosa, intensa, estranha e entranha-se. É ao mesmo tempo aquela namorada gira, que não é excepcionalmente bela ou bonita, mas que todos gostávamos de ter, porque tem pinta, tem personalidade ou melhor tem “pelo-na-venta”. Porém, é o tipo de actriz que parece nunca ter escolhido um caminho fácil, para chegar aos seus objectivos. Não vai lá com pouco. Entra em cena como quem entra imediatamente num conflito emocional. E, de repente, com “Hamnet”, deixou de ser apenas um segredo bem guardado do cinema e dos palcos britânicos para se tornar aquilo que Hollywood mais respeita e mais teme: uma actriz de fora, irlandesa, mas impossível de ignorar. Aos 36 anos, vencedora do Globo de Ouro 2026 de Melhor Actriz (Drama) e favorita declarada aos Óscares, Buckley chegou ao ponto em que já não precisa de provar nada a ninguém. Mas chegou lá da maneira menos óbvia possível: fora das grandes produções, sem  trabalhar com os super-heróis, sem escândalos, sem selfies calculadas, sem romances promocionais, pois é bem casada e tranquila. Chegou lá a sofrer em público. A sangrar em plano fechado. A falhar de uma forma bonita, mas dorida. Mas a arriscar sempre, sempre.

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Jessie Buckley
Jessie Buckley é espantosa em “Besta”. ©Arquivo MHD

Da Televisão Popular à Arte Maior

Jessie Buckley nasceu em Killarney, no condado de Kerry, na Irlanda profunda, longe das passadeiras vermelhas e dos agentes de Beverly Hills. Cresceu numa família numerosa, frequentou uma escola de freiras, cantava desde pequena e, como muitas raparigas talentosas fora dos centros de poder, entrou primeiro pela porta lateral: um concurso televisivo da BBC, “I’d Do Anything”, em 2008, para escolher a nova Nancy do musical “Oliver!” no West End londrino. Ficou em segundo lugar. Perdeu. Foi quase. E descreveu mais tarde essa experiência como uma “brutalização” e a melhor coisa que lhe podia ter acontecido na vida. Porque Buckley nunca foi feita para ser só produto musical ou da televisão. Formou-se na RADA (Royal Academy of Dramatic Art), em Londres, aprendeu teatro a sério, Shakespeare a sério, disciplina a sério. Trabalhou no prestigiado Globe, nos teatros do West End de Londres, fez televisão britânica com sotaque carregado de talento: “Guerra & Paz”, “Taboo”, “The Woman in White”. E, lentamente, começou a infiltrar-se no cinema como quem não quer dar muito nas vistas. Até dar. A primeira explosão foi “Besta”, escrito e realizado pelo britânico Michael Pearce, um thriller psicológico onde interpretava uma jovem emocionalmente instável, apaixonada por um homem possivelmente assassino. Era um papel de risco. Buckley transformou-o num manifesto: vulnerável, agressiva, magnética, imprevisível. Ali percebeu-se que não estávamos perante “mais uma boa actriz”, mas perante alguém que joga sem rede.

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Jessie Buckley
Jessie Buckley em “Wild Rose – Rosa Selvagem” (2018) © BFI

Uma Carreira Construída à Base de Risco

Depois vieram “Chernobyl”, “Fargo”, “Wild Rose-Rosa Selvagem”, “Tudo Acaba Agora”, este último do “surreal” realizador Charlie Kaufman. Cada papel parecia escolhido para complicar a vida a Buckley. Nada de princesas. Nada de heroínas simpáticas. Sempre personagens feridas, contraditórias, desconfortáveis. Como se Buckley tivesse alergia à normalidade ou a personagens convencionais. A consagração crítica veio com “A Filha Perdida”, ao lado de Olivia Colman, realizado por Maggie Gyllenhaal. Foi a primeira nomeação ao Óscar. A primeira confirmação oficial: “sim, esta mulher é especial”. Depois, “Men”, de Alex Garland, onde enfrentava literalmente o patriarcado sob a forma de um Rory Kinnear multiplicado. Cinema de terror, feminismo, trauma, metáfora pesada e Buckley mergulhou sem pestanejar. Pelo meio, fez teatro musical: “Cabaret” no Playhouse Theatre de Londres. E como Sally Bowles, ganhou um Olivier Award, um prémio do teatro britânico. Ao que consta, sem exageros, parece que foram plateias em silêncio absoluto. Pessoas a parar de respirar nos espectáculos. Colegas a olhar para ela como quem assiste a um fenómeno natural. “É como se tivesse menos uma camada de pele”, disse a encenadora Rebecca Frecknall, durante os ensaios da peça e descrever a intensidade emocional e a vulnerabilidade da actriz. Exactamente: Buckley é mesmo assim. E depois chega “Hamnet”. E tudo muda.

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“Hamnet” | © Focus Features

“Hamnet”: O Papel Que Mudou Tudo

Em “Hamnet”, da realizadora sino-americana Chloé Zhao, Jessie Buckley é Agnes, a mulher de Shakespeare, a mãe que perde um filho, a alma que se parte ao meio. Não é “representação”. É exposição pura. Há uma cena em que grita e aquele grito não é cinema: é a vida ou o desgosto, vem lá do fundo a sai-lhe do corpo. Zhao disse que parecia vir “de outro tempo”. Vem do sítio onde a dor não é linguagem, é ruído. Buckley faz em “Hamnet” uma das grandes interpretações da década. Daquelas que entram para listas dos tops. Há mesmo, que pela sua beleza discreta a compare com Gena Rowlands, Maria Falconetti ou Anna Magnani. Não por marketing, mas por evidência. Paul Mescal é excelente. O filme é bonito. A realização é sensível. Mas o coração do filme é sem dúvida ela. É por isso que ganhou o agrado da crítica. É por isso que lidera o favoritismo nos Oscar. É por isso que mete medo. Porque não actua para agradar, mas sim para dizer a verdade emocional, mesmo que doa. EmThe Bride!”, da actriz e realizadora Maggie Gyllenhaal, com estreia marcada para o final de março de 2026), Jessie Buckley assume o papel principal como a icónica Noiva de Frankenstein, um solitário, interpretado por Christian Bale.

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Jessie Buckley e Charlie Kaufman em “Tudo Acaba Agora”. | © Netflix

Jessie Buckley: A Anti-Estrela Que Hollywood Respeita

Fora do ecrã, Buckley é quase uma anti-estrela. Vive em Norfolk, na região leste de Inglaterra, casou com um profissional da área da saúde mental, foi mãe recentemente, e foge a sete-pés do circo mediático. Não constrói personagem pública. Não joga ao jogo das celebridades. Prefere escrever música, gravar discos com Bernard Butler, cozinhar para amigos, desaparecer. E, quando regressa, regressa com uma bomba emocional. Colegas descrevem-na como “um animal no seu habitat”. Fascinante, perigosa. bela, mas discreta. Capaz de morder se for preciso dizem entre risos. Ben Whishaw (o actor que interpreta o Q dos últimos James Bond), que foi seu colega de curso na Academia, diz que trabalhar com ela é assistir a um instinto em acção. Não há fórmula. Não há método visível. Há simplesmente entrega.

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Jessie Buckley em The Bride!
No novo projecto “The Bride”, da realizadora Maggie Gyllenhaal. ©Warner Bros.

A favorita a Melhor Actriz 2026

Numa época em que muitos actores são produtos polidos, treinados, filtrados, Jessie Buckley é exactamente o oposto: é excesso, risco, imperfeição, carne viva. Uma actriz que não quer que gostem dela, quer antes que sintam alguma coisa. “Quero que as pessoas sintam”, disse. “Não que se desliguem.” Missão cumprida. Com um Globo de Melhor Actriz (Drama) em casa, Óscares à vista e respeito absoluto da indústria de cinema global, Buckley não parece prestes a abrandar. Pelo contrário. Está no ponto exacto em que pode escolher os projectos mais difíceis. E vai escolhê-los. Porque é disso que vive. Do desconforto. Da vertigem. Da verdade. Jessie Buckley não é uma estrela fabricada. É uma verdadeira força da natureza com contrato de cinema. E, numa indústria viciada em plástico emocional, uma actriz versátil, vale mais do que todos os prémios do mundo.

JVM

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