Michael Fassbender como Bobby Sands em "Fome"| ©LEFFEST

LEFFEST’22 | Fome com Michael Fassbender

Se consultarmos várias listas alusivas à ainda relativamente curta mas bastante prolífica carreira do realizador britânico Steve McQueen, é bem provável encontramos o seu “Fome” nos lugares cimeiros. Foi, sem dúvida, um privilégio poder assistir à obra, no contexto do Lisbon & Sintra Film Festival, com a presença do seu protagonista Michael Fassbender na sala. 

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No âmbito do ciclo “Romper as Grades: A Cultura Como Espaço de Liberdade e Resistência nas Prisões”, uma programação do LEFFEST’22 que chegou às salas de cinema de Lisboa, Sintra e até aos espaços prisionais em novembro de 2022, surgiu a oportunidade de (re)ver “Hunger”, ou “Fome” (2008), uma das obras mais marcantes da fenomenal filmografia do britânico Steve McQueen. Como bónus imenso, o semi-lisboeta Michael Fassbender (inclusive com apoio, na plateia, da sua esposa Alicia Vikander – “Ex-Machina”) marcou presença na sessão e protagonizou ainda um Q&A sem pressas.

Em 2022, o LEFFEST liderou um rico debate em torno do estado das prisões e a sua relação com a cultura e a liberdade, para isso promovendo ações dentro do próprio espaço da prisão, bem como criando uma programação rica fora delas. Como evidente destaque deste ciclo, a esgotadíssima sessão no Teatro Tivoli, em Lisboa, na qual as ativistas e académicas Angela Davis e Gina Dent falaram, durante cerca de três horas, contra o sistema prisional em vigor à escala internacional, mas também contra a natureza opressora das forças policiais e do próprio regime capitalista.

“Fome” é uma longa-metragem que assenta que nem uma luva no âmbito deste ciclo, não ilustrasse ela a força opressiva imensa do próprio espaço da cadeia. Nas palavras do próprio realizador, citadas pelo Website do LEFFEST:

Em Fome, não há noções simplistas de herói ou mártir, ou ‘vítima’. A minha intenção é provocar um debate no público, e desafiar a nossa própria moralidade através do cinema.

Pertinente, acutilante e violento em igual medida, assim é “Hunger”, um vagaroso filme que, na marca de pouco mais de 1h30, consegue fazer-se sentir bastante claustrofóbico . Em parte devido à tal natureza vagarosa, também devido à visceral natureza das imagens apresentadas no ecrã, e em parte motivado pela existência de inúmeros planos pormenor, lentos, quase estáticos. A ausência de diálogos durante grande parte da fita reforça também o desconforto.

Esta é a história verídica de Bobby Sands, uma figura muito importante no Exército Republicano Irlandês (IRA) no final dos anos 70 e no início da década de 1980. Encarcerado na tirânica Prisão Maze, na Irlanda do Norte, e depois de não conseguir obter o estatuto de preso político através de diversos atos de protesto, Bobby lidera e dá início a uma greve de fome entre os restantes membros do IRA.

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O que se segue, na parte final do filme, é o cruel fim que Sands impôs a si mesmo, em nome de um ideal e da defesa das suas crenças inabaláveis, tal como a personagem central afirma: I have my belief, and in all its simplicity that is the most powerful thing (“Eu tenho as minhas crenças e, em toda a sua simplicidade, nada poderia ser mais poderoso”).

As sequências finais são assombrosas, cruas, desprovidas de sentimentalismo fáceis, à medida que “Fome” urge ao confronto entre as nossas certezas e a apresentação de situações limite. Para Michael Fassbender, que encarna Sands, este papel torna-se muito difícil, quer do ponto de vista espiritual, quer físico. Todavia, capta para si com a atenção da câmara (e de quem vê) com particular bravado.

Fome (2008) no ciclo romper as grades
“Fome” torna-se mais difícil de travar à medida que progride, sem se coibir de expressar a dureza da sua realidade | ©Film4

A acutilância da obra passa também pela sua ausência de facilitismo. Este filme, vencedor de prémios em Cannes, Veneza, nos BAFTA, e em muitas outras premiações de cinemas e festivais, em particular na categoria de revelação (McQueen), mostra-nos, por diversas vezes, como o próprio clima prisional é opressivo para os próprios opressores, reforçando o processo de desumanização que aqui se opera. As lágrimas, e as perdas, essas acontecem dos dois lados da barricada.

Eis que, ao longo dos seus 96 minutos de duração, “Hunger” faz-se de várias sequências com ênfase na contemplação e reflexão, bem como na observação de pormenores físicos fulcrais para compreender o estado de espírito das personagens que se movem na tela – nós dos dedos ensanguentados contra a neve branca, excrementos dispostos nas paredes, rios de urina geometricamente organizados.

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Todavia, as palavras não deixam de falar mais alto num filme que se faz tanto de silêncios como do peso do seu argumento. Na sessão no Centro Cultural Olga Cadaval, Michael Fassbender descreveu “Fome” como uma “obra sensorial”. Isto porque a primeira parte do filme depende mais da apresentação do espaço do que de diálogos, para mais tarde nos apresentar um delicioso confronto verbal de titãs entre as personagens Padre Dominic (Liam Cunningham) e Bobby Sands (Michael Fassbender).

O ator avança que, na sua perspetiva, os silêncios prévios servem como mecanismo que nos permite absorver melhor todas as palavras que são ditas nesta troca de argumentos rápida e incisiva. Sem dúvida, consideramos esta análise pertinente, perante uma cena de 17 minutos de duração (a ocupar uma parte significativa do filme), toda ela em contínuo, sem quaisquer cortes nas filmagens, e que nos desarma por completo.

Hunger 2008 Steve McQueen
Padre Dominic (Liam Cunningham) e Bobby Sands (Michael Fassbender) na cena mais poderosa do filme |©Film4

Durante a cena, a câmara permanece sempre no mesmo plano de conjunto. A ausência da proximidade dos rostos em nada rouba à seriedade deste poderoso diálogo, entregue com a maior da solenidade. Na sessão, Fassbender recordou que, perante o medo de “estragar” a cena e o trabalho de toda a equipa, ele e Liam Cunningham chegaram a treinar a cena cerca de 15 vezes por dia. No dia da gravação, acabaram por ir para casa mais cedo, com todo o material reunido ao final de quatro takes.

“Fome” não é uma obra fácil, deixando muitas questões no ar (e muita mágoa e revolta). Além disso, tratando-se de uma produção britânica relativamente independente, também não entra pela veia da sobre-explicação de eventos históricos.
Desta forma, nunca nos é dito porque é que Bobby foi preso, nem tão pouco nos foi apresentada a ação mais radical do grupo IRA, o porquê de tantos dos seus membros terem sofrido um processo de criminalização e as ramificações sociais das suas penas. Pelo menos não de forma aprofundada.
Do ponto de vista histórico, o período retratado é um dos mais pesados da história do Reino Unido e da Irlanda do Norte no século passado. Todavia, sem o devido contexto prévio, muito poderá passar ao lado. Aconselha-se, por isso, algumas breves leituras acerca desta época antes do visionamento da obra. Não obstante, os eventos de “Fome” são auto-contidos, poderosos e mais que suficientes para se afirmarem por si só.

TRAILER| FOME (2008) FOI RECORDADO NO CICLO ROMPER AS GRADES DO LEFFEST

Fome, em análise
Hunger no Leffest'22 Romper as Grades com Michael Fassbender

Movie title: Fome

Movie description: "Fome" , a primeira longa-metragem do realizador britânico Steve McQueen, conta a história verdadeira de Bobby Sands (Michael Fassbender), membro do IRA, que morreu após 66 dias de greve de fome na prisão de Maze, Irlanda do Norte.

Date published: 23 de November de 2022

Country: Reino Unido, Irlanda

Duration: 96'

Author: Enda Walsh, Steve McQueen

Director(s): Steve McQueen

Actor(s): Michael Fassbender, Liam Cunningham, Brian Milligan

Genre: Drama, Biografia, Criminal,

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  • Maggie Silva - 90
90

CONCLUSÃO

“Fome”, a primeira longa-metragem do galardoado realizador britânico Steve McQueen, é uma representação dura e não romantizada de um dos períodos mais conturbados da história da Irlanda do Norte (com repercussões nos dias de hoje).

Pros

  • As prestações centrais de Liam Cunningham e Michael Fassbender e a sua cena longa;
  • A visão crua, mas ainda assim lírica, sobre pesados acontecimentos históricos;
  • A bravura da câmara, que não se coíbe de mostrar os momentos-chave mais incómodos.

Cons

  • A falta de contexto por vezes atraiçoa quem vê, por muito que o filme sobreviva bem sem ele.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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