LEFFEST’22 | The Whale, em análise

“The Whale” é a mais recente incursão no campo da realização por parte de Darren Aronofsky, um dos mais transgressores realizadores dentro do campo do cinema ‘mainstream’ norte-americano. Tal título é honrado através desta obra? 

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“The Whale”, que só chegará às salas de cinema portuguesas a 2 de março de 2023 (mesmo a tempo do mês dos Óscares, que se realizam no dia 12) com distribuição a cargo da NOS Audiovisuais, teve direito a ante-estreia ainda em 2022 no âmbito da mais recente edição do LEFFEST (10-20 NOV).

Esta é a primeira longa-metragem que Aronofsky realiza desde o seu imensamente divisivo “Mother!”, protagonizado por uma magistral Jennifer Lawrence num papel em que o profundo do seu ser se vê transformado, dos seus gestos ao seu tom de voz.

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Darren Aronofsky já não apresentava uma longa desde o arrojado “Mãe!” (2017) | ©NOS Audiovisuais/ Paramount

Ora, “Mãe!” não fora nada senão divisivo, quer junto da crítica, quer junto do grande público. Quando chegou a hora da temporada de prémios, a audaz subversão presente na longa-metragem viu-se “recompensada” com nomeações a Razzies e não a Óscares, refletindo a reação visceral que este filme teve em muitas pessoas.

Tentando encapsular mil e uma temáticas fraturantes, “Mother!” nunca se tornou coeso e dependeu talvez, um pouco demais, do valor choque. Todavia, ninguém lhe tira a capacidade de provocar uma reação e de convidar à reflexão. São muitas as leituras, os caminhos, e as desesperantes noites em claro que poderíamos passar a pensar sobre esta obra única.

Com “A Baleia”, volvidos 5 anos desde o terramoto de “Mother!”, Darren Aronofsky adapta “The Whale”, peça da autoria de Samuel D.Hunter, e conta a sua história mantendo o espírito de palco de teatro ao fazer a tradução para o grande ecrã.

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Tendo em conta o argumento, a história de um homem obeso mórbido que não deixa o seu apartamento, por inércia, depressão mas também por incapacidade física, esse registo sem dúvida justifica-se. Encontramo-nos num cenário triste e opressor, um pequeno apartamento que se afirma como o mundo inteiro da personagem central.

O nosso herói improvável é Charlie (Brendan Fraser, longe dos seus dias de galã mas a mostrar uma nova versatilidade e capacidade dramática), um homem com mais de 200 quilos que vive num apartamento degradado, dá aulas online sem nunca ousar ligar a sua câmara, e passa os seus dias a comer (como nítida compulsão) e, de certa forma, a aguardar a morte.

Uma perda traumática no seu passado, a do seu namorado, da qual nunca recuperou, assim o “condenaram” a um marasmo de arrependimento e culpa. Todavia, a beleza não deixa de existir na vida de Charlie, que apesar da sua frágil condição não deixa de ser um homem interessante, culto, e bem-disposto.

Várias personagens dinâmicas vão entrando e saindo de cena (exatamente como numa peça de teatro, entrando sempre pelo mesmo canto do enquadramento): Liz (Hong Chau), a sua amiga enfermeira, que tudo fará para ajudar a salvá-lo; Thomas (Ty Simpkins), um jovem missionário mórmon que, de forma muito desajeitada, procura também melhorar a vida de Charlie, e ainda Ellie (Sadie Sink), a revoltada filha adolescente de Charlie, a mais marcante personagem secundária, de quem Charlie se procura despedir nesta fase final da sua vida.

Sadie Sink em A Baleia (2022)
Sadie Sink em “The Whale” | ©LEFFEST

Resoluto em não se salvar, grande parte do filme medita em relação a uma possível redenção espiritual a ser (ou não)  encontrada. Na reta final, sem entrar em detalhes de enredo, parece-nos sem dúvida que a veia do “espírito acima de matéria” acaba por prevalecer de forma pouco subtil, tomando conta do desenlace emocional.

“The Whale” é convidativo, extremamente humano, emocionante. Todavia, é também pautado por um incómodo e insistente melodrama que ameaça tudo engolir. A principal motivação de Charlie, antes de partir, é conhecer melhor a sua filha Ellie e garantir de que esta forma relações humanas saudáveis e baseadas na partilha e empatia.

Tal missão revela-se difícil, tendo em conta a revolta que fervilha. As interações entre Fraser e Sink são bastante valorosas, com os dois atores a exibirem uma notável entrega emocional. Ainda assim, tal não é suficiente e o argumento de “The Whale” fraqueja.

Destaca-se, em primeiro plano, a gritante falta de subtileza. Nomeadamente, “Moby Dick” está sempre a vir à baila e o nosso protagonista é comparado à baleia vezes e vezes sem conta. A metáfora é simples, directa e… repetida ad nauseam.

E por muito que as emoções do filme tenham validade e ocasionalmente até beleza, um clima tão melodramático, que nos grita a “mensagem” da obra ao invés de a deixar transparecer, depressa nos deixa com uma sensação de notório cansaço. É precisamente isso que aqui acontece.

Outro problema com a estrutura narrativa de “The Whale”, que afinal se parece basear numa peça com um texto base que deixa bastante a desejar, é a backstory mal contada. Passo a explicar: o passado de Charlie é a chave para o seu presente e para a sua condição.

Quando finalmente nos são revelados os detalhes acerca do trauma que condiciona o seu passado, presente e futuro, eis que a falta de especificidade e contexto nos deixa em suspenso. A história de “A Baleia” é frustrante, por estar mais ocupada com gratificação emocional e espiritual do que com a criação de um universo verdadeiramente detalhado. A frustração apenas aumenta quando percebemos que a emoção é mesmo a força (praticamente a única) que motiva o filme.

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A questão das expectativas também não deve ser posta de lado: “The Whale” não é um mau filme formulaico sobre emoções humanas, resiliência, perda e trauma –  é até razoável. Contudo, uma pergunta persiste e recusa a dissipar-se: Onde está o arrojado Aronofsky ?

Onde está o Darren Aronofsky dos dramas quase psicadélicos, nos quais mulheres elegantes personificam o mito do Cisne Negro (“Black Swan”), onde bebés são cruelmente despedaçados (“Mother!”), ou onde contactamos com a mais desoladora face do vício (“Requiem For a Dream – A Vida Não é Um Sonho”)?

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Jared Leto em “Requiem For A Dream”, uma das melhores obras de Darren Aronofsky © Artisan Entertainment

Aquele Aronofsky que recordamos com mais carinho e louvor, o que filmou cenas visualmente impactantes e emocionalmente devastadoras, não parece ter estado para lá de inspirado ao assinar este “The Whale”, um filme que exige a lágrima fácil mas que não ousa oferecer assim tanto em troca.

Presos num apartamento decrépito e sem cenários deslumbrantes (como os “The Fountain”, por exemplo) e sem os habituais elementos fantasiosos, tudo o que nos resta é a espiritualidade. Não é suficiente, não para quem espera uma experiência impactante edificada pelo realizador nova-iorquino.

TRAILER| THE WHALE ASSINALA O ‘REGRESSO’ DE BRENDAN FRASER

The Whale, em análise
Poster the Whale

Movie title: The Whale

Movie description: The Whale é a história de Charlie [Brendan Fraser numa interpretação inesquecível e comovente], um professor de inglês que vive fechado em casa devido à sua condição de obesidade mórbida, e que, numa tentativa de redenção, tenta reaproximar-se da sua filha adolescente.

Date published: 20 de November de 2022

Country: EUA

Duration: 117'

Author: Samuel D. Hunter

Director(s): Darren Aronofsky

Actor(s): Brendan Fraser, Sadie Sink, Hong Chau

Genre: Comédia Negra, Drama,

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  • Maggie Silva - 64
64

CONCLUSÃO

“The Whale” é convidativo, extremamente humano e emocionante. Por outro lado, o melodrama é incomodativo e insiste em tudo consumir. A marca autoral de Aronofsky vê-se muito diluída e o sentimentalismo vence.

Pros

  • As prestações centrais de Brendan Fraser, Hong Chau, da jovem Sadie Sink, e ainda a pequena mas marcante presença de Samantha Morton;
  • A criação de um cenário extremo e que habitualmente obtém pouca atenção por parte dos media (pessoas com mobilidade reduzida devido à obesidade mórbida);
  • A construção de personagem que vê além do cliché e dos retratos simplistas.

Cons

  • A prisão em que nos encontramos: sim, o mundo vê-se reduzido ao mundo habitado pelo protagonista, mas as grandes potencialidades da máquina do cinema não são exploradas, a mundanidade reina (tal como os lugares-comuns);
  • Aronofsky pouco reconhecível, não tanto no que diz respeito a temáticas, mas acima de tudo no campo da execução – tudo é “académico” e pouco inventivo.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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