Mês em Música | Playlist de Janeiro 2019

Playlist de Janeiro 2019 | Os álbuns

Não se pode dizer que o Why Hasn’t Everything Already Disappeared, dos DEERHUNTER, seja um álbum de canções. Mesmo os três singles que saíram, em antecipação do lançamento, tendem a passar despercebidos, problema que a audição repetida só parcialmente resolve. É apenas no contexto do álbum que estas canções revelam uma indefinível estranheza e o conteúdo lírico emerge, saliente, na narrativa de descontentamento e perplexidade tecida ao longo do mesmo.

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O narrador vai construindo, em frescos históricos ou histórias isoladas, uma visão sombria do mundo, o sentimento de um paraíso perdido: “The village green/ Is nocturnal”. Se o erro humano parece estar na origem de muito deste negrume, não é certo que valesse a pena as coisas serem de outro modo, porque “what happens to people? They fade out of view”. E, se tudo e todos estão destinados a desaparecer na voragem do tempo, “I’ll fade, why can’t I?” Os vários instrumentais ou semi-instrumentais (talvez os melhores momentos deste álbum quase ambiental) introduzem longas, soporíferas pausas que induzem ao esquecimento, deixando bem para trás o que foi dito. Mesmo nas canções propriamente ditas, o conteúdo lírico é muitas vezes esparso, sendo repetido hipnoticamente até desaparecer ele também num apagão da atenção e da memória.

Esta paisagem esboçada por uma contemplação derreada, alquebrada seria completamente sem esperança se não fosse pelo título do álbum. De facto, se cada coisa que emerge e floresce ao olhar parece estar, intimamente cancerosa, condenada a desvanecer, então por que não desapareceu ainda tudo? Porque continuam as coisas, teimosa e irracionalmente, a existir? A perplexidade é real e a pergunta paira sobre cada instante do álbum, que serve assim, não tanto para nos fazer soçobrar no desespero, mas para dar conteúdo à surpresa de que é feita esta interrogação.

PLAYLIST DE JANEIRO | WHY HASN’T EVERYTHING ALREADY DISAPPEARED

A melhor síntese sobre os temas em torno dos quais It Won’t Be Like This All The Time, dos TWILIGHT SAD, gira foi feita pelo próprio vocalista James Graham quando, no comunicado de imprensa sobre o primeiro single “I/m Not Here [missing face]”, explica que a letra é “sobre a minha luta contínua com o facto de não querer bem a mim próprio, tentar ser uma boa pessoa mas sentir constantemente que estou a falhar diante de mim mesmo e de todos os que estimo”. O combate contínuo consigo mesmo, os fantasmas e monstros que emergem das temíveis profundezas do eu para destruir as relações, a súplica por uma mão que permaneça e de novo se lhe estenda, tudo isto regressa canção após canção, justificando a descrição que Graham fez do seu trabalho.

Esta turbulência interior encontra simpatia e eco na guitarra poderosa de Andy MacFarlane, que, regressando à antiga agressividade, prévia a Nobody Wants to Be Here and No One Wants to Leave (2014), oscila controladamente entre distorção e feedback emprestados de Kevin Shields e acordes límpidos e reverberantes que não destoariam no  Desintegration dos Cure. Voz e guitarra crescem e recrescem continuamente para, intensas, qual buraco negro de gravidade impossível, engolir toda a massa em redor, numa imagem sensível de que “there’s no love too small”.

PLAYLIST DE JANEIRO | IT WON’T BE LIKE THIS ALL THE TIME

Não foi completamente surpresa, mas foi-o bastante ainda assim, admitamo-lo. Várias colaborações no passado e alguns teasers recentes não foram capazes de nos preparar para a queda, no dia 24, via Dead Oceans, de um álbum inteiro assinado pelo projecto BETTER OBLIVION COMMUNITY CENTER, que assim anunciava ao mundo a sua chegada. O eternamente melancólico Conor Oberst e a recente sensação Phoebe Bridgers têm uma banda que, a julgar pelas actuações ao vivo no The Late Show With Stephen Colbert e na CBS, talvez inclua também, na sua versão de digressão, o guitarrista Nick Zinner, dos Yeah Yeah Yeahs.

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Nenhum deles tem estado parado, com Oberst a lançar duas canções magníficas ainda não há muito tempo e Bridgers a integrar o já famoso super-grupo boygenius, cujo EP homónimo foi um dos melhores discos do ano passado. Mesmo assim, o encontro destes dois cantores-compositores, com a sua sensibilidade folk melancólica, é claramente uma união com futuro como o atesta um álbum inteiro, as irresistíveis performances ao vivo e toda a campanha de promoção que nos espera. A começar por um videoclipe realizado por Michelle Zauner, dos Japanese Breakfast, para o single “Dylan Thomas”, que podes ver já aqui.

PLAYLIST DE JANEIRO | BETTER OBLIVION COMMUNITY CENTER

Playlist de Janeiro 2019 | O álbum do mês

Não há muitas dúvidas quanto ao álbum mais marcante do mês de janeiro, tanto para a MHD como a comunidade internacional. “Seventeen” abre a nossa Playlist de Janeiro não porque se trate do melhor single deste arranque do ano (que também é), mas porque representa o melhor álbum do mês. A divulgação que dele foi sendo feita ao longo do outono de 2018 ia revelando uma Sharon Van Etten diferente, amadurecida, que pudemos agora descobrir por completo. Uma descoberta que as versões ao vivo destas canções, particularmente da “Seventeen”, não têm senão confirmado, uma atrás da outra, arrepiando-nos o corpo e tomando-nos a alma de assalto. Sobre o que encontrámos, ao ouvir o álbum vezes sem conta, escrevemos o que se segue.

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Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow | em análise

“A  cantautora que desabafava, juvenil, as suas dores e angústia à guitarra ou ao piano, em voz intensa mas resguardada, cantando a medo os seus medos, desabrochou e descobriu o gozo de tocar e cantar a plenos pulmões. Remind Me Tomorrow vibra com uma energia ora em plena expansão, ora cheia da contenção que vem da consciência do valor do tempo e da acção, ora atravessada pela gravidade que traz a experiência da própria e alheia fragilidade. O corte com o passado e a sua revisita são fruto de uma nova liberdade. A de quem, tendo descoberto o seu lugar no mundo, pode perdoar e acolher a própria história precisamente porque esta, embora o tenha feito crescer, já não o determina. O plangente e meditativo lamento foi substituído por uma urgência palpável em cada verso, em cada linha melódica, em cada escolha de instrumento, dando origem a um álbum que abre e segue por uma nova estrada, cheia de possibilidades a explorar no futuro.”

PLAYLIST DE JANEIRO | REMIND ME TOMORROW

PLAYLIST DE JANEIRO | DESTAQUES DO MÊS

  • Tallies, Tallies (Kanine Records, 11 Janeiro)
  • James Blake, Assume Form (Polydor, 18 Janeiro)
  • Pedro the Lion, Phoenix (Polyvinyl, 18 Janeiro)
  • Steve Gunn, The Unseen In Between (Matador, 18 Janeiro)
  • The Twilight Sad, It Won’t Be Like This All The Time (Rock Action, 18 Janeiro)
  • Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow (JagJagwuar, 18 Janeiro)
  • Deerhunter, Why Hasn’t Everything Already Disappeared? (4AD, 18 Janeiro)
  • Toro Y Moi, Outer Peace (Carpark Records, 18 Janeiro)
  • Better Oblivion Community Center, Better Oblivion Community Center (Dead Oceans, 23 Janeiro)
  • Blood Red Shoes, Get Tragic (Jazz Life, 25 Janeiro)

PLAYLIST DE JANEIRO | SPOTIFY

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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