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Midnight Mass, minissérie em análise

“Midnight Mass” é a mais recente obra de Mike Flanagan, uma dissertação sobre a vida e a morte, com um toque de terror, que incentiva a discussão e desafia à reflexão.

Depois de “The Haunting of Hill House” e “Bly Manor”, Mike Flanagan leva-nos à igreja para a “Missa da Meia-Noite” ou, no original, “Midnight Mass”. Nela, o cineasta convida-nos a profunda dissertação sobre a vida e também sobre a morte. De todos os projetos de Flanagan, podemos dizer que este é o que convida a uma maior reflexão, e que talvez não seja para todos. “Tu és pó e em pó te hás de transformar de novo” (Génesis 3, 19) é o versículo que ecoa desta série.

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A missa da meia-noite que desencadeia o infortúnio destino dos habitantes de Crockett | Cr. Eike Schroter/NETFLIX © 2021

“Midnight Mass” foi uma das séries que viu a sua produção afetada pela pandemia. As filmagens estavam previstas para dezembro de 2019, mas eis que a Covid-19 trocou as voltas, e só oito meses depois é que Flanagan arrancou com o seu novo projeto. Garry Point Park em Richmond, no Canadá, foi o local eleito para personificar a ilha de Crockett, o qual está agora aberto a visitas. Apesar de todos os contratempos, o realizador de 43 anos referiu na sua página de twitter que

De facto – e não digo isto de forma ligeira – esta foi a melhor experiência de produção da minha carreira […] As nossas precauções recompensaram – não perdemos um único dia de produção, e ao contrário de muitas outras séries, nunca encerramos. Nem uma vez. 83 dias de filmagens, ininterruptos.”

É na pequena ilha de Crockett que se desenrola a ação principal da série. Uma ilha povoada por 127 almas, onde todos se conhecem, onde existe apenas um xerife, uma igreja, uma médica e uma mercearia. Onde o único meio de sair é num dos dois ferrys, o Breeze ou o Belle. É também uma comunidade de crentes católicos, que não falham uma missa. Mal saberiam que essa iria ser a sua maldição… literalmente.

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A história de “Midnight Mass” começa precisamente com a chegada do novo padre, o padre Paul (Hamish Linklater), a Crockett. O mesmo vem (aparentemente) substituir o anterior, o monsenhor Pruitt, agora em idade de reforma e a desfrutar da sua derradeira prenda: uma viagem a Jerusalém, oferta da caridosa comunidade. Tal como em muitos países, a série retrata a realidade de hoje: missas e sacramentos com cada vez menos participantes, apesar da grande maioria se identificar como católicos (em 2019, por exemplo, 74% dos portugueses afirmaram ser católicos). Portanto, cabe a quem dá a cara arranjar formas (se sentir essa motivação) de atrair novo sangue e reter o antigo. E, foi com esse objetivo que o padre Paul encarou a sua missão na pequena igreja de Crockett.

Atenção, a partir deste momento existirão spoilers de “Midnight Mass”

Contudo, Flanagan não se limita a explorar o catolicismo. Como contraste, navegamos também na religião muçulmana, personificada pelo xerife local, Hassan (Rahul Kohli), e pelo seu filho Ali (Rahul Abburi), também recém-chegados à pequena ilha. Pai e filho procuram um refúgio da discriminação que enfrentam no continente, mas as pequenas comunidades acabam, por vezes, por ser tão ou mais mortíferas. Hassan faz o seu melhor para não se meter nos assuntos religiosos da ilha, mas a situação complica-se quando Ali sente curiosidade em relação ao novo padre e às suas práticas, e quando na escola começam a focar-se apenas no catolicismo. É neste último ponto que Flanagan aproveita para fazer outra crítica, desta vez à necessidade de respeito mútuo entre crentes de diferentes religiões, bem como do ensino generalizado da religião. Ou seja, um estudo mais comparativo, capaz de auferir uma visão ampla aos mais novos, dando-lhes as ferramentas necessárias para realizarem a sua escolha.

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Zach Gilford e Hamish Linklater, respetivamente Riley e o padre Paul | Cr. Eike Schroter/NETFLIX © 2021

A este trio de recém-chegados, adiciona-se Riley Flynn (Zach Gilford), um ex-habitante da ilha que sofre de alcoolismo. Depois de um acidente em que toma a vida a uma jovem por estar a conduzir sobre a influência, Riley é preso durante quatro anos, regressando à sua cidade natal após cumprir pena. Dado que a família não falha a missa, o jovem acaba por se juntar, despertando o interesse do padre Paul, que depressa se predispõe a realizar reuniões de AA, para que Riley não tenha de ir ao continente. À semelhança de Riley, também outros habitantes se tornam como que ‘objectos de cura’ para o padre de forma a ganhar a confiança (cega) de toda a comunidade. Quem não gostaria de ter o seu próprio milagre? O problema é que são raros aqueles que pensam no possível preço que tal acto poderá ter.

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Voltando ao padre Paul e a Riley, Linklater e Gilford protagonizam ‘debates de meia-noite’ com uma dinâmica hipnotizante nas reuniões de AA. Mesmo que não estejamos por dentro de todos os detalhes bíblicos, o duo envolvemos e quase que damos por nós a pesquisar determinado versículo. Linklater sobressai com uma prestação memorável, que de certo será reconhecida nos próximos prémios televisivos (se não será um verdadeiro snub!). A mesma é apenas suplantada pela de Samantha Sloyan, que interpreta Bev Keane, que se auto designa o braço direito da igreja local e que acaba por ser o verdadeiro monstro de “Midnight Mass”, não olhando a meios para colocar o “trabalho do Senhor em marcha”. Entre o devota e fanática, Bev tem sempre uma resposta bíblica a dar, mesmo que o ‘demónio’ e o inferno esteja à sua frente – há que admirar o trabalho de Flanagan com esta personagem!

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Samantha Sloyan dá vida ao verdadeiro monstro do novo projeto de Flanagan, a fanática Bev Keane | Cr. Eike Schroter/NETFLIX © 2021

No entanto, o mesmo que tem de bom, pode jogar contra si. Os diálogos tornam-se muitas vezes dissertações, o que pode não resultar para todas as audiências. Um exemplo disso é o debate entre Riley e Erin (Kate Siegel) sobre a morte, sobre o que é morrer e o que nos poderá esperar ‘do outro lado’ que ocupa grande parte do quarto episódio “Book IV: Lamentations”. O mesmo seja talvez das poucas situações em que Flanagan se perde um pouco, estende-se em demasia. Estamos habituados a um pouco mais de suspense, e “Midnight Mass” acaba por de distanciar da antologia “The Haunting”, que inclui “Hill House” e “Bly Manor”, e que deu fama global ao cineasta.

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Este aspeto leva-nos ao último ponto: o terror. Flanagan continua a provar que é mestre no tema, e que o género não se limita aos sustos e à presença de monstros. Existem muitas outras nuances, não exploradas por muitos. Na nova série da Netflix, o monstro, se quisermos ser literais, é o vampiro que transforma (melhor dizendo rejuvenesce) o idoso e demente monsenhor Pruitt no jovem padre Paul, tornando-o seu igual. Poder que o último partilha (subtilmente) com a restante população de Crockett, resultando tanto em milagres, como em morte  Ou seja, os habitantes começam a melhorar claramente a sua condição física, mas o reverso da medalha também ocorre com o feto de Erin, que é encarado pelo sangue vampírico como um elemento estranho ao corpo, logo algo a ser eliminado. Contudo, o padre fá-lo com a melhor das intenções, ficando horrorizado com o preço a pagar. E, é aqui que a prestável Bev entra, desculpando-o pelos seus actos e encobrindo-os, como se personificasse a voz e vontade do próprio Deus. Para ela, o padre vampiro é um anjo enviado pelo Senhor que elegeu a pequena população da ilha para cumprir os seus desígnios. É também ela que acaba por condenar os 127 habitantes, dos quais apenas dois sobrevivem. 

No fundo, esta acaba por ser uma história de perdão e redenção, onde nada é deixado ao acaso. Contudo, se vais à procura de um conto de terror, não o irás encontrar aqui, pois em “Midnight Mass”, à semelhança de tantas outras narrativas, o maior monstro é o próprio ser humano e as atrocidades de que é capaz.

Midnight Mass, minissérie em análise
  • Inês Serra - 80
  • Manuel São Bento - 90
85

CONCLUSÃO:

Mike Flanagan leva-nos à igreja para contar, não uma história de sustos, mas sobre o terror humano. Convida-nos a reflectir e a digerir vários conceitos, mesmo que não estejamos familiarizados com a bíblia. Pode, no entanto, não ser um conteúdo para todos, uma vez que alguns dos diálogos tornam-se demasiado extensos.

Pros

  • Samantha Sloyan e Hamish Linklater
  • Cada personagem é devidamente apresentada e explorada, cumprindo um propósito na série
  • A subtileza e naturalidade com que os elementos sobrenaturais são inseridos na narrativa, nunca se sobressaindo à mesma
  • O desfecho, sem receios

Cons

  • A extensão de alguns diálogos, principalmente o entre Riley e Erin no episódio quatro
  • A exaustão de referências religiosas
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Inês Serra

Cresci a ir ao cinema, filha de pais que iam a sessões duplas...Será genético? Devoro livros e algumas séries. Fã incondicional do fantástico e do sci-fi. Gostaria de viver todos os dias com o mote Spielbergiano - "I dream for a living"

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