The Haunting of Hill House, primeira temporada em análise

Fenómeno inesperado da Netflix, o drama familiar pintado em atmosfera de mistério e terror, “The Haunting of Hill House”, mostra-nos que o trauma é o maior dos fantasmas.

Fundada em 1997 por Reed Hastings e Marc Randolph, a Netflix é hoje a melhor amiga das nossas mantas e sofás. A ascensão meteórica que pudemos todos testemunhar teve em 2011 (início de produção de “House of Cards”, primeira série original da plataforma de streaming) e Fevereiro de 2013 (estreia do drama político que conheceu este mês a sua sexta e última temporada) momentos-chave. Numa janela temporal de cinco anos, quase seis, a Netflix fez nascer o conceito de binge-watch (a visualização compulsiva, em modo maratona), diversificando os seus conteúdos ao abraçar a 7ª Arte, sem nunca deixar de ser um palco para as edições especiais de humoristas com algo para dizer.

De Fevereiro de 2013 até hoje vimos Frank Underwood chegar à Casa Branca, conhecemos cada uma das reclusas de Litchfield, seguimos o narcotráfico colombiano, descobrimos o passado da realeza britânica e abraçámos a jornada sobrenatural de um conjunto de miúdos incapazes de dispensar as suas bicicletas. Pelo meio, a Netflix deu guarida a muitos super-heróis da Marvel, tudo isto sem esquecer um certo cavalo antropomórfico e a segunda vida de séries como “Black Mirror” e “Arrested Development”.

The Haunting of Hill House
The Haunting of Hill House

Durante esta viagem, a máquina de produzir conteúdos tem aprendido a fazer escolhas, a cancelar projetos. Embora se possam questionar algumas opções do ponto de vista publicitário, parecendo a Netflix preferir confiar no passa-a-palavra, os últimos anos têm sido férteis em fenómenos que emergem de forma repentina. Há um ano atrás, “The End of the F***ing World” nasceu praticamente sem termos sabido da gravidez; e é impossível falar de séries Netflix que viraram fenómenos de popularidade num ápice sem referir “La Casa de Papel”. Pois bem, a 12 de outubro de 2018 nascia uma das séries mais comentadas no último mês, “The Haunting of Hill House”.

A obra homónima escrita por Shirley Jackson em 1959 já inspirara adaptações – ao cinema em 1963 e 1999, à televisão através de uma mini-série de Stephen King em 2002. Nunca, diga-se, com este sucesso e qualidade.

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“The Haunting of Hill House”, série perfeita para ser devorada num fim-de-semana e preferencialmente de noite em total comunhão com o escuro, tem sido amplamente elogiada pela crítica, alimentando teorias, recomendando segundas visualizações e tendo até já sido considerada por alguns o melhor original Netflix. Se o é? Não, opinião pessoal. Mas vamos procurar perceber o que faz de “Hill House” o mais inesperado fenómeno televisivo da segunda metade deste ano, desconstruindo o que Mike Flanagan e a sua equipa fizeram muito bem e menos bem.

The Haunting of Hill House
The Haunting of Hill House

Entre fantasmas literais e metafóricos, “The Haunting of Hill House” passa-se em dois períodos distintos. Em 1992, a família Crain muda-se para a Hill House, com o objetivo dos pais Hugh e Olivia remodelarem a casa, vendendo-a depois. Os filhos – Steven, Shirley, Theo, Luke e Nell – acompanham-nos.

A série explora esse período da infância dos cinco irmãos, e todos os acontecimentos paranormais que culminaram numa profunda tragédia. A narrativa navega entre essa época e o presente, no qual cada membro da família Crain reflete um passado por recalcar e assuntos por resolver, sendo forçada a reunião do clã por força de um novo acontecimento trágico. Estão amaldiçoados? Será uma doença mental hereditária na família? A série responde.

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Mike Flanagan desenhou “The Haunting of Hill House” utilizando o terror como chamariz e aperitivo, o mistério como fio condutor viciante, emergindo o drama familiar e o lado emocional/ ligação às personagens como payoff. Os episódios seguem uma prática comum, embora a cair em desuso: cada capítulo explora o mundo interior de uma das personagens, mergulhando na origem do seu trauma e na forma como o passado os moldou para o que são hoje.

Como é que Steven (Michiel Huisman interpreta o irmão mais velho) canalizou as vivências em Hill House para se tornar um escritor de renome, embora cético e descredibilizando aquilo que com o tempo se tornou loucura, memória pálida e imaginação fértil. Porque é que Shirley (Elizabeth Reaser) é dona de uma casa mortuária e porque é que Theo (Kate Siegel) jamais descalça as suas luvas. E finalmente, porque é que os gémeos Nell (Victoria Pedretti) e Luke (Oliver Jackson-Cohen), este último numa batalha diária contra o consumo de drogas, foram aqueles que desenvolveram cicatrizes mais profundas.

The Haunting of Hill House
The Haunting of Hill House

Faço um pequeno parênteses para destacar a notável fornada de terror em Hollywood nos últimos anos. “Foge”, “Hereditário”, “The Witch”, “Um Lugar Silencioso”, “Suspiria”, “O Senhor Babadook” e “Vai Seguir-te” são, julgo, exemplos consensuais. O que distingue todas estas peças do terror convencional e comercial, em que quase todos os jump scares são revelados nos trailers, é a capacidade de construir e gerar desconforto. De arrastar a ansiedade e flutuar entre o que é realidade e o que é insanidade. Como uma correria num longo corredor escuro que se recusa a terminar, acompanhado por um grito que sobe de tom a cada passo. “The Haunting of Hill House”, embora no pequeno ecrã, pertence a esta nata: apresenta-nos um passado que se torna pesadelo vivido e desperto no presente. Como termo de comparação recente e no meio, o paralelismo mais imediato de estabelecer será porventura “American Horror Story: Murder House”.

O terror de “The Haunting of Hill House” é visual, certo, mas sobretudo psicológico. Porque o melhor terror é o suspense. Ao melhor terror não queremos voltar.

Merecendo nota de destaque a excelente assinatura dos Newton Brothers a nível de banda sonora, o brilhantismo de Mike Flanagan está sobretudo no mérito de construir uma atmosfera subtil. O espectador, investido nas personagens e no mistério, é premiado pela atenção ao detalhe, à moldura completa e numa eventual segunda visualização – assim se apanham os movimentos das estátuas em segundo plano, assim se faz uma verdadeira caça aos fantasmas escondidos em diversos planos. Convém piscar os olhos quase tão pouco como Poppy.

The Haunting of Hill House
The Haunting of Hill House

É usual numa série carregada de mistério os pontos altos serem os episódios que nos dão respostas. Nesse sentido, o quinto e o nono (“The Bent-Neck Lady” e “Screaming Meemies”) episódios são os mais explicativos através do simples assumir de outra perspetiva. O episódio 9 é, de resto, um brilharete de Carla Gugino. Ainda assim, é impossível não destacar “Two Storms” (06), pelo surreal blocking, pela sua mise en scène e pelos fantásticos planos-sequência – alicerçados num set construído para o efeito, com a câmara a serpentear e a conferir, sem cortes, uma sensação de teatro de terror, exigindo naturalmente mais dos atores, mas conferindo credibilidade.

Do casting de “The Haunting of Hill House”, além das bem-sucedidas missões de transmitir a noção de família e tornar verosímil a correspondência entre cada criança e a sua respetiva versão adulta, deve-se relevar o extraordinário aproveitamento de Carla Gugino (convence como nunca), podendo-se considerar a série uma rampa de lançamento para Victoria Pedretti e Oliver Jackson-Cohen, sendo possivelmente Nell e Luke as personagens mais ricas.

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Curioso também verificar o hábito de Mike Flanagan em reutilizar atores com quem já colaborara. Para além da mulher e musa Kate Siegel, presente em vários projetos, o realizador de 40 anos já tinha trabalhado por exemplo com Carla Gugino, Henry Thomas, Elizabeth Reaser ou Annabeth Gish. Não surpreende por isso que Flanagan leve para “Doctor Sleep” – a sequela de “The Shining” que pós-Hill House vê o seu potencial crescer – dois secundários da série, Catherine Parker e Robert Longstreet.

The Haunting of Hill House
The Haunting of Hill House

Deixando de parte considerações sobre uma possível leitura diferente do final, graças a um bolo vermelho com as velas prontas para serem apagadas por Luke, a opção “positiva” de Mike Flanagan para o final é provavelmente o ponto mais frágil da série.

É certo que a elevação do drama e a romantização agarra e hipnotiza o espectador ao longo dos 10 episódios, mas em sentido oposto é curiosa e precisamente a resolução meiga que impede “Hill House” de deixar uma marca mais profunda na nossa biblioteca mental. Sobretudo tendo em conta o criativo preenchimento de significado e a respetiva revelação sobre o quarto vermelho, com a sua porta enigmática.

Para o futuro, Mike Flanagan já afirmou que a história da família Crain é um dossier fechado. É por isso natural que a Netflix procure trabalhar a marca “The Haunting of” como uma coleção de antologias de terror.

TRAILER | “THE HAUNTING OF HILL HOUSE”

Já viste “The Haunting of Hill House”? O que pensas da nova série-fenómeno da Netflix e do seu final?

The Haunting of Hill House - Temporada 1
The Haunting of Hill House - Poster

Name: The Haunting of Hill House

Description: Vinte e seis anos depois da sua estadia na Hill House e de uma perda terrível, a família Crain vê-se obrigada a confrontar o passado quando nova tragédia acontece.

  • Miguel Pontares - 82
  • Inês Serra - 89
86

CONCLUSÃO

O MELHOR - "The Haunting of Hill House" doseia quase sempre bem as proporções de terror psicológico, drama familiar e mistério viciante, que serve de fio condutor. Constrói e gera habilmente desconforto, prolonga a ansiedade e o suspense e dá as respostas nos momentos certos. O espectador é premiado pela atenção ao detalhe, mérito de uma realização e produção dedicadas a desenhar a atmosfera adequada.

O PIOR - A resolução positiva e reconfortante, embora deva satisfazer a maioria da audiência, impede a série de deixar uma cicatriz mais profunda no nosso imaginário.

Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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