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Terror em Estado de Graça

 

Algo negro paira sobre o terror de Hollywood.

Sempre nos sentimos atraídos pelo escuro, pelo desconhecido, pelos barulhos no canto do quarto. Desde o princípio Renascentista do memento mori ao slasher mascarado, o fascínio coletivo pelo grotesco e o macabro não é uma novidade, e ainda que 2020 nos tenha trazido uma história de terror real e em nome próprio, no ciclo cinematográfico, o medo tem-se entranhado praticamente desde o nascimento da sétima arte, quando Georges Meliès batizou o género com aquele que é comummente considerado o primeiro filme de terror da história: “Le Manoir du Diable”, de 1896.

A entrada no segundo milénio foi morna e complacente, mas a última década assistiu a uma espécie de revolução espiritual que nos agracia até hoje.

© 2003 New Line Cinema

O terror gratuito entra lentamente em extinção – ou talvez a nossa tolerância tenha atingido o limite. Os sustos descomplicados, os crescendos sonoros, a facilidade do escuro. O género – que vive e sobrevive do desconhecido, do incompreensível – estava estagnado num lamaçal de convenções cansadas e exageradas. Tudo estava a tornar-se familiar, e ainda que pontualmente sentíssemos a adrenalina do sobressalto, a crua verdade é que há muito tempo que não tínhamos… medo.

Era, na sua essência, uma crise sistémica, mas eis que nos ombros da pasmaceira dos 2000’s se ergue uma revolução cultural do cinema de terror, que se movimentou com confiança da falsa segurança do susto fácil para uma expressão artística cada vez mais refinada e única.

Os limites do cinema mainstream nunca foram tão ultrapassados. A questão é… porquê? Porque é que o Renascimento do Medo aconteceu?

Como em todas as revoluções dignas de seu nome, a resposta não pode ser unidimensional, mas uma convergência de diferentes fatores no momento certo. 

 

O Aborrecimento e o Fenómeno Blumhouse

A primeira década do novo milénio foi um slow-burner para o cinema de terror. Evidentemente que dele nasceram clássicos modernos, como “28 Dias Depois”, “A Descida”, “Os Outros”, “Deixa-me Entrar”, paralelamente, a qualidade do terror japonês continuava omnipresente, e chegou-nos também a icónica ascensão da Nouvelle Vague do Extremismo francês… contudo, e de um modo geral, a década pautou-se pelo cansaço da replicação dos remakes e das revisitações, particularmente no panorama norte-americano.

A tragédia do 11 de Setembro não será aqui virgem de culpa: com o horror real a cada noticiário, a nostalgia acabou por revelar-se um porto seguro numa Era em que ninguém estava preparado para rever os seus medos pessoais e sociais no ecrã. Este era um momento que requeria segurança, familiaridade, e por outro lado, um terror escapista, não demasiado complexo, fisicamente brutal, mas emocionalmente vazio. A violência e a nostalgia trazem a bênção da excitação temporária, mas não existe tensão. Não existe medo.

O público procurava algo interessante, diferente do que já tinha visto uma e outra vez em tantos filmes estandardizados que a memória difunde numa massa indistinguível. Foi nessa altura que os (pequenos) estúdios foram obrigados a abrir a gaveta dos argumentos mais pequenos e… peculiares.

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© Paramount Pictures

E introduzimos o fenómeno Blumhouse, iniciado, de certa forma, com os sucessos retumbantes de dois dos seus mais célebres low-budgets: por um lado, o filme de terror mais rentável da história – “Atividade Paranormal”, produzido com um orçamento de apenas 15.000 dólares e tendo gerado perto de 200 milhões de dólares na bilheteira, já para não falar no rol de sequelas que renderam outras várias centenas de milhões; por outro, “Insidious”, ou o equilíbrio perfeito entre a originalidade e a homenagem, entre o thriller sobrenatural e o terror familiar, entre a qualidade pura e o medo primitivo.

Graças à visão iluminada de Jason Blum da rentabilidade do terror low-budget, a Blumhouse tornou-se rapidamente uma referência incontornável na indústria produzindo várias incursões que deram sangue novo ao género e, ocasionalmente, novos clássicos de culto como “Sinister”, “Creep” ou “A Purga”. 

Perante a óbvia fórmula de sucesso de baixo risco e grande retorno, não demorou muito até que outros estúdios fizessem o mesmo.

 

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A Ascensão do Terror Artístico e de Intervenção

Apesar de ser a espinha dorsal de Hollywood, o terror nunca foi, na sua essência, um género reverenciado ou reconhecido. De facto, a atitude snob da indústria sempre se manifestou através de criações e abordagens preguiçosas.

A dificuldade de injetar profundidade num género cuja função primária é criar uma reação imediata de perturbação ou medo sempre esteve bem presente, mas efetivamente, a esmagadora maioria dos grandes e renomados clássicos de terror colocam os sustos fáceis no lugar do pendura e investem na criação de uma atmosfera de medo e terror intensa, como o comprovam “The Shining”, “O Exorcista” ou “A Semente do Diabo”.

Ora mesmo com a entrada nos 2010s amaldiçoada pela proliferação desmiolada das sequelas, remakes e “reinterpretações” desnecessárias, a promessa da renovação não tardou em manifestar-se e o experimentalismo e a abertura para novas fontes de medo foi, também, de importância absolutamente crucial.

Em certa medida e durante muito tempo, o género de terror foi relegado à lógica do parque de diversões: uma espécie de atração temporária, capaz de criar reações imediatas, apenas para ser descartada e esquecida depois de terminar. Ora para quebrar este ciclo vicioso, a rejeição da forma e da convenção foi o berço essencial de uma nova geração de terror artístico e de intervenção social que nos acompanha até hoje.

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Desde a desconstrução absoluta do género em “A Casa na Floresta”, à exploração da natureza da vida de uma sobrevivente à violência sexual de “Vai Seguir-te”, à economia da tensão de “Creep”, à jornada erótica e existencial de “Debaixo da Pele”, ao exercício feminista instigante de folclore sobre o medo e o peso religioso de “The VVitch”, ao desmantelamento conceptual do racismo de “Foge!”, ao bicho-papão do luto de “Hereditário”, à atmosfera claustrofóbica da solidão de “O Farol”, à alucinação à luz do dia sobre o trauma e o desespero de “Midsommar”.

Estes e muitos outros construíram o caminho iniciado no início da década, alargando-se em direções e intentos diversos, convidando sempre a audiência para uma experiência extrassensorial e de envolvimento com o género, não apenas como uma inequívoca fonte de adrenalina, mas como um membro crítico ativo em busca de significado. As maldições humanas que nos consomem são protagonistas em narrativas horripilantes que se entranham nos ossos e na pele. E, subitamente, o terror volta a ter alma.

 

A Atenção dos Grandes Estúdios

Numa Era em que o terror não só vinga na bilheteira, mas também na crítica, o género revela-se o inesperado dark horse que inspira uma indústria em contração e decadência.

Com “Foge!”, “Hereditário” e outros a ganhar a conversa da crítica – e estando regularmente bastante mais bem cotados do que o habitual “filme de prestígio” – os grandes estúdios não puderam mais ignorar a revolução.

A cultura do remake e da sequela continuava a não dar os frutos do passado e a repetição da nostalgia parecia não continuar a ser uma fórmula de sucesso: precisávamos de novos monstros.

A Universal foi a primeira a destrunfar, e elevando-se no sucesso dos universos cinematográficos da Marvel e da DC, tentou criar o seu próprio Dark Universe populado por alguns dos maiores monstros da história. No entanto, as paupérrimas performances de “Drácula: A História Desconhecida” e “A Múmia” não tiveram o impacto esperado.

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Por outro lado, a Warner rapidamente percebeu a fórmula de sucesso adaptada à realidade de um grande estúdio: apostar na visão não-filtrada de um jovem cineasta criativo e investir numa produção robusta e num elenco de qualidade – características até então raramente associadas ao cinema de Terror.

Desta convergência de decisões vitoriosas nascem dois prodígios: “The Conjuring”, um dos universos partilhados de maior sucesso da história do cinema e com ganhos na bilheteira que já se aproximam dos 2 mil milhões de dólares, e “IT”, inspirado no clássico de terror de Stephen King e que, produzido por 35 milhões de dólares, se tornou o filme de terror com maior bilheteira da história, rendendo mais de 700 milhões de dólares em todo o mundo – a sequela ficou também muito próxima do mesmo valor – e superando as expectativas mais otimistas.

As consequências destes estrondosos sucessos? Além dos óbvios copycats pouco inspirados… a abertura de outros grandes estúdios ao investimento no desenvolvimento e produção no género no futuro próximo… e o terror não viverá apenas nas “sombras” do sistema independente.

 

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Streaming to the rescue

Antes da génese do streaming, a maior parte dos filmes de terror encontravam muitos obstáculos ao lançamento em sala – ou por outra, as suas manifestações mais artísticas e experimentais. O mainstream estava confortável, e por isso, complacente. O terror “não tinha sequer de tentar”.

Quando o streaming passou a fazer parte do nosso dia-a-dia, tudo mudou, criando-se uma plataforma viável para diferentes gerações de cineastas que, anos antes, nunca encontrariam oportunidade de distribuição. Este sucesso significa que mais filmes continuarão a explorar o género e a redefini-lo, tudo à distância de meia dúzia de cliques no nosso comando de televisão.

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© Netflix

Vários filmes de terror independentes encontraram o seu lugar ao sol na Netflix, e o streaming em geral abriu muitas portas ao género, quer nos Estados Unidos (com sucessos como “Silêncio”, “Jogo Perigoso” ou “Cam”) quer para produções ou aquisições internacionais (desde os espanhóis “Plataforma” e “Verónica”, ao britânico “O Ritual”, sem esquecer o australiano “Cargo” ou o iraniano “Na Sombra do Medo”). 

Cada vez mais as produções de indústrias periféricas da Europa e Ásia se tornam acessíveis a todos. Até na televisão, com a ascensão das plataformas de streaming, o terror proliferou em séries como “The Walking Dead”, “American Horror Story”, “Penny Dreadful” ou “A Maldição de Hill House”.

O terror está em todo o lado, em quantidades e qualidades imensas, e nós não poderíamos estar mais famintos.

Terror num lugar ao Sol… até quando?

As coisas mudam e os gostos também. A sazonalidade dos ciclos é inescapável e é perfeitamente possível que os 2020’s sejam completamente distintos dos 2010’s – para o bem, ou para o mal. Num contexto único de pandemia e temor real como aquele que vivemos, é particularmente difícil prever o futuro do género ou, sequer, do meio.

Todavia, temos um pressentimento que a Era do Terror que ainda agora vivemos vai reverberar. Porque o Cinema de qualidade mantém-se vivo… e o medo também.

 

Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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